Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Manual da crise financeira para totós

  • 333

"A Queda de Wall Street", que chega esta quinta-feira às salas de cinema portuguesas, não é apenas um dos melhores filmes do ano. É serviço público, descodificando como se produziu o colapso da economia – e como aqueles que o previram lucraram uma fortuna

Como se cozinha uma crise financeira como aquela que rebentou nos EUA em 2008 e depressa contaminou a Europa e o mundo? Primeiro, coloque no fundo da panela uma pitada de azeite e junte-lhe muito crédito hipotecário fácil e de alto risco, para toda a gente, mesmo que não tenham salário, nem emprego, nem ativos. Deixe refogar. Depois, encha a panela de produtos financeiros alicerçados nesse dinheiro emprestado (as chamadas obrigações hipotecárias), mesmo que estejam podres - as entidades responsáveis tratarão de assegurar que se trata de filé mignon da melhor qualidade, tal a convicção de que o mercado imobiliário é inabalável. Envolva tudo e deixe repousar algum tempo até milhões de pessoas não terem como pagar as hipotecas e os bancos perceberem que estão sentados em cima de maus créditos e que as tais obrigações que criaram valem, afinal, pouco mais do que nada.

Quando a bolha do crédito rebentar e as instituições financeiras colapsarem, o resto da economia cairá como um dominó: milhões de pessoas perderão o emprego, as casas e as poupanças, ao mesmo tempo que os responsáveis pela crise serão socorridos com o dinheiro dos contribuintes... Onde é que já vimos este filme? Pois, em 2008. "A Queda de Wall Street", que se estreia esta quinta-feira em Portugal, explica esta derrocada através das histórias de um grupo de investidores visionários e oportunistas (interpretados por Christian Bale, Ryan Gosling, Steve Carell e Brad Pitt) que previram o colapso global da economia dos EUA e tiveram uma ideia: apostar na queda das obrigações hipotecárias e de produtos financeiros complexos como os CDO (obrigações que têm como garantia um bem colateral, neste caso o crédito à habitação), confiando na ganância dos banqueiros. Estes estavam tão entretidos a contar o dinheiro que ganhavam com o mercado imobiliário que ignoraram os sinais de alerta. Quando o sistema ruiu e a catástrofe se consumou, os visionários oportunistas ganharam milhões. Nesta história não há heróis.

Realizado por Adam McKay e baseado no bestseller homónimo de Michael Lewis, um dos mais prestigiados jornalistas americanos na área das finanças, o filme consegue em 130 minutos o que muitos jornalistas de economia não fizeram em muitos anos: é um esforço notável para descodificar a linguagem do 'economês', tornando-a acessível até para os mais leigos. Por vezes, são os próprios atores que olham diretamente a câmara e explicam de forma didática como a economia funciona; outras vezes, o realizador introduz interlúdios bem dispostos, como uma espampanante loira deitada numa banheira com espuma (a atriz australiana Margot Robbie), Anthony Bourdain a cozinhar um prato com peixe estragado ou Selena Gomez a jogar Blackjack, para explicar os credit default swaps e outros conceitos complexos. A mesma máquina da cultura popular que debita tudo sobre a vida das Kardashians, e que nos distraía enquanto o mundo financeiro colapsava, é convocada para nos dar a informação que realmente importa. Bem cortada aos pedaços, para a podermos digerir como deve ser.

McKay, que é sobretudo um homem da comédia ("Filhos e Enteados", "O Repórter: A Lenda de Ron Burgundy", entre outros), usa o humor negro para traçar um retrato corrosivo de uma Wall Street corrupta, sem escrúpulos e demasiado arrogante para perceber um ensinamento deixado por Tolstoi há mais de um século: "É possível explicar o assunto mais difícil ao homem de compreensão mais lenta que ainda não tenha formado qualquer ideia sobre ele; mas é impossível esclarecer a coisa mais simples ao homem mais inteligente que esteja perfeitamente convencido de já saber, sem sombra de dúvidas, aquilo que lhe apresentam".