Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Pessoa inédito abre as portas à sua juventude

  • 333

JUVENTUDE. A documentação agora estudada remonta à tenra idade do poeta, enquanto ainda vivia em Durban, na África do Sul

D.R.

Mais de dois mil documentos inéditos de Fernando Pessoa aparecem estudados pela primeira vez na revista da Universidade norte-americana de Brown. Há poemas, cartas, descrições de comportamentos e até um livro. Uma história que remonta a meados da década de 70

Foi Teca, meia-irmã de Fernando Pessoa, quem abriu mais um baú de inéditos atribuídos ao poeta. Fê-lo no mais absoluto sigilo em meados da década de 70, enviando uma carta ao investigador britânico Hubert Jennings, com tudo o que descrevia a infância do pequeno Pessoa. Um menino travesso, que pregava partidas a toda a gente e gostava de subir ao palco de casa em pequenas peças de teatro para as quais pedia a ajuda dos irmãos. Mas um menino medroso também (a dualidade já o espreitava), que cada vez que ouvia um trovão, corria a esconder-se no escuro e tapava a cabeça para não ouvir o barulho.

Hubert Jennings, um dos primeiros biógrafos do poeta, guardou os manuscritos - cerca de dois mil documentos - na sua garagem, na Cidade do Cabo, na África do Sul. E só em julho passado, os filhos do investigador, ao procurarem um local para guardar definitivamente o espólio do pai, encontraram o conjunto de textos pertencentes a Pessoa. Com a máxima discrição, o novo baú do poeta foi então transferido para a Universidade de Brown, nos Estados Unidos da América, onde se encontra um importante centro de investigação de literatura portuguesa.

Novo estudo

Pouco se sabe até agora sobre o que realmente existe neste espólio pessoano, guardado desde a morte do biógrafo, ocorrida há 23 anos. Um primeiro estudo sobre a nova documentação, contudo, acaba de ser publicado na “Pessoa Plural”, a revista dedicada ao poeta e editada pela Universidade de Brown. No artigo que agora vê a luz do dia, há transcrições de documentos, um inventário do espólio com base no trabalho de Jennings, cartas perdidas, poemas inéditos e até um livro.

Gather round my heart,
Ye mists of the night.
Gather round me tight
Till you choke and smart,
Till you veil and affright.

Gather round me and make
The substance of me
That feels what tis to be,
A shadow and a lake
A sorrow and a see.

Something that is image
Of an imageless thing.

“The Poet of Many Faces”, uma compilação recolhida pelo biógrafo, com poemas inéditos escritos em inglês, pode até vir a ser a primeira publicação da poesia inglesa do autor. Mas por enquanto não há qualquer projeto a esse respeito. A revista avança ainda com um trabalho minucioso do argentino Patrício Ferrari, especialista na obra inglesa e francesa de Pessoa, onde se distinguem 25 poemas inéditos. Material disponível na versão online da publicação universitária.

Caminhos por desvendar

O mesmo número da “Pessoa Plural” conta também com a participação do pessoano brasileiro Carlos Pittella-Leite. Citado pela “Folha de São Paulo”, afirma, perentório, que há todo um novo caminho por desvendar no que respeita ao poeta mais nobre da língua portuguesa. “A vida e obra de Pessoa são um quebra-cabeças. Sabemos que há milhares de documentos que não foram publicados. O acervo de Jennings ajuda a montar esse quebra-cabeças”, diz Pittella-Leite, ele que, com Patrício Ferrari, foi o primeiro a consultar toda a nova documentação.

O investigador brasileiro, que ajudou a que o espólio do biógrafo de Pessoa seguisse da África do Sul para a Universidade norte-americana, acredita que ainda deve demorar um ano para que aquela instituição termine o trabalho de inventariação da papelada e estima que só depois seja possível ter uma noção mais precisa de tudo o que é verdadeiramente inédito e merece ser publicado.