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O desafio de Sindika

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FUNDAÇÃO Sindika Dokolo tem vindo a negociar protocolos com Rui Moreira e comprou esta semana a casa Manoel de Oliveira

RUI DUARTE SILVA

Numa entrevista publicada na última edição da revista do Expresso, o historiador francês René Pélissier, o investigador estrangeiro mais traduzido em Portugal, provável detentor da melhor biblioteca do mundo sobre o antigo império colonial, com mais de 12 mil volumes, quando perguntado pelo jornalista José Pedro Castanheira se estaria disponível para negociar a sua suculenta biblioteca, dá uma resposta tão cruel, quanto verdadeira. Subentende-se na questão colocada o desejo de um destino tido como natural para espólio tão valioso e tão intensamente ligado à história portuguesa. Pélissier percebe-o de imediato, mas diz algo natural em quem reflete sobre a vida dos povos. Por isso, ao negar a eventualidade de os seus livros rumarem a Portugal, consegue, sem grande dificuldade, justificar-se através do retrato de um certo modo de ser português. Assegura o historiador conhecer “os defeitos da sociedade portuguesa, a falta de estabilidade do pessoal e dos dirigentes dos serviços culturais”. Em Portugal, acrescenta, “há muito boas intenções”, mas falta tudo o resto, acrescento eu.

 Casa Manoel de Oliveira

Casa Manoel de Oliveira

SÉRGIO GRANADEIRO

O sucedido com a casa Manoel de Oliveira, esta semana vendida em leilão a Sindika Dokolo, colecionador de arte, empresário nascido no Zaire, marido de Isabel dos Santos, é um excelente exemplo. Revela como as boas se misturam tantas vezes com as más intenções, ao ponto de se anularem umas às outras.

A casa, com projeto de Eduardo Souto de Moura, destinava-se não apenas a acolher o realizador como a receber o seu acervo e a funcionar como centro de divulgação da sua obra e dos títulos de referência nas diferentes áreas do cinema mundial. Lançada em 1998, por ocasião do 90º aniversário do realizador e quando Fernando Gomes presidia à Câmara Municipal do Porto, ficou concluída em 2003, já no primeiro mandato de Rui Rio.

Até hoje, a casa nunca teve qualquer utilização. Para compreender este desvario seria necessário conhecer bem a irascível personalidade de um presidente pouco dado a acolher ideias exteriores aos seus próprios esquematismos, e a maneira de ser de um arrufadiço Manoel de Oliveira, mais habituado a decidir de acordo com a sua exclusiva vontade. Como seria de esperar, acusaram-se mutuamente pelo fracasso da casa-museu.

Com o passar dos anos, e com a degradação do edifício, começou a perceber-se como seria difícil algum dia ali ser concretizada a ideia inicial. De tal ordem que, em 2013, a Fundação de Serralves opta por assinar um protocolo com a família de Manoel de Oliveira para acolher todo o seu arquivo num projeto a elaborar por Álvaro Siza Vieira. No anos seguinte, Rui Moreira, novo presidente da autarquia, decide o inevitável: colocar o imóvel à venda.

Poucos meses após esta decisão aparece em cena Sindika Dokolo. No âmbito da inauguração, em maio de 2015, de uma grande e belíssima exposição na Galeria Municipal do Porto - You Love Me You Love Me Not - construída a partir da sua coleção de arte, e apresentada como primeiro ato de uma mais profícua relação com a cidade, o empresário e os seus assessores são postos ao corrente de variados aspetos da realidade cultural portuense.

Sindika ladeado por Isabel dos Santos e Rui Moreira na inauguração de You Love Me You Love Me Not

Sindika ladeado por Isabel dos Santos e Rui Moreira na inauguração de You Love Me You Love Me Not

RUI DUARTE SILVA

Um dos principais responsáveis pela Fundação Sindika Dokolo, com quem nos encontrámos então para um pequeno almoço, acaba mesmo por nos confessar o muito interesse manifestado pelo empresário na Casa MO. Anteviam já um rol imenso de possibilidades de trabalho a partir do Porto, com epicentro naquele edifício, e com ligações a África e à Europa.

Após um primeiro leilão falhado, a CMP conseguiu por fim vender esta semana a Casa MO, por €1,58 milhões. Comprou-a Sindika. Umas horas depois fazia saber do seu interesse em promover redes de reflexão artística e fortalecer laços entre Portugal, Angola e África, num espaço destinado a servir, também, de plataforma de lançamento de novos valores nos mais diversos domínios da criação artística.

Sindika Dokolo não é português. Optou por Portugal nesta vertente muito específica. A grande expectativa passa por vê-lo concretizar, de facto, as intenções manifestadas. Até para que aquele modo de ser português, interiorizado pelo investigador francês René Pélissier, não acabe transformado em sina. Agora a tolher o simples facto, já não apenas de ser, mas também de estar em Portugal. Esse é o grande desafio colocado a Sindika Dokolo.

Valdemar Cruz escreve no EXPRESSO DIÁRIO às quintas-feiras