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Os senhores do narcotráfico

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GANGSTER E 'ROCK STAR' O mexicano 'El Chapo' (Joaquín Guzman), líder do cartel de Sinaloa, recém recapturado, é um dos estereótipos dos novos senhores da droga: assassino para uns, ídolo para outros

reuters

Depois de entrar no submundo dos cartéis mexicanos, em “El Narco”, o jornalista Ioan Grillo trilha outras rotas do narcotráfico na América do Sul e Central, dando a conhecer quem são os 'senhores da guerra' nestes territórios

Depois do lançamento de “El Narco”, livro publicado em 2011 e que deu conta da criação de um estado dentro do México, o do narcotráfico, o jornalista Ioan Grillo, nascido no Reino Unido e a viver na gigante Cidade do México, lança agora “Gangster Warlords”.

O britânico continua a reportar este submundo feito de sangue e de dólares, mas agora num espetro geográfico mais abrangente: ainda que o rasto sanguinário dos cartéis mexicanos seja mais mediático e encha mais páginas de jornais, a rota da droga faz-se de muitos milhares de quilómetros, em toda a América do Sul, Central e nas Caraíbas. Do gang 'Shower Posse', na Jamaica, passando pela 'Mara Salvatrucha', nas Honduras, ao 'Comando Vermelho', no Brasil.

Nestas geografias, uma nova forma de criminalidade, associado ao comércio de droga, ganhou forma — de que o recém recapturado 'El Chapo', assim como Pablo Escobar o foi, é o seu expoente. Uma mistura entre gestor de negócios, terrorista, estrela rock, estratega e comandante de exército e líder político.

Em maio de 2010, como lembra o 'The Telegraph' na sua recensão ao livro de Grillo, foi declarado o estado de emergência em Kingston, capital jamaicana. As escolas fecharam e as lojas não abriram as portas. Todos se recolheram, enquanto os gangues tentavam evitar que o seu líder, Dudus Coke (Michael Christopher), fosse preso. Conhecido como 'Robin Hood', é “apenas” mais um dos novos rostos da droga, cujo poder evoluiu mesmo à frente da cara da polícia e dos políticos.

As formas de luta dos Estados, inadequadas para combater estes grupos, acabaram por dar-lhes mais força. Transformaram-se em exércitos, substituíram as instituições governamentais em determinados territórios. Nos guetos de Kingston, Dudus criou escolas e esquemas de emprego para os moradores. Para uns era um assassino, para outros um benemérito. Assim são os descendentes de Escobar, à sua imagem. Ou nem tanto assim: cinco meses depois de uma caça ao homem, Dudus foi preso. Nessa altura, usava saia e cabeleira postiça cor-de-rosa, na tentativa de despistar as autoridades.

Para escrever este livro, Grillo mergulhou no dia a dia destas geografias, esteve nas grandes cidades, falou com polícias, gangsters e mercenários. Visitou criminosos na prisão, esteve envolvido em tiroteios na Venezuela enquanto acompanhava a polícia, entrou nas favelas do Rio de Janeiro. Um retrato do submundo da droga feito em tempo real, em estilo de reportagem. O 'The Telegraph' deu-lhe quatro estrelas.

Pelo meio, conta o percurso de cada grupo, desvenda os métodos que usam para cultivar, armazenar, transportar e proteger a carga. Estes são, muitas vezes, trabalhos de quem devia estar do lado da lei, mas passou a fronteira. 90% da cocaína que entra nos Estados Unidos passa pela fronteira mexicana de Ciudad Juárez. Os transportes são vigiados por criminosos, mas também por polícias, completamente imiscuídos no território da criminalidade. Matam tanto quanto os que não usam farda, deixando espalhados os cadáveres — antes, eram depositados em gigantescas valas comuns, hoje nem isso. Expostos, servem de aviso. Só no México, no ano passado, a contagem dos mortos à mão dos cartéis fixou-se nos 7.428.

“Gangster Warlords: Drug Dollars, Killing Fields, and the New Politics of Latin America”, de Ioan Grillo, Bloomsbury, 377 páginas, €17,40 (preço na Amazon)

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