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Empreendedores dos céus

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BAIXINHO, MAS VOOU. Depois de quatro anos de experiências, os irmãos Wright conseguiram voar, pela primeira vez, num aparelho controlado, a 17 de dezembro de 1903, em Kitty Hawk, Carolina do Norte. O voo demorou apenas 12 segundos

FOTO WIKIMEDIA COMMONS

Uma história de coragem e perseverança: os irmãos Wright

Dados a grandes feitos, repletos de coragem e movidos por um único objetivo. Estas características sempre fizeram dos irmãos Wright, Wilbur e Orville, pioneiros da aviação, boas personagens para livros. Sobretudo crianças. Como lembra o ' The New York Times', até agora não havia uma grande obra sobre os inventores do primeiro aparelho voador motorizado, que teimavam em não sair das páginas dos livros infantis. Até recentemente (o livro foi lançado em meados de 2015, nos Estados Unidos), o historiador David McCullough, conhecido pelas suas biografias (as dos presidentes norte-americanos John Adams e Harry Truman arrecadaram o Pulitzer), se ter deparado com a história de resiliência e superação destes irmãos que, no dia 17 de dezembro de 1903, realizaram o primeiro voo motorizado controlado, reconhecido pela Fédération Aéronautique Internationale.

Aconteceu em Kitty Hawk, região de praias, e sobrevooou apenas 37 metros. O aparelho manteve-se no ar apenas 12 segundos.

Não foi o suficiente para chamar a atenção da sociedade e dos jornais americanos. Aparentemente, ninguém acreditava que fosse possível controlar um aparelho em pleno voo.

Mesmo as demonstrações que se seguiram, apesar dos voos mais longos, não tiveram adesão pública e, nalguns casos, o voo acabou em acidente. Em 1904 e 1905, fizeram mais de 150 voos, sendo que o mais longo durou 38 minutos e sobrevoou 38 quilómetros.

Mas nem mesmo assim conseguiram atrair a atenção do Departamento de Guerra norte-americano, que tentaram contactar por diversas vezes, para apresentarem a sua invenção, embora não antevessem o poder do aparelho enquanto máquina bélica. Numa das cartas que escreveram, sugeriam que a sua invenção poderia ser utilizada, no futuro, “para fazer reconhecimento e transportar cartas em tempos de guerra”. Mas a resposta nunca chegou.

Se os norte-americanos não estavam interessados, os franceses estavam. Depois de, em 1906, os inventores conseguirem patentear a Wright Flying Machine, Wilbur partiu para Paris, onde durante seis meses negociou com o governo francês. Só em 1908 é que a máquina dos irmãos Wright conseguiram chamar a atenção dos seus conterrâneos. Novamente em Kitty Hawk, mostraram a sua invenção ao público, que ficou pasmado com o que viu. E, desta forma, inauguraram a aviação moderna.

Uma vida de dedicação

O livro de David McCullough, no entanto, não dá só conta do feito. Procura respostas para a prova de superação de dois irmãos que, sem terem concluído o ensino secundário e nem terem frequentado a Universidade, conseguiram construir o primeiro aparelho aviador passível de ser controlado. Através de uma profunda pesquisa, que incluiu a leitura de 1000 cartas privadas que a família Wright trocou entre dia, o historiador traça a história biográfica de dois irmãos discretos, mas muito teimosos, que sonhavam em voar e eram gozados por toda a vizinhança.

