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Que se lixe, quero ser um super-homem

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David Jones foi Bowie, Ziggy Stardust, Major Tom, Thin White Duke. Foi ator, pintor, músico, homem de negócios. Foi sobretudo um pioneiro que fez tudo o que quis. Ele disse que gostava de ser um super-homem e que “podíamos ser heróis só por um dia”. Quem o ouviu sabe que foi mais do que tudo isso - foi de outro planeta. A história dele contada a pensar nos que sabem quase nada sobre ele, nascido David Jones, partido David Bowie

“Sempre tive uma necessidade repulsiva de ser mais do que um humano. Sentia-me muito frágil enquanto humano. Pensava ‘que se lixe, quero ser um super-homem’”.

É difícil explicar quem foi David Bowie. A sucessão de acontecimentos e decisões que marcaram a sua vida e carreira parecem formar uma lista quase aleatória de várias vidas e carreiras diferentes. Nunca o chegamos a compreender, nem sabemos se era isso que ele queria. A música faz a colagem possível entre David Jones e David Bowie, entre Ziggy Stardust e Major Tom, entre rock e pop, entre as várias facetas de um homem que escapava a rótulos - reinventa-se vezes de mais para ser encaixotado pelos jornalistas, pelo mundo inteiro.

O próprio Bowie, rodeado daquela aura difícil de explicar, sabia e reconhecia que o choque, a provocação e o mistério faziam parte do fenómeno. “Sou um ator. Toda a minha vida profissional é uma atuação”, dizia Bowie, nascido David Jones. O que era encenação e o que era real, nunca saberemos. Provavelmente, também não interessa.

Ar de extraterrestre

Ele não sentia necessidade de se definir. David Jones nasceu em 1947, em Brixton, no sul de Londres, e o primeiro instrumento que tocou foi o saxofone, num prenúncio do que as suas primeiras bandas seriam - bandas de jazz e blues com influências rock. De todas elas, sobrou uma certeza: Bowie tinha personalidade e presença para lançar uma carreira a solo e tornar-se um ícone. Já depois da mudança de nome - no final dos anos 60 passou a Bowie para evitar confusões com Davy Jones of the Monkees -, o anúncio que colocou no jornal para formar a banda Buzz não se limitava a pedir músicos, mas “músicos que acompanhassem um cantor”, conta o “The Guardian”.

A aura à volta de Bowie tomou grandes proporções durante as décadas de 70 e 80, e não é difícil perceber porquê. O homem que lançou “The Rise and Fall of Ziggy Stardust and The Spiders From Mars” apresentava-se em palco de cabelo ruivo espetado, com danças provocantes, anunciando em entrevistas a sua homossexualidade, mas já casado com Angie Bowie. Os olhos - a pupila esquerda de Bowie ficou permanentemente dilatada depois de um colega de escola lhe ter dado um murro, aos 15 anos - acescentavam mistério a uma aparência já de si extraterrestre.

O homem que era o que queria ser

Bowie não parecia deste mundo. Nem ele nem as personagens que encarnou ao longo da carreira - Ziggy Stardust era uma personagem de ficção científica que descera à terra; o hit “Space Oditty”, lançado quando Bowie contava apenas 22 anos, contava a história do astronauta “Major Tom”; Thin White Duke, saído do álbum com influências funk “Station to Station”, era uma personagem confusa que traduzia a presença de muita cocaína e da crença no obscurantismo na vida de Bowie.

Se há uma coisa em que todos os que opinam sobre Bowie concordam é que o músico, ator, pintor, produtor e homem de negócios britânico foi um inovador. Das primeiras bandas jazz passou a temas de pop infecciosa e rock duro, como no álbum “Hunky Dory” (1972), onde se encontra a preciosa “Life on Mars...?”; interessou-se por funk e soul, em “Young Americans” (1975) e “Station to Station” (1976); com a influência de Brian Eno experimentou sintetizadores e música eletrónica - “Heroes” (1977), de onde saíram clássicos como o single homónimo, é exemplo disso mesmo; e chegou mesmo a meter-se nos caminhos do hip hop e do drum'n'bass com “Black Tie White Noise”, de 1993.

A despedida: “Vou ser livre”

No cinema, também se distinguiu por facilmente despir a pele de uma personagem para entrar na de outra completamente diferente. Fez de Andy Warhol em “The Basquiat”, de Thomas Jerome Newton em “The Men Who Fell to Earth” e até da personagem bíblica Pôncio Pilato em “The Last Tempation Of Christ”.

Em 2004, durante a digressão Reality Tour, Bowie sentiu-se mal e acabou por ser operado ao coração. Muitos temeram que fosse o fim da carreira do camaleão, mas ele voltou a surpreender em 2013, com “The Next Day”, o primeiro álbum de originais em dez anos. Há 18 meses, foi-lhe diagnosticado um cancro e decidiu resguardar-se. Mas Bowie sabia que não era humano - é de espantar que o homem das mil vidas seja mortal -, e decidiu partir em grande, deixando-nos, como sempre, o que sobrava depois da polémica, da provocação: a música. Em “Lazarus”, o single lançado há dias, na véspera do seu 69º aniversário, avisa: “Olhem para mim, estou em perigo / Não tenho nada a perder / Vou ser livre”.

O extraterrestre, o super-homem, vai voltar ao planeta de onde um dia chegou. Provavelmente regressa como Major Tom: “Estou a flutuar da forma mais peculiar / E as estrelas parecem muito diferentes hoje / Bem longe do mundo / O planeta Terra é azul / E não há nada que eu possa fazer”.

  • Bowie esteve aqui e partiu-nos o coração

    David Bowie cantou no Estádio José de Alvalade em setembro de 1990. Pedro Santos Guerreiro vai à memória e escreve a crítica do concerto como se tivesse sido ontem. David Bowie morreu este domingo, 25 anos depois deste concerto