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Outra obra ao negro

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REVISITAÇÃO Cena de “O carteiro toca sempre duas vezes” de Tay Garnett

d.r.

Reinaldo Serrano

Não será um nome na primeira linha da popularidade, mas as suas primeiras linhas tornaram-no bastante popular entre uma certa comunidade literária e uma incerta comunidade cinematográfica. Sem mais delongas aqui se invoca, esperemos que não em vão, o nome e a obra de James M. Cain. O nome dirá pouco a muitos, mesmo se completarmos o M e o transformarmos em Mallahan, batismo do meio de um autor que, entre outros, deu à estampa o romance “The Postman Always Rings Twice” (“O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes”).

Se dele me permito falar (um tanto ou quanto inesperadamente, admito), é porque em 2016 se cumprem 70 anos sobre a estreia cinematográfica desta adaptação levada ao grande ecrã pela mão e pelo olhar do norte-americano Tay Garnett (por falar em nomes pouco conhecidos...). O filme, que pode e deve ser visto ou revisto, tem nos desempenhos de John Garfield e da inesquecível Lana Turner trunfos de monta no que é uma montra privilegiada das fraquezas da condição humana e de quão negro pode ser o coração do homem... e da mulher.

Num registo típico do filme negro, género maior entre os apreciadores do cinema clássico, a obra escrita por Cain ganhou indiscutível projeção no cinema e na televisão, o que é tanto mais notável quanto se tratou do seu romance de estreia, corria o ano de 1934. Desde então, o nativo de Maryland (onde nasceu no primeiro dia de julho de 1892) deu ao mundo da literatura e da sétima arte um sem fim de grandes obras que mereceram a atenção de grandes realizadores.

Basta lembrar que o grande “Ossessione” (“Obsessão”). que Luchino Visconti dirigiu em 1942, é uma versão não assumida mas inspirada justamente em “The Postman Always Rings Twice”. O filme conheceria um novo impulso de popularidade quando Bob Rafelson decidiu, em 1981, fazer um “remake” da obra de 1946, apostando (e bem) no protagonismo atribuído a Jack Nicholson e à (sempre) extraordinária Jessica Lange, e na prestação de David Mamet como argumentista. Mas o universo de James M. Cain não se reduz a estes títulos, pelo que valerá a pena lembrar que nomes cimeiros de Hollywood ,como Billy Wilder (“Double Indemnity” ou “Pagos a Dobrar”, de 1944), Michael Curtiz (“Mildred Pierce”, de 1945), Anthony Mann (“Serenade”, de 1956) ou Douglas Sirk (“Interlude”), entre muitos outros, viram na obra de Cain potencial para o risco de uma adaptação cinematográfica. Não por acaso, o próprio Cain haveria de ser solicitado como argumentista para muitas obras de maior ou menor fôlego.

Claro que o idiossincrático mercado lusitano não encontrou espaço para o notável trabalho deste escritor “noir”, e a estampa das edições portuguesas só despertou graças ao sucesso da série televisiva “Mildred Pierce”, pelo que este é o romance disponível nos escaparates; mas não é tarde para partir à descoberta de um dos mais interessantes autores de policiais norte-americanos, seja pelos diálogos exemplares, seja pela forte densidade psicológica das personagens, seja pelo “suspense à antiga” que impregna a obra de Cain, um homem que trabalhou praticamente até morrer, em 1977, então com 85 anos.

Complementar a preceito a leitura de James M. Cain é, por exemplo, escutar sem reservas o muito curioso “Jazz Noir”, uma curiosa (e acessível) compilação repartida por 3 CD, e onde nomes como Duke Ellington, Elmer Bernstein, Miles Davis ou John Barry, entre outros, asseguram a atmosfera certa para a deglutição generosa da narrativa de Cain. E mesmo para os mais céticos, aqui fica outra sugestão, à luz (forçada) das velas, que o vento lá fora não se compadece com a escrita (por enquanto manual) do homem cá dentro; para esses recomendo vivamente (no mercado externo, naturalmente) a aquisição de “Watching the Detectives - Themes and Music from Classic TV Crime Shows and Movies”. Bem sei, o nome é grande, mas o prazer será enorme ao recordar temas da caixa que mudou o mundo quando o mundo que passava na caixa era o de “Dragnet”, “Perry Mason”, “The Untouchables” ou “Peter Gunn”.

Só a música poderá suavizar os ecos dos tiros, dos becos esconsos, das ruas tortuosas ou do preto e branco para onde nos remete o universo negro de Cain e demais sequazes da aventura de um género que foi e não volta. E ainda bem, porque à medida que o tempo avança tenho cada vez mais saudades do passado. Bem passado, se faz favor...

Reinaldo Serrano escreve no EXPRESSO DIÁRIO às segundas-feiras