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Estrela negra de David Bowie brilha de forma intensa

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Republicamos um trabalho incluído na edição do Expresso Diário da passada quinta-feira, véspera do dia em que David Bowie completava 69 anos e lançava aquele que viria a ser o seu último trabalho discográfico em vida

David Bowie completa 69 anos amanhã, dia em que edita Blackstar, entrada número 25 no seu catálogo pessoal de criações originais. Não entender estas coisas como sinais claros de que o universo ainda é capaz de gerar sentido e de harmonizar forças é não perceber a suprema mecânica celeste, ceder ao lado negro da força, acreditar que o fim está próximo e que o Daesh ou a Coreia do Norte serão os nossos carrascos. Curiosidade adicional que reforça a ideia de harmonia cósmica em funcionamento por aqui: a 14 de Janeiro de 1966, portanto há praticamente meio século, David Bowie lançou o seu primeiro single depois de alterar o seu nome original para o apelido artístico que a posteridade haveria de guardar. O título desse single, "Can't Help Thinking About Me", oferece, afinal de contas, uma possível chave para decifrar o autêntico enigma em que o tempo transformou David Bowie, um artista que passou meio século a observar-se ao espelho e a escrever canções sobre essas observações. Acontece que Bowie é um artista e a imagem que via reflectida de cada vez que se colocava diante do tal espelho era sempre diferente. Blackstar é a mais recente prova disso mesmo: "look up here, i'm in heaven / i've got scars that can't be seen", canta Bowie em "Lazarus". E daí as canções...

O mestre camaleão interrompeu o silêncio de uma década de forma inesperada em 2013 com a edição do divisivo The Next Day que recebeu praticamente tantos elogios quantas manifestações de incredulidade por parte da comunidade crítica internacional. Como já se percebeu, Bowie não embarcou na roda viva da indústria pop: não fez vídeos fáceis, praticamente não falou com a imprensa, não fez concertos. Nada. Vazio absoluto, preenchido apenas pelas canções. O que poderá ser indicativo de que esse olhar no espelho, mais do que sintoma de vaidade, é terapia, exorcismo, gesto de sobrevivência. Agora, em vésperas de completar 69 anos, bem para lá do topo da montanha, quando vislumbra já o resto dos seus dias, Blackstar volta a abordar as mesmas questões que ao longo dos milénios têm obrigado os pensadores a queimar pestanas: a vida, a finalidade, o sentido. Mas o espelho não oferece respostas, apenas levanta mais questões.

Para responder ao espelho, desta vez, David Bowie, que continua a trabalhar com o fiel Tony Visconti na cadeira da produção, resolveu recrutar sangue novo para o acompanhar em estúdio. O reputado saxofonista Donny McCaslin - que já tocou várias vezes em Portugal em festivais de jazz - lidera um quinteto base com Ben Monder na guitarra, Jason Lindner no piano e outros teclados, Tim Lefebvre no baixo e Mark Guiliana na bateria. O trabalho de Kendrick Lamar em To Pimp a Butterfly, álbum em que o talento do saxofonista Kamasi Washington surge em evidência, foi apontado como uma das inspirações para Blackstar. Outra, bem mais intrigante tendo em conta que não há propriamente eletrónica neste trabalho, é a dos britânicos Boards of Canada. Mas se a imprevisibilidade jazz ajuda a explicar a arquitetura angular de Blackstar, certamente que a melancolia pastoral que atravessa boa parte da obra dos autores de Music Has The Right To Children pode servir de ponto de partida para se compreender o cinzentismo emocional que marca o novo álbum de David Bowie.

O tema título, com quase 10 minutos, é a tour de force de Blackstar e a primeira resposta que David Bowie oferece ao espelho: "I am not a popstar", sugere o camaleão. À Rolling Stone, Donny McCaslin explicou que o tema é sobre o Daesh, mas, como qualquer uma das canções aqui, nada é tão definido que nos permita dizer concretamente qual o gatilho de cada palavra ou referência. Estes temas serão, certamente, David Bowie, que já teve que batalhar pela sua saúde e precisa de compreender o que significa ser uma ex-estrela pop a contemplar o ocaso da sua carreira, a lidar com um pessoal mas transmissível turbilhão de ideias e emoções contraditórias.

Não é propriamente possível identificar aqui decalques de momentos anteriores da carreira de Bowie. Outside, trabalho de 1995 em que o camaleão recrutou o pianista Mike Garson, será talvez a excepção e o maior exemplo de proximidade estética. Nada aponta para a pop de rendilhados operáticos que Bowie encenou na primeira metade dos anos 70 ou para as abordagens plásticas à soul de Nova Iorque e à poeira cósmica de Berlim que guiaram os seus registos da segunda metade da mesma década. Este é um outro Bowie.

"Tis a Pity She Was a Whore" ou "Lazarus" são temas urgentes, embora com tempos diferentes, em que Bowie soa como se tivesse gravado em oposição à música, com a sua voz a estabelecer frequentes duelos com o saxofone de McCaslin. Em "Sue (Or In a Season of Crime)" a bateria obriga todo o restante arranjo a uma cena de perseguição, enquanto a voz de Bowie sobrevoa a cena como um drone que contempla as derrapagens lá do alto. É em "Girl Loves Me", tema feito de absurdismos poéticos que pode muito bem ser o resultado de um improviso de Bowie (em frente ao espelho?...), que a voz do magro duque branco soa mais rejuvenescida. Mas é uma juventude de máscara, não de injecção de vitaminas. As duas baladas finais contêm ecos ténues do passado em certas modulações vocais ("Dollar Days" por momentos parece ser um parente distante de "This is Not America", tema em que Bowie colaborou com outro grande nome do jazz, Pat Metheny, mas a semelhança provavelmente deve-se apenas ao excesso de imaginação de quem escuta, não há falta de imaginação de quem fez...). O tema final volta, 50 anos depois, a colocar o "eu" de Bowie no centro de tudo: em "I Can't Give Everything Away" ele canta "seeing more and feeling less / saying no and meaning yes / this is all i ever meant / that's the message that i send". No espelho, afinal de contas, surge tudo do avesso...

Uma verdade: David Bowie não sabe fazer maus discos. Como todos os artistas que se desafiam e se reinventam, alguns dos seus momentos criativos podem ter sido menos conseguidos. Não é certamente o caso de Blackstar, extraordinário disco de um invulgar ser humano que em tempos até acreditámos todos não ser deste planeta. Continuamos a amar o alien...

[Texto publicado originalmente no Expresso Diário de 8 de janeiro de 2016]