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De Brixton a Marte: a fantástica viagem do Sr. Jones

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Jimmy King

Barroco, transgressor, equívoco, sexual, moderno, culto. Bowie é antítese da intervenção ou da consciência social de Dylan ou dos Stones

Nicolau Vale Pais

“I never wanted to be a Rock'n Roll Star”
(David Bowie, CBS, 1979)

Foram 26 álbuns, 111 singles, 51 videoclips e 51 anos de música. A sua lucidez e inspiração teriam durado outros tantos anos-luz, outras tantas contemporaneidades. David Jones, "aka" David Bowie, o ser estranho que nos cativa, o elo perdido entre o que somos e o que gostaríamos de ser, partiu para o último tomo da sua extraordinária viagem.

Nasceu em Brixton - no sul de Londres - em 1947. Este "baby-boomer" do pós-guerra começa a preparar-se cedo para a sua viagem - por volta dos 6 anos de idade, com a família já a viver em Kent, começa a mostrar especial aptidão para instrumentos de sopro - a flauta e o saxofone. Este último transformar-se-á, durante as décadas que se seguiriam, numa espécie de némesis omnipresente, pairando sobre o próprio Bowie. Em 1985, no Live Aid, Claire Hirst reinventa os solos de Mick Ronson (o guitarrista dos "Spiders from Mars") ao saxofone em "Rebel Rebel"; em 1972, quando produz para Lou Reed o álbum "Transformer", o "sax" perpassa o álbum, sendo que alguns mitos urbanos atribuem ao próprio Bowie a gravação da linha de saída de "Take a Walk on the Wild Side"; no final dos "seventies", Bowie terá dito que não tinha talento de instrumentista suficiente para o jazz - daí o rock. E daí a acústica de 12 cordas, imagem de marca do autor, mais que do "performer".

Até ao estrelato internacional com que irrompe pela cena pop londrina em 1969 com "Space Oddity", o jazz - especialmente o de John Coltrane e Miles Davies - tem um papel fundamental na formação de Bowie enquanto músico. É através do "rhythm & blues", no entanto, que desliza, seguro, para o rock. O trecho principal da sua viagem leva-o até à invenção do glam. E dentro do género, da eloquência frenética de "The Rise and Fall of Ziggy Stardust and The Spiders From Mars" até à sublimação quase filosófica de "Alladin Sane" (de 1972 e 1973, respetivamente), Bowie não deixou espaço para muito mais senão o seu ego. Barroco, transgressor, equívoco, sexual, moderno, culto - David Bowie matou ao vivo, no Hammersmith Odeon no Verão de 74, a sua "maior" criação. Porque sabia, como poucos, que nada representa melhor a condição humana do que o medo de cair no esquecimento.

These children that you shit on
as they try to change your world...

"Changes", in "Hunky Dory", 1971

Ácidos, Vietname, física quântica na televisão, o homem na lua e o mundo à beira do fim, à espera da última Grande Guerra. A consciência fantástica que David Bowie sempre revelou ter acerca do "momento" só é ultrapassada pela sua requintada inteligência em perceber os limites de tal linguagem. Bowie é a antítese da intervenção ou da consciência social de Dylan ou dos Stones - e de Lennon, também, sobretudo nos seus útlimos anos em Nova Iorque, onde haveria de gravar "Fame" com o Sr. Jones.

Terry O’Neill

Poucas ou quase nenhumas vezes se ouviu a David Bowie qualquer afirmação política, tirando um verso aqui ou ali, como em "Changes". Bowie cultiva o efémero como linguagem, é um agnóstico indoutrinável, um ser que regenera pelo luto, não tanto pela revolução. E é com a consciência perfeita desta solidão que parte para o extraordinário interregno de Berlim, onde, com o indiscritível Brian Eno, passa o seu olhar para "a preto e branco": três álbuns compostos e produzidos na capital alemã eclipsam as lantejoulas, os kimonos e o cabelo vermelho - "Low", "Heroes" e "Lodger" são esculpidos entre 1977 e 1979. E, claro, lá está o saxofone a desenhar ruas apartadas pelo Muro, em "The Sons of the Silent Age".

We know Major Tom's a junky
"Ashes to Ashes", in "Scary Monsters and Super Creeps", 1980

Porque nenhum itinerário deve incluir locais onde já se foi feliz, Bowie volta a Londres, mas não regressa senão para transladar o cadáver de Major Tom. Estamos nos anos 80.

A peregrinação do Sr. Jones segue, dançando. E se "Let's Dance" haveria de vender como nenhum trabalho seu até à data, a viagem é mais do que de negócios. Seguem-se colaborações, umas atrás das outras: com Iggy Pop e Tina Turner para "Tonight"; com os Queen em "Under Pressure"; com o cinema onde participa em meia dúzia de longas metragens. O crescimento do mercado da música através do videoclip (leia-se, da TV) abre portas a Bowie para obras-primas "betamax": é o caso da prolixa parceria com David Mallet, que com ele realiza "Fashion", "Let's Dance" ou "China Girl". É também David Mallet quem Bowie escolhe para filmar aquele que será o maior fracasso da sua vida: a "Glass Spider Tour", que nem a participação especial de Peter Frampton à guitarra (e Carlos Alomar, já agora) conseguiu salvar de um "flop" descrito pela crítica como "o pior do rock de estádio, disfarçado com coreografias"...

BrianWard

Os anos oitenta foram uma década perigosa para viajantes de bom gosto; o videoclip esteve para essa altura como a internet está hoje para a música - toda a proliferação quantitativa tem o seu custo qualitativo. Bowie entra em nova máquina de tempo e segue viagem, em direção aos anos noventa. "Tin Machine" marcam o regresso à vida de banda e o ocaso provisório e deliberado do autor por detrás do grupo. Dos fragmentos desse projeto renasce a relação com Eno: "Outside" sai em 1995. Baseado em personagens (pois claro...) escritos por David Bowie, o disco concetual é uma narrativa distópica sem qualquer preocupação comercial; neste particular, é mais um regresso - em 1974 Bowie tinha pensado adaptar "1984" de George Orwell a um musical, mas decidiu-se ficar pelo disco, a que chamou "Diamond Dogs".

Time, he´s waiting in the wings,
he speaks of senseless things,
his script is you and me...
"Time" in "Alladin Sane", 1973

"O Tempo aguarda nos bastidores, fala de coisas sem senso, o seu guião sou eu e tu..." Na canção Weill-iana de 1973 a que chamou "Time" (de um álbum onde consta também uma versão de "Alabama Song" da dupla Brecht/Weill), Bowie sublima o palco como o lugar-chave para todas as distorções, da guitarra ao texto. A sobriedade tácita com que o teatro serviu de plataforma conciliatória das suas inúmeras e histriónicas linguagens encontra no séc. XXI a maturidade perfeita. A propósito da sua "Reality Tour", grava "Wild is The Wind", que Nina Simone tinha imortalizado; com Gail Ann Dorsey no baixo e voz, reinventa "Under Pressure". Regressa a êxitos antigos; além do próprio "Reality" (2003), o alinhamento explora "Heathen", do ano anterior. Todos casam entre si, como se escritos no mesmo dia, unidos pela "performance" inigualável de um dos maiores artistas do nosso tempo. Para esses, a morte é, de facto, irrelevante. Que Bowie tenha encenado com rigor e astúcia esta sua despedida com "Blackstar" só pode supreender os passageiros mais desatentos. A cortina desceu e agora o palco é todo teu.

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