Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Valor pago a quadro de pintor português no centro da investigação à gestão danosa de museu espanhol

  • 333

Della Biesta Triunphante é o quadro da polémica

Ex-diretora do Instituto Valenciano de Arte Moderna (IVAM) é acusada com quatro ex-diretores de desfalque e vários outros delitos

Um quadro do pintor, arquiteto e escultor português Júlio Quaresma, intitulado "Della bestia triunphante", (2,40x1,20) datado de 2005, terá sido sobrevalorizado em 1 500% pelo Instituto Valenciano de Arte Moderna (IVAM) no momento da aquisição. O museu pagou €32 400 por uma obra que, segundo um avaliador independente, não valeria mais que € 2 000. Esta e outras acusações à gestão de Consuelo Ciscar, diretora entre 2004 e 20014 do museu tido como um dos mais importantes de Espanha no setor da arte contemporânea, está a ser investigada por uma juíza de Valência, noticia hoje o El País.

Segundo o jornal, as consequências desta investigação poderão "provocar um terramoto no mundo da arte em Espanha". A juíza Nuria Soler imputa vários delitos a Ciscar, uma mulher com fortes relações no mundo artístico português, e personagem poderosa no âmbito da política cultural valenciana durante a governação do PP naquela comunidade. As supostas infrações incluem desfalques, falsificação de documentos e prevaricação, e abrangem quatro ex-subdiretores do museu: Juan Carlos lledó, Juan José Bria, Norberto Ibañez e Raquel Gutiérrez.

Nos autos, a juíza refere, segundo o El País, que terão sido pagas importâncias "não justificadas por obras de arte e publicações que se tornava evidente" não corresponderem aos valores declarados. Desta prática, acrescenta a juíza, decorria "um claro lucro para terceiros", e evidentes prejuízos para os fundos públicos com os quais é gerido o museu.

A magistrada coloca muitas reservas quanto ao modo como foram compradas peças à galeria Gao Ping, "suposto cabecilha de uma mafia chinesa de branqueamento de dinheiro em Espanha", diz o matutino. Em três obras de arte o preço comunicado é superior ao da aquisição (70%, 50% e 2,04%").

Constata-se ainda que "existe uma importante sobrevalorização de várias obras selecionadas de maneira aleatória", como é o caso do quadro de Júlio Quaresma, apresentado como "um artista muito próximo de Consuelo Ciscar". Outra nota estranha é o facto de o IVAM ter organizado várias exposições de Quaresma no estrangeiro, o que, refere o El País, a juíza também coloca em questão, "tanto pela sua legalidade, como pelos custos".

A credibilidade do avaliador

Contactado pelo Expresso, Júlio Quaresma, autor de uma rubrica semanal na revista Caras sobre o mundo da arte, revelou ter já contestado todas estas afirmações e coloca mesmo em causa a credibilidade do avaliador, Jaime Brihuega. Se tivermos em conta, diz, "que a avaliação é sustentada num trabalho em que a única coisa correta é o título da obra, uma vez que estão erradas a dimensão do quadro e a técnica utilizada, é legítimo deduzir que Brihuega nunca viu a obra".

Na opinião de Quaresma "tudo isto faz parte de uma tentativa de apagamento político da diretora do museu e do marido", Rafael Blasco. O ex-conselheiro da Generalitat de Valência pelo PP cumpre neste momento uma pena de prisão de seis anos por delitos cometidos na sua gestão.

Depois de referir o facto de ter doado várias obras ao IVAM, onde fez duas exposições numa altura em que “não conhecia de lado nenhum a diretora do museu”, Júlio Quaresma realça o facto de o mesmo avaliador ter atribuído “àquelas obras um valor sempre superior ao que agora dá a este quadro”.

Acresce que a aquisição da obra em causa, explica o pintor, foi o resultado do critério unânime dos membros do conselho reitor do IVAM, após a apreciação feita pela comissão de aquisições, da qual "formava parte Tomás Llorens, prestigiado crítico e especialista em arte contemporânea, ex-diretor do próprio IVAM e na atualidade seu diretor honorário, ex-diretor do museu reina Sofia e Conservador Chefe da coleção Thyssen-Bornemisza.

Antes de ser adquirido pelo IVAM, o quadro “della Bestia Triunphante” esteve exposto em oito instituições, entre as quais o Museu da água, em Lisboa, Plácio de los Serranos, em Ávila, Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura de Fortaleza, Brasil ou no Museu Óscar Niemeyer, em Curitiba.