Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Bowie esteve aqui e partiu-nos o coração

  • 333

Foto D.R.

David Bowie cantou no Estádio José de Alvalade em setembro de 1990. Pedro Santos Guerreiro vai à memória e escreve a crítica do concerto como se tivesse sido ontem. David Bowie morreu este domingo, 25 anos depois deste concerto

Vinte mil corpos dançando, embalados, embailados, uma música, “ain't there a child I can hold without judging?”, dois amores recebem-se como dois amantes, “ain't there a pen that will write before they die?”, dois amantes combatem por um amor, “ain't you proud that you've still got faces?”, e de repente a música pára, um baque sónico, as luzes apagam-se, fica um único círculo branco sobre a voz agora desacompanhada, “Ain't there one damn song…”, uma voz que agora se arrasta, e treme, “… that can make me…”, o rosto escolhe-se num desmancho em choro, mão à frente dos olhos, “break down and cry?”, o corpo fraqueja, tomba como se morto, cabeça para o lado, o público aplaude, vinte mil, assobia, grita, chama, põe as mãos na cabeça, a cabeça no ar, o ar de quem espera, passam cinco segundos, dez segundos, passam sabe-se lá quantos minutos dentro destes segundos, luzes e o relvado fica iluminado, câmara e dois ecrãs gigantes simétricos dos lados do palco projetam em primeiro plano, ação e noutro repente o corpo ainda deitado rola, cabeça para cima, som e visão, David Bowie grita dos pulmões “Suffragette!!!”, põe-se de pé num salto, a histeria retoma, “hey man, ah leave me alone”, vinte mil corpos são vinte mil almas e daqui a 25 anos ainda se lembrarão disto, ontem em Alvalade David Bowie não nos deu um grande concerto mas ontem em Alvalade David Bowie deu-nos uma grande noite, talvez a primeira grande noite destes anos 90 que se abrem para fechar um século e que assim começam com Bowie a despedir-se não de nós, mas de si próprio. "Gee, my life's a funny thing, am I still too young?"

Quando o silêncio colou “Young Americans” a “Sufragette City” nesta sequência de músicas dos anos 70 (um momento monumento em que Bowie funde dois dos seus estilos mais antagónicos, o "plastic soul" e o Glam Punk), o concerto já dançava para o fim e, na verdade, para um final feliz. Cénico porque encenado. Teatral porque teatro. E esta encenada cena que é só corpo e é só cara e é só silêncio e músicas sintetiza um concerto de som e visão (a tournée chama-se, precisamente, “Sound & Vision”, música do álbum “Low”, que pertence à fase Berlim) em que talvez a visão tenha mais importância que o som, o espetáculo concêntrico na imagem basculante de Bowie, muita luz, muito vídeo, muita mímica, muito teatro e tudo isso é bom mas seria melhor se o volume do que não é música estivesse mais baixo e fosse a música que subisse aos ombros do espetáculo e não o contrário. Esse é um desequilíbrio que a nova tecnologia audiovisual à beira do ano 2000 ainda vai ter de resolver. Por mais que gostemos de ver os videoclips das músicas nos ecrãs gigantes, por alguma razão pagámos três contos e não ficámos a ver MTV por satélite nem a repetir a fita gasta no VHS. Quisemos Bowie ao vivo, queremos Bowie vivo.

Foto D.R.

Neste ano em que Portugal entrou finalmente no circuito dos grandes concertos de estádio, Bowie tocou três meses depois de uns vertiginosos Rolling Stones (60 mil pessoas) e 15 dias antes da flamejante Tina Turner. A proximidade dos concertos prejudica mais David que Tina (um bilhete é caro, dois bilhetes é muito caro) e Bowie não tem a rádio a puxar para o seu lado. Mas, sobretudo, Bowie é interestelar como cantor de culto mas, em Portugal, só é estelar para os jovens pós-Let’s Dance, que aliás nem cantou ontem (felizmente, dizemos nós). E foram sobretudo jovens que estiveram no Estádio José Alvalade, em Lisboa. Mesmo estando próximos do palco, onde os mais tarados chegaram seis ou sete horas antes, foi possível perceber que pouca gente conhecia todas as letras. Das mais antigas, talvez só Space Oddity tenha sido entoada em coro. Aliás, foi precisamente com “Ground Control to Major Tom” que o concerto começou, num crescendo ante uma plateia ainda não aquecida (os “Sétima Legião” cancelaram a primeira parte em cima da hora, mas também não teria sido com eles que os vinte mil corpos teriam suado) e toda a gente fica conciliada de imediato, “and may God’s love be with you”. Depois, “Rebel Rebel”, as guitarras chiam e a dança começa, o sismógrafo acalma novamente com “Ashes to Ashes”, e segue para um extraordinário “Life on Mars?”, que muita gente no relvado não conhece, pelo que o concerto tarda em aquecer. Mas Bowie traz Adrian Belew, dos King Crimson, que leva o rabo-de-cavalo para a frente do palco e arranca “Stay” com um solo de dois minutos na histriónica Telecaster vermelha e pronto, a chispa pega, mais na plateia que no palco, está mesmo tudo a dançar. Quando a guitarra toca os acordes de Ziggy Stardust, os que estão na frente dos vinte mil estão em delírio, há quem mije no linóleo para não perder o lugar frontal, repisa-se a relva, fuma-se erva, vomita-se um líquido leitoso branco, a mole balança aos encontrões como um bêbado num batel, começa “China Girl” e já não interessa se é hit ou shit, se é pop ou rock, as mulheres já estão aos ombros dos homens, os isqueiros já vão a meia carga, ardem estrelinhas nos pauzinhos de bolos como se fizéssemos anos, “They pulled in just behind the bridge”, é Young Americans, “He lays her down”, e foi aqui que começámos este texto.

