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Catarse e homenagem

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Um ano após o massacre na redação do “Charlie Hebdo”, desenhos de crianças e jovens homenageiam as vítimas e ajudam a pensar sobre aquela tragédia

ANIVERSÁRIO. Laura, de 12 anos, recordou os ilustradores chachinados

ANIVERSÁRIO. Laura, de 12 anos, recordou os ilustradores chachinados

Contra as armas, os lápis. Podia ser o lema da resistência ao terrorismo que ameaça a liberdade de expressão e foi, efetivamente, o assunto de muitas ilustrações que surgiram na imprensa mundial, há um ano, em reação ao atentado contra a redação do jornal satírico francês “Charlie Hebdo”, a 7 de janeiro de 2015. O contraste entre o cano do fuzil e o bico do lápis frisava bem a cobardia daquele ato.

É também esse o programa de um livro que homenageia as vítimas:“#JeDessine” (“Eu desenho”). “Quando os lápis cercam uma metralhadora [imagem da capa do livro], estão a dizer que para eles a liberdade de pensar é mais forte do que as armas”, explica Boris Cyrulnik, autor dos textos deste volume, lançado no primeiro aniversário da tragédia.

HORROR. Noé, de 10 anos, expressou assim a sua angústia

HORROR. Noé, de 10 anos, expressou assim a sua angústia

Naquele tempo terrível, desenhar serviu não só para repudiar o assassínio de Charb, Cabu, Wolinski, Tignous, Honoré, Frédéric Boisseau, Franck Brinsolaro, Elsa Cayat, Bernard Maris, Ahmed Merabet, Mustapha Ourrad e Michel Renaud como para refletir sobre o sucedido. O próprio ilustrador Luz, membro destacado da equipa do “Charlie”, lançou o apelo: “Se são Charlie, provem-no. Peguem nos lápis ou no digitalizador e exprimam-se, com textos, com vídeos, seja o que for. Que surjam milhões de Charlie Hebdo nos liceus, nas universidades, nas tipografias do mundo inteiro”.

Foram muitas as crianças e os jovens que responderam ao desafio, “do infantário aos 25 anos”, segundo a diretora de recursos humanos do jornal, Marika Bret. Não raro incentivados por pais e professores, os mais novos exprimiam raiva, medo ou tristeza a propósito do massacre. O jornal recebeu mais de 10 mil obras, em sinal de apoio e solidariedade, muitos delas acompanhadas do lápis que servira para as criar. E a editora Les Échappés, que edita o “Charlie”, decidiu fazer algo com eles.

DESENHAR. Para Esther, de 10 anos, “uma mão serve para segurar um lápis, não uma arma”

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Charlies a germinar

O livro que hoje sugerimos – apoiado pelo Ministério da Educação francês e com o subtítulo “a juventude desenha para Charlie Hebdo após o 7 de janeiro” – reúne 160 desses desenhos, que agrupa em oito temas: liberdade de expressão, apoiar, símbolos e valores da República, liberdade de consciência, união, todos iguais, não ao terrorismo e criar. Cada secção é apresentada por Cyrulnik, neuropsiquiatra que se tem dedicado a divulgar o conceito de resiliência e que ensina na Universidade de Toulon.

Existe um fim pedagógico neste projeto. “Quando uma criança assiste a um acontecimento que a desorienta (…), pode ficar confusa se não for ajudada a compreender. Uma emoção demasiado forte desorganiza a sua psique, mas pode retomar o comando do seu mundo íntimo desenhando o que extrai do real”, defende Cyrulnik neste livro. A par esta edição de 25 mil exemplares, o “Charlie Hebdo” criou a associação Dessinez Créez Liberté (Desenhem, Criem Liberdade), em parceria com o SOS Racismo e um sindicato liceal, propondo-se utilizar estes desenhos para estimular trabalhos escolares.

LIBERDADE. Morgane, de 16 anos, foi buscar um verso conhecido de Paul Éluard

LIBERDADE. Morgane, de 16 anos, foi buscar um verso conhecido de Paul Éluard

Bret, responsável pelo projeto, considera os autores dos desenhos “Charlies a germinar” e explica que a seleção – que inclui lápis-estandartes, divisas como “contra o ódio o humor” e até um Maomé cortado ao meio com a explicação “ninguém disse que era proibido representar-me pela metade” – se baseou na qualidade gráfica e na força da mensagem das obras. Fiel ao espírito Charlie, não faltam ilustrações que vão contra o espírito geral da reação ao atentado, questionando a presença árabe em França, a pena de morte ou a responsabilidade das vítimas no sucedido. “Não quisemos esconder nada”, explica Marika Bret.

Os trabalhos vão ser expostos no festival de banda desenhada de Angoulême, entre 28 e 31 de janeiro, circulando depois por várias cidades francesas. Os milhares de desenhos serão catalogados e arquivados. Nos últimos meses, depois dos atentados de 13 de novembro, o seu número cresceu, conta a equipa do “Charlie Hebdo”.

“#JeDessine”, Autores: vários (ilustrações), Boris Cyrulnik (textos), Editora: Les Échappés, Páginas: 135, Preço: 19,90€ (preço de editora)

“#JeDessine”, Autores: vários (ilustrações), Boris Cyrulnik (textos), Editora: Les Échappés, Páginas: 135, Preço: 19,90€ (preço de editora)