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Um passe em profundidade

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GOLO! A Cena de “Baghdad Messi”

d.r.

Reinaldo Serrano

Não sendo recentes, são estranhos os tempos em que vivemos. A ética é olhada de soslaio, a honra parece coisa passadista, a forma sobrepõe-se ao conteúdo. A sociedade, essa amálgama de convenções que normalmente servem uns e ignoram muitos outros, está repleta de exemplos evidentemente condenáveis, de justiça relativa, logo desequilibrada, logo injusta, de ações que mais não fazem que perpetuar no tempo a evidência de uma condição humana que é muito mais condição que humana.

Por esta panóplia de exemplos se pode (esperemos que corretamente) concluir que as exceções desdenhadoras da regra devem merecer, não apenas destaque, como desabrido aplauso. Eis o motivo pelo qual aqui sublinho a descoberta recente de uma curta-metragem de 2012, escrita e realizada pelo desconhecido Sahim Omar Kalifa, um jovem realizador de 35 anos, nascido em 1980 no Curdistão iraquiano. E, no entanto, as quatro curtas-metragens que realizou até à data conquistaram nada mais nada menos que 80 prémios internacionais, meia centena deles graças a este “Baghdad Messi”.

Poder-se-ia dizer que... o nome diz tudo; nada mais errado. O título remete de imediato para o mundo do futebol, mas este não é mais que um pretexto para a entrada num outro mundo: o da guerra, da destruição, das agruras de um quotidiano apaziguado apenas por pequenas coisas, como um pequeno televisor nos arredores da capital iraquiana em 2009.

A história gira em torno de uma criança de 10 anos; chama-se Hamoudi e a sua paixão é o futebol, mais exatamente a estrela argentina, principal rival de Cristiano Ronaldo. O ponto de partida é um descampado transformado em campo de sonhos para os jovens que partilham numa bola de futebol alguns momentos em que a guerra e o rasto por ela deixado são ainda mais absurdos. Fora do “terreno de jogo”, é a televisão que concita todas as atenções, mais ainda quando se aproxima o dia em que Messi, pelo Barcelona, e Ronaldo, então pelo Manchester United, se vão defrontar numa muito aguardada final da Liga dos Campeões... O problema, os problemas, surgem quando o pequeno televisor do pequeno Hamoudi se avaria.
O acontecimento, que tem tanto de extraordinário quanto de significativo, gera uma sucessão de eventos que hão de acabar em tragédia e numa dolorosa reentrada numa realidade que torna os sonhos em pesadelos.

A narrativa, quase em jeito de documentário, faz esquecer os 90 mil euros de orçamento deste interessante documento que é simultaneamente testemunho de uma realidade muito distante de nós, mesmo se com alguns laivos dela de quando em vez nos confrontamos.
São apenas 18 minutos, tempo mais que bastante para um retrato solto das vidas à solta que povoam a paisagem de um país em conflito. Também por isso, os assomos de genuína ternura se tornam mais reais, mais presentes, mais gratos.

Não adiantará tecer muitas mais considerações em torno de um pequeno grande filme que se define a si mesmo nas imagens iniciais. Está, além do mais, acessível à distância de um clique na net, a mesma que tantas alarvidades exibe, mas que também é espaço de meritório apreço quando possibilita a todos o acesso a objetos como este.

Termino um texto propositadamente breve para dar uma boa notícia: cerca de um ano depois da estreia, mais exatamente em maio de 2013, o muito jovem ator (10 anos) Ali al-Saidawi, conheceu em Doha o centro da sua (verdadeira) adoração quando, em Doha, contactou de perto com Lionel Messi. Há sonhos que ainda podem ser realidade. Demos graças por isso e, vá lá!, aceitemos com um sorriso de bonomia o facto de o “nosso” Ronaldo não ser muito bem tratado nesta curta... É só um filme. Mesmo não sendo apenas um filme...

Reinaldo Serrano escreve no EXPRESSO DIÁRIO às segundas-feiras