A oscilação rítmica do concerto é também o vaivém entre os anos 70 e 80, os tais a que Bowie está a dizer adeus. Estava anunciado, esta tournée é de despedida das músicas que Bowie cantou sempre e que Bowie não quer cantar para sempre, eis o último “best of” ao vivo antes de renascer novo e talvez por isso se apresente em palco sem nenhuma das máscaras passadas, ruivas, pálidas, raiadas, douradas, cónicas, tubulares, funiculares, mas com a camisa branca com luxuriantes punhos de renda, colete preto, calças de pinças, um “outfit” para a revolução audiovisual dos anos 90 que ele há de musicar e de dançar veremos como, mas já não com este “pas de deux” de “Fame” com Louise LeCavalier (que vemos nos ecrãs gigantes), uma natação sincronizada fora de água, em que as mãos esculpem a cara e os braços aproximam e afastam os dois corpos loiros líneos, “fame, it's not your brain, it's just the flame that burns your change to keep you insane”, oh yeah, oh sim.

Estamos a chegar ao fim, à última música antes dos encores, e vamos falar dos encores antes de falar da última música, porque na cronologia dos afetos “Heroes” será a mais alta e a mais alta é sempre a última. Acabemos portanto de trás para a frente, com a rapsódia que começa com Jean Genie, passa (por que raio passou, não se percebe) por Maria, (“I just met a girl named Maria”?! A sério, Bowie?!) e acaba num apoteótico Gloria, “makes me feel so good, makes me feel alright”, duas guitarras, baixo, bateria e teclas, e no piano Mike Garson, que vem desde os Spiders from Mars e é na verdade o único que acompanha toda a carreira ao vivo de Bowie. E isto foi depois de Modern Love (esta toda a gente sabia) e de Changes, “and these children that you shit on”, cantado assim mesmo, “as they try to change their worlds”, música que os nossos amores ouvem no primeiro dia do nosso encantamento. Bowie está prestes a partir o nosso coração e é partindo-se que o nosso coração consegue ficar inteiro.

Pausa. Última música.

“This one’s for you” e começam os acordes distorcidos, “I, I wish I could swim”, Bowie dá finalmente o melhor de si, “Like the dolphins, like dolphins can swim”, inclina o pé de microfone e começa a rodar os ombros, “Though nothing will keep us together”, a mão esquerda dança com a cara em catatonia, “we can beat them just for one day”, Bowie junta os dedos e sorri ao público, “we can be heroes”, encolhe os ombros “what you say?”, o que é que dizemos?, “yeah?”, sim?, e o corpo balança sobre os pés como um berço, “and the guns shot above our heads”, cantado com a boca cheia de chocolates, “and we kissed”, e aponta para as mulheres no relvado como os políticos americanos nos comícios, “as though nothing could fall”, abre as pernas em tesoura e saltita “I say ho ho ho” e bate palmas e toda a gente bate palmas, e acaba, beijos à banda, vénia ao público, luzes todas acesas, apoteose, o som estava péssimo, muita gente à frente não conhecia o que ouvia, muita gente lá atrás não viu nem ouviu, Bowie percebeu e quis despachar e não, não foi o concerto da vida dele, mas foi o concerto da nossa vida, “God bless you all, thank you, good night”.

  • Playlist: introdução a David Bowie

    Há gerações que cresceram com ele, há outras que não sabem devidamente o que acabámos de perder. Isto é para estes últimos começarem por algum lado e para os primeiros lembrarem como se apaixonaram por ele. David Bowie morreu esta segunda-feira, aos 69 anos, vítima de cancro

  • Playlist: Bowie, os anos do glam

    Este é aquele início dele, selvagem, enigmático, de guitarra rebelde e voz astuta - e ainda de cabelos esquisitos, necessários. Foi assim que ele começou. David Bowie morreu esta segunda-feira, aos 69 anos, vítima de cancro

  • Playlist: os anos recentes de Bowie

    Ele tem daquelas carreiras extensas, mas sem monotonia: reinventou-se, provocou, arriscou, acertou mais do que errou. E a música dele é também um retrato do tempo, do que mudou no mundo fora dos discos dele mas igualmente na forma de fazer canções. Este é o Bowie depois de 2000, ele que nos morreu esta segunda-feira vítima de cancro

  • Playlist: os segredos de Bowie

    Isto é mais para quem o conhece pouco e menos para quem sabe tudo dele, que nos deixou esta segunda-feira. São David Bowie morreu aos 69 anos, vítima de cancro

  • Playlist: as covers que fizeram de Bowie

    The Bauhaus a Eurythmics, de Nirvana a Cure, de Seu Jorge a TV On The Radio e Beck, Bowie foi homenageado - umas vezes melhor, outras pior - por nomes maiores ou nem por isso da música. Viagem pelas homenagens que lhe fizeram ao longo dos anos, neste dia em que soubemos que David Bowie morreu

  • Amem o que é diferente

    Inovador, múltiplo e genial. David Bowie é um dos maiores ícones da música popular dos últimos 50 anos e encerrou a carreira com um disco que é um testamento - “Blackstar”. Amem o que é diferente, o que nunca se viu antes, o Outro - é a grande lição de Bowie segundo Miguel Cadete, diretor-adjunto do Expresso e responsável pelas revista E e Blitz

  • Uma Little Wonder

    No dia em que o perdemos, dez videoclips para entendê-lo um pouco melhor. David Bowie deixou-nos, aos 69 anos, vítima de cancro