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Um Globo de Ouro para Cookie: “Sabíamos que ‘Empire’ podia mudar a televisão americana”

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Taraji P. Henson está a viver o melhor momento da carreira na pele de Cookie

FOX

Em setembro, Viola Davis ("How to Get Away With Murder") tirou-lhe a possibilidade de se tornar a primeira mulher afro-americana a vencer um Emmy de melhor atriz na categoria de Drama. Agora, chegou a doce vingança de Taraji P. Henson, a Cookie de "Empire": é dela o Globo de Ouro de melhor atriz numa série dramática. O Expresso falou com ela no ano passado e é essa conversa que recordamos

Taraji P. Henson estava numa sala algures no Soho, em Londres, mas a sua gargalhada quase poderia ouvir-se em Portugal mesmo sem o milagre da telefonia. Tinha acabado de lhe perguntar se tinha onde guardar o Emmy lá em casa. "Claro, quem é que não gosta de ser reconhecido? Adoraria receber um Emmy, mas não estou a pensar tão à frente". A Cookie de "Empire" era uma das favoritas à estatueta de melhor atriz numa série dramática, mas veria fugir para Viola Davis, ("How to Get Away With Murder") a possibilidade de se tornar a primeira afro-americana a consegui-lo. A consagração chegou esta madrugada, na cerimónia de entrega dos Globos de Ouro: é dela o prémio de melhor atriz numa série dramática.

Falámos com Henson no ano passado, no final da primeira temporada de “Empire”, a série sobre uma família dona de um império musical que foi um dos grandes sucessos do último ano nos Estados Unidos. Aos 45 anos, a atriz está a viver o melhor momento em duas décadas de carreira. Apesar de ter sido nomeada para um Óscar de Melhor Atriz Secundária pelo papel em "O Estranho Caso de Benjamin Button" (2008), foi a saga familiar dos Lyon que a catapultou para a fama global. Os americanos adoram Cookie, que, depois de cumprir uma pena de 17 anos de prisão por tráfico de droga, se vê envolvida na luta dos três filhos pela sucessão do pai à frente dos destinos da Empire Entertainment. Impertinente, determinada e com o coração colado à boca, foi ela a personagem mais influente da ficção (no cinema, na televisão e na literatura) em 2015, segundo a revista "Time".

"Empire" tem sido uma viagem extraordinária: recordes de audiência, elogios da crítica e do público. Podiam antecipar isto?
Sabia que tínhamos um hit. Tínhamos bom material, um elenco incrível, e se a Fox gerisse bem a série ela podia mudar o cenário da televisão americana. Depois, tudo o que podíamos fazer era esperar que as coisas corressem pelo melhor. Quando vi a forma como a Fox estava a promover a série, fiquei sem dúvidas de que estávamos a caminho de algo realmente grande.

O que explica o sucesso da série?
É uma história das dificuldades da vida real com que pessoas de todas as cores e raças se identificam. Relacionam-se com esta autenticidade. Vêm uma família que luta para ser poderosa, mas que também tem dificuldades. Que família não tem estes altos e baixos? Isto é a vida e as pessoas não estão habituadas a ver a vida real na TV, por isso é que se sentem atraídas.

Uma grande parte do sucesso de “Empire” deve-se à audiência afro-americana, que foi durante muitos anos negligenciada pelos executivos de televisão. Acredita que a série tem o potencial de mudar a TV para sempre?
Espero que essa mudança aconteça, que haja mais séries com atores negros, que possam perceber que séries afro-americanas, com pessoas afro-americanas, podem ter sucesso e chegar à audiência. O que não espero é que as televisões comecem a pensar que o truque é contratar um monte de gente negra. Temos um elenco extraordinário, que tem atuado de forma extraordinária. O truque não é usar atores negros, é ter um bom conceito. Quem me dera ter uma bola de cristal para adivinhar o futuro. Só posso ter esperança.