Wilbur Wright nasceu em 1867, e era considerado o génio da parelha de inventores

Wilbur Wright nasceu em 1867, e era considerado o génio da parelha de inventores

FOTO WIKIMEDIA COMMONS

Wilbur (1967-1912) e Orville (1871-1948), como de resto os seus cinco irmãos, cresceram em Dayton, no estado do Ohio, numa casa sem eletricidade, canalizações ou telefone, mas cheia de livros: enciclopédias, ficção, história, ciências naturais, poesia, teologia. A mãe e o pai, um pastor protestante, sempre incentivaram os filhos a serem curiosos, a fazerem perguntas e, mais importante, a procurarem resposta. Foi nos livros que os irmãos procuraram refúgio, sempre que foi necessário. Numa ocasião, Wilbur, que além da genialidade era também conhecido pelas suas façanhas atléticas, foi atingindo na face por um sitck de hóquei (o autor do ataque seria, anos mais tarde, preso por múltiplos homicídios, incluindo o próprios pai e irmão). O impacto foi tão grande que Wilbur perdeu todos os dentes da frente: começou aqui a sua reclusão da sociedade, refugiando-se na biblioteca da casa, onde começou a estudar os fundamentos da aviação. Apesar de ter a intenção de prosseguir estudos e frequentar a Universidade de Yale, abandonou as suas pretensões e passou a estudar em casa, onde deu asas ao seu espírito inventivo. Com o irmão mais novo, Orville, não demorou a montar o primeiro negócio, de construção e montagem de bicicletas. Daí até começarem a conceber uma forma de controlarem a condução de um pequeno aparelho de voo foi um passo. Pequeno, para eles. Gigante, para o mundo.

Orville Wright, o mais tímido, nasceu em 1871

Orville Wright, o mais tímido, nasceu em 1871

FOTO WIKIMEDIA COMMONS

“Ambos os irmãos eram brilhantes”, contou em entrevista David McCullough. “Não eram apenas um par de mecânicos de bicicletas que tiveram sorte. Estou convencido, e é até evidente a partir do momento em que conhecemos a sua história, que Wilbur Wright era um génio. E Orville era igualmente excecional nos seus talentos inventivos. Também eram incrivelmente corajosos. Temos de nos lembrar que todas as vezes que faziam voos experimentais estavam a arriscar as suas vidas. Eles estavam tão conscientes desse facto que sempre se recusaram em voar juntos para que, num caso de um morrer, o outro continuar a missão. Eram completamente conduzidos pela crença, confiança e determinação em vencer. Assumiram a sua missão na mesma forma que muitas pessoas seguem, fervorosamente, uma religião. Tinham uma causa e não desistiam. Nunca deixaram que o fracasso ou o desapontamento os desencorajasse. Se caíam, levantavam-se pelos seus pés e continuavam. Não se queixavam, não culpavam os outros nem mostravam pena de si próprios. Como lidar com o falhanço é uma lição muito importante na vida. Os irmãos Wright eram modelos de integridade”, continua o autor.

Viviam na mesma casa, trabalhavam juntos seis dias por semana, comiam as suas refeições em conjunto. O dinheiro que tinham guardavam numa conta bancária conjunta e até pensavam juntos. Nunca se casaram e, aparentemente, não lhes é conhecido qualquer caso romântico. A sua ligação mais próxima era a irmã Katherine, uma acérrima defensora dos seus trabalhos e esforços — e a quem McCullough deve uma grande parte da sua pesquisa, já que escrevia frequentemente aos seus irmãos.

Nada parecia afastá-los do seu propósito. O gozo dos vizinhos não os afetava. embora contassem com o apoio de algumas famílias. E, com o dinheiro contado com que viviam, não tinham outro remédio que não o de construírem praticamente todos os componentes do modelo Flyer. “Os irmão estavam determinados a fazer tudo por eles próprios. Não tinham apoio financeiro, não tinham educação académica nem redes contactos bem colocadas. Mais, as pessoas da sua própria vizinha e Washington ridicularizavam-nos por eles acharem que podiam atingir os seus objetivos. Mesmo assim, não deitaram a toalha ao chão”, diz o historiador. Os cálculos, recálculos, as experimentações e os erros foram aos milhares e ajudaram a determinar o sucesso destes dois empreendedores criativos.

“The Wright Brothers”, de David McCullough, Simon & Schuster, 320 páginas, €16,50 (preço na Amazon)

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