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Os netos da Rua Arbat

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RÚSSIA. Em 2016 a Casa da Música escolhe a Rússia como país tema e também o Teatro São João recebe uma grande produção russa, a peça “Guerra”.

VLADIMIR VYATKIN

No final dos anos de 1980 foi por fim publicado fora da então União Soviética o romance “Os Filhos da Rua Arbat”, de Anatoli Rybakov, um escritor há muito em rota de colisão com o regime. Para aquela espécie de épico de denúncia do estalinismo, Rybakov servia-se de um microcosmos muito particular, centrado no universo artístico e cultural da Rua Arbat, porventura a mais famosa artéria moscovita, onde tinham lugar cativo poetas, escritores, artistas plásticos, ou músicos.

O livro teve um percurso feito de sucesso num tempo de vigência ainda do clima de guerra fria, mas marcado já pela eminência de grandes e insuspeitadas mudanças no chamado bloco soviético.

O russo Grigory Sokolov é visto como um dos maiores pianistas vivos

O russo Grigory Sokolov é visto como um dos maiores pianistas vivos

d.r.

Os filhos da rua Arbat, no que aqui nos importa, retratados por Rybakov nos duros anos de 1930, não eram muito diferentes dos que por lá andariam décadas antes e continuaram a frequentá-la muitas décadas depois. Se há uma característica comum a importantes setores da intelectualidade russa desde pelo menos o século XIX, é a paixão por um idealismo capaz de rasgar fronteiras, um inigualável fervor revolucionário responsável por muitas inovações estéticas e uma tremenda vontade de rasgar convenções e definir caminhos novos. Aconteceu assim no cinema, com Eisenstein (então e Dziga Vertov? E Tarkovsky?), na música, com Stravinsky (então e Prokofiev? E Shostakovich? E Rakhmaninov?), na literatura, com Tchéckhov (e então Dostoievsky? E Pushkin? E Maiakovsky? E Tolstoi?), na dança, com Diaghilev (então e Balanchine? E Anna Pavlova? E Nureyev?). É perturbante pensar como poderia ser infindável esta lista, até quando se pretendesse entrar noutras áreas, como a pintura ou o fabuloso mundo dos intérpretes musicais.

A Rússia, entendida no seu sentido mais lato, porventura aquele que melhor se identifica com o conceito de "mãe Rússia", tem sido um precioso alforge de criatividade, umas vezes demasiado marcada pelo seu tempo, tantas outras vezes dominada pela voragem de antecipar tempos novos.

Na sua programação para este ano, e ao escolher a Rússia como país tema, a Casa da Música vai proporcionar uma irresistível viagem através do património musical de um espaço geográfico onde, ao longo dos últimos dois séculos, se desenvolveram algumas das mais inovadoras propostas musicais. A música não se impôs como um continente isolado. O trabalho visionário e apurado dos compositores era um reflexo do que em simultâneo se passava no contexto das artes ou da literatura.

Gabriel Prokofiev, compositor, neto do célbre Prokofiev, estará na CM em março

Gabriel Prokofiev, compositor, neto do célbre Prokofiev, estará na CM em março

d.r.

Amanhã à noite, na abertura oficial do programa, a Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música, dirigida por Baldur Brönniman, com a violinista Viviane Hagner como solista, vai interpretar “A Sagração da Primavera”, de Igor Stravonsky, uma partitura cuja estreia em Paris, em 1913, constituiu um escândalo memorável e ainda hoje se encontra no rol das raras peças musicais transformadas em ícones do século XX. Antes, será tocada uma composição contemporânea, o concerto nº 4 para violino e orquestra, de Alfred Schnittke, estreado em 1984 pela Orquestra Filarmónica de Berlim.

Será um ano arrebatador com a Casa da Música a transformar-se em epicentro de constantes peregrinações musicais para quantos estejam disponíveis para entrar nesta viagem de uma dimensão única em Portugal. O programa é vasto e vai dos primórdios da música vocal da tradição ortodoxa até os nossos dias. Serão interpretadas as sete sinfonias de Sergei Prokofieff e os quatro concertos para piano e orquestra de Sergei Rachmaninoff, num correr de tempo onde se incluem algumas das obras mais relevantes de compositores como Stravinsky, Tchaikovsky, Chostakovich, Borodin, Rimsky-Korsakov ou Mossurgsky.

De alguma forma estes poderiam ter sido os pais de muitos dos filhos da rua Arbat criados por Rybakov. Nesta metáfora à volta de alguma genialidade russa proporcionada pelo nome de uma rua, é bom percebermos ter chegado já o tempo dos netos, como foi possível comprovar esta semana em Paris. No Théatre de la Ville, está a ser apresentada até amanhã a peça “Guerra”, criada pelo jovem encenador russo Vladimir Pankov e programada para os dias 5 e 6 de fevereiro no Teatro Nacional São João.

A violinista Alina Ibraginova atua em novembro

A violinista Alina Ibraginova atua em novembro

d.r.

É um trabalho sobre o qual se falarei de forma desenvolvida numa das próximas edições da Revista do Expresso. Fica, para já, a antecipação de que se aproxima um verdadeiro terramoto teatral ao qual será difícil alguém ficar indiferente. Seja para odiar, seja para glorificar sem limites. Hoje já não acontecem nas plateias escândalos como o ocorrido na estreia da “Sagração da Primavera”, mas os ventos soprados a partir da Rússia continuam a vir marcados pelo mesmo fervor revolucionário de quem, como Pankov, se empenha em estilhaçar todas as margens. Às vezes já quase sem ideais, mas ainda afogados numa elevada dose de idealismo.

Valdemar Cruz escreve no EXPRESSO DIÁRIO às quintas-feiras