A sua personagem é, para muitos críticos, a principal razão do sucesso de “Empire”. Toda a gente adora a Cookie. O que é que ela tem que faz com que tantas pessoas se identificam com ela?
Muita gente vê-a como uma mulher forte, uma heroína. Homens e mulheres, gays e heterossexuais, as pessoas adoram a Cookie porque ela é a verdade em pessoa, não tem medo de dizer as coisas. Que mundo lindo seria se todos vivêssemos com esta verdade. Somos treinados para filtrar o que dizemos, para não dizer a verdade. A Cookie, pelo contrário, não tem nada a perder, passou 17 anos na prisão com as piores pessoas. E não quer saber, diz tudo o que lhe apetece. Ela é a verdade, é o compasso moral da série, as pessoas confiam nela porque quem é que não compreenderia os sacrifícios que esta mulher fez pela sua família? Sem a Cookie não haveria “Empire”.

A Taraji também vem de origens humildes, também teve que fazer muitos sacrifícios para chegar aqui. Vê na personagem algo de si?
Vejo uma parte de mim em todas as minhas personagens. A Cookie é o sonho americano. Os Lyon, a família de “Empire”, são o sonho americano. Vieram do nada e conseguiram algo. Foi isso que eu fiz. Vim do bairro, trabalhei em dois empregos para poder estudar, tive um filho, fiz sacrifícios para lhe dar uma vida, em vez de comprar um Bentley ou um carro de luxo. Identifico-me com a Cookie como mãe, como alguém que lutou para ser bem sucedida. Vejo muito de mim nela. Não sou tão corajosa como ela, mas ela é o meu alter-ego.

Em que é que se inspirou para dar corpo à personagem?
Uma das inspirações foi a Lil'Kim [cantora norte-americana], por causa da moda. Ela também cumpriu pena de prisão e conseguiu manter-se feminina e sexy. Mas, curiosamente, a parte da coragem da Cookie dizer o que pensa fui buscar ao meu pai. O meu pai era essa pessoa. Ou se amava, ou se odiava. E se o odiavam era porque tinham algum problema com a verdade. A maior parte das pessoas amavam-no porque ele dizia sempre o que pensava. Foi um homem que fez pela vida. Esteve no Vietname, voltou, teve alguns problemas, levantou-se, fez todas as coisas a que se propôs antes de morrer. Muita gente pensa que me inspirei em alguma mulher para interpretar a Cookie, mas muito vem dele.

Já esteve nomeada para um Óscar (de Melhor Atriz Secundária, em "O Estranho Caso de Benjamin Button), mas nunca como agora foi tão reconhecida. Este é o papel da sua carreira?
É definitivamente o papel que me consagrou. É tão raro um programa de televisão poder tornar alguém numa estrela internacional. Fiz muita coisa no cinema, aqui nos EUA já me conhecem, mas consegui chegar a muito mais pessoas em todo o mundo. O próximo filme que fizer poderá ter mais visibilidade, graças à Cookie.

Trabalhar com o Terrence Howard, que é seu amigo há muitos anos, torna as coisas mais fáceis?
Não teria aceitado este trabalho se não o pudesse fazer com o Terrence. A Cookie e o Lucious tinham que ser credíveis, se não o fossem “Empire” não funcionaria. Eu e o Terrence temos uma química e uma conexão inegáveis, como se nos tivéssemos conhecido noutra vida. Ele é um dos meus amigos mais próximos e sabia que nos desafiaríamos um ao outro, sabia que haveria química. Era disso que o Lucious e a Cookie precisavam. Estamos a falar de duas pessoas que passaram por muito juntas, sobreviveram e fizeram o impossível, quebraram o ciclo da pobreza. Ela vai presa, 17 anos, mas nenhum tempo, nenhuma separação, nenhuma mulher com quem ele sai, nada quebra essa ligação.

Sonha com um Emmy?
[risos] Não penso dessa forma, não faço as coisas pelos prémios. Faço-o pelo amor ao ofício, pelo poder da arte, pela forma como a arte muda vidas. Mas, claro, quem é que não gostaria de ser reconhecido pelo seu trabalho? Teria muita honra em receber um Emmy, mas não estou a pensar tão à frente.