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E depois de Paulo

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RIVOLI. O Teatro Municipal do Porto apresenta hoje a primeira programação do pós Cunha e Silva. Na imagem, “On the Concept of Face regarding the son of God”, de Romeo Castelucci

d.r.

A morte de Paulo Cunha e Silva, para lá do drama humano e pessoal desencadeado por um desenlace brutal como é sempre qualquer morte, suscitou um vasto conjunto de interrogações, dúvidas fundadas e inúmeras perplexidades sobre o futuro do pelouro da cultura da Câmara Municipal do Porto.

Ainda novo para os atuais padrões de envelhecimento, Paulo Cunha e Silva revelava na gestão do seu dia a dia, no modo irrequieto como apenas se comprazia se a cada hora conseguia fazer jorrar um turbilhão de ideias, uma juventude ainda maior do que a conferida pelo Bilhete de Identidade.

De uma energia contagiante, espírito inquieto e massacrado por uma insaciável curiosidade, Paulo, ao desaparecer, para mais de um modo súbito, deixava um vazio que todos adivinhavam difícil de preencher. Não vale a pena dançar à volta do discurso dos homens insubstituíveis. O ex-vereador nunca reclamou esse estatuto, mas sabia-se como muito do que de melhor estava a fazer a autarquia portuense passava pelo arrojo, pela novidade, pela ousadia colocada na ação do pelouro da cultura.

Logo após aquela morte, impôs-se uma gigantesca expectativa à volta de possíveis decisões de Rui Moreira. Olhava-se para os eleitos na lista do presidente e percebia-se a impossibilidade de encontrar uma solução capaz de satisfazer os mínimos de exigência. Desde logo pela dificuldade em acompanhar a bitola imposta por Cunha e Silva, como pela sensação de que, fosse quem fosse o escolhido, seria alguém destinado a ser imolado no caldeirão das inevitáveis comparações.

A Companhia nacional de Bailado estreia coreografia em janeiro no Rivoli

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d.r.

Rui Moreira tomou a mais sensata das opções. Decidiu assumir ele próprio o pelouro da cultura. Passava assim uma mensagem forte e condizente com o seu pensamento mais íntimo. Paulo fora ao longo de vários anos companheiro de muitas conversas sobre a cultura na cidade, surgira como rosto de uma das âncoras da nova presidência, protagonizara uma viragem absoluta no modo de entender a cultura a partir do poder autárquico e, por isso, até como homenagem, ninguém, a não ser o presidente, poderia substituí-lo. Depois, chamou para primeiro plano Guilherme Blanc, o assessor do vereador, conhecedor, como poucos, do pensamento, do modo de atuação, dos projetos de Paulo Cunha e Silva.

Sem ser formalmente o responsável pelo pelouro da cultura, até por impossibilidades legais decorrentes de não ter sido eleito, Blanc tem vindo a tentar construir um caminho de continuidade, sempre protegido por Rui Moreira, em última análise o rosto e o responsável por tudo quanto possa passar-se naquele departamento.

Não por acaso, já em dezembro, no último dia final do Fórum do Futuro - outra grande iniciativa concebida por Cunha e Silva - quando chegou a altura dos agradecimentos finais, Rui Moreira fez questão de ter a seu lado, no palco do Teatro Municipal Rivoli, não apenas o diretor artístico do teatro, como Guilherme Blanc.

Hoje, a partir das 19 horas, será, pela primeira vez, feita a apresentação pública do primeiro módulo de programação do Teatro Municipal (Rivoli e Campo Alegre) sem a presença de Paulo Cunha e Silva. Não resulta daí ausência. Eram tantos e os projetos e ideias a fervilhar naquele espírito desassossegado, que seria quase pueril pensar a possibilidade de já não se sentir ali a sua marca. Rui Moreira não deixará, nunca, de o sublinhar.

Convém, porém, não subestimar o papel de toda uma empenhada equipa a trabalhar e a pensar nas mais diferentes áreas afetas ao pelouro. E aí convém não perder de vista o crucial contributo dado por Tiago Guedes no renascimento do Rivoli como palco das grandes produções de dança contemporânea e outras artes de palco.

“Ivanov”, do iraniano Amir Reza Koohestani, para ver em fevereiro

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d.r.

Antes de Paulo, o Porto viveu um período de seca extrema do ponto de vista cultural em resultado das opções políticas de Rui Rio para esta área. Rio, percebeu-se depois, não venceu. O que é hoje apresentado como uma grande vitória de Paulo Cunha e Silva só o é graças a uma subterrânea resistência cultural, mantida mesmo nos anos de chumbo. O mérito do novo vereador foi o de ter percebido essa realidade escondida, tê-la potenciado e ter aberto novos caminhos e novas possibilidades.

Muitos terão ficado, ao longo dos anos, abalados com o desejo, afinal frustrado, de construir um deserto de ideias. Quem o tentou não conhecia o Porto e a ancestral resiliência de quem faz a cidade.

“Macho Dancer” da filipina Eisa Jocson, em março

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GIANNINA URMENETA OTTIKER

Paulo fazia parte dessa cidade outra, alheia ao tacanho, à vidinha simples, à conformação com as certezas adquiridas. Por isso, não há um antes e um depois de Paulo. Há uma cidade empenhada e disponível para assumir a cultura como um estratégico fator de identidade e diferenciação. É um caminho sem retorno.

Valdemar Cruz escreve no EXPRESSO DIÁRIO às quintas-feiras