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DUELO TELEVISIVO. O escritor norte-americano Gore Vidal, numa foto tirada no início deste moilénio na sua casa em Ravello (Itália)

reuters

Reinaldo Serrano

Tempos houve em que debater significava uma efetiva e vívida troca de ideias, argumentos, projetos, estados de alma ou filosofias de vida. Tempos houve em que polemizar significava, muito mais que um capricho ou óbvia tentativa de protagonismo, uma defesa acérrima e eloquente de um raciocínio coerente, credível e longe da utopia que inevitavelmente degenera em incumprimento. Tempos houve em que na própria sociedade portuguesa mentes abertas e brilhantes debatiam sem pudor teses e antíteses de uma mentalidade progressista, sustentadamente intelectual, aqui e ali polvilhada de uma ironia que sofisticava ainda mais a riqueza do próprio debate. O século XIX foi pródigo nestas contendas que, por razões que a ausência de razão bem conhece, foram esmorecendo à medida que o século XX foi evoluindo ao mesmo tempo que se esvaía.

Hoje, assistimos com pasmo, enfado e interesse relativo, à profusão de debates no seio da classe política, que normalmente oscilam na defesa intransigente de ideias aparentemente antagónicas, sem moderação ou meio termo, sem margem para um diálogo que é, cada vez mais, um par ou um trio de monólogos, tanto mais acentuados quanto maior é o número de participantes numa mesa que só é redonda nas ideias expressas.

Nos dias que correm, quando as ressonâncias de festividades ainda em curso nos preenchem o quotidiano, eis que são os candidatos presidenciais (muitos deles, diga-se, longe de serem presidenciáveis) que chamam a si o protagonismo da troca de ideias para o país e para os que nele habitam. Uma dezena de nomes na corrida a Belém mais não significa que uma inusitada multiplicação destas diatribes que na rádio e na televisão prometem ocupar uma vasta fatia de antena.

Sem querer entrar em fastidiosas e madrugadoras análises de conteúdo sobre o que aí vem, o que proponho é revisitar o que já foi. O pretérito aqui invocado remete-nos para a América de finais dos anos 60. Mais concretamente, o ano de 1968 assinala uma importante mudança de paradigma no jornalismo televisivo (não necessariamente para melhor), curiosamente enriquecida por um conjunto de debates saídos de uma necessidade premente de... aumentar audiências.

Com efeito, a baixa de adesão junto do grande público forçou cadeia a norte-americana ABC a procurar novas fórmulas de chegar aos espectadores que fugiam para a concorrência. Se fosse hoje, o recurso a um “reality show” seria uma escolha não apenas óbvia como primária (leia-se, primeira), mas naquele tempo (parece que foi há uma eternidade) ainda havia outras opções; vai daí, a administração da ABC decidiu recorrer a um duelo de titãs em matéria de pensamento político e social, que o imenso país tinha à mão: William F. Buckley no canto direito e Gore Vidal no canto esquerdo.

O primeiro, intelectual conservador, anticomunista, católico praticante que preferia a missa em Latim, fundador da National Review, muito provavelmente a publicação com maior relevo e expressão no movimento de sedução de massas para adesão ao conservadorismo. Muitos consideram-no um dos maiores pensadores e figura de importância maior na sociedade norte-americana do século passado e já deste século, dado que morreu em 2008, com 82 anos. Autor de diversas obras de ensaio, opinião e ficção, neste último capítulo destacam-se os romances de espionagem (ele próprio foi consultor da CIA) e de História. Graças à televisão, William F. Buckley alcançou ainda maior notoriedade, nomeadamente através do “Firing Line”, programa que apresentou entre 1966 e 1999, num total de 1429 episódios! Tempo mais que suficiente para um vasto público se deixar fascinar pelo vocabulário prolixo e espirituoso do anfitrião.

O segundo, intelectual liberal, membro do Partido Democrata, crítico severo das intervenções militares dos Estados Unidos em diversos pontos do mundo, crítico severo de hábitos e costumes da sociedade norte-americana, Gore Vidal (nascido Eugene Louis Vidal) foi, também ele, autor de inúmeros ensaios, artigos de opinião, escritos políticos e ficção, nomeadamente “The City and the Pillar” (“A Cidade e o Pilar e Sete Contos da Juventude”, em português), romance que despertou a ira dos conservadores por abordar a homossexualidade de forma despudorada. Além deste, Gore Vidal tem mais 11 romances editados em Portugal, dos quais me permito destacar "Em Directo do Calvário", "Império", "Criação" ou o não menos genial "Washington D.C. - Narrativas do Império". Todos eles refletem, de modo mais ou menos direto, a erudição da sua narrativa, fascinante e polida

Homem extremamente culto, sem medo de polémica, intransigente na defesa das suas ideias, Gore Vidal teve em William F. Buckley um interlocutor à altura, sendo recíproco o misto de ódio e admiração entre os dois intelectuais. A unir os dois homens está, aliás, um ego de proporções épicas. Este duelo é agora recordado e analisado graças ao extraordinário documentário realizado em 2015 pela dupla Robert Gordon Morgan Neville (este último vencedor do Óscar de 2014 pelo documentário "Twenty Feet From Stardom"). Em "Best of Enemies" acompanhamos em detalhe, com enquadramento devido e testemunhos claros, os 10 debates entre Buckley e Vidal que decorreram durante as convenções de 1968 dos partidos Republicano e Democrata para a nomeação do candidato presidencial das respetivas áreas.

Este não é um acompanhamento normal, porque os embates entre os dois homens não foram embates normais. Sem adiantar muito, para não estragar surpresas (ser um "spoiler", como soi dizer-se nos dias de hoje), permito-me apenas sublinhar que o confronto foi num crescendo cada vez mais exasperado até atingir limites que fariam hoje as delícias de muitos que se consideram... polémicos.

Ao longo dos 87 minutos de "Best of Enemies" regressamos a um passado que acaba por ser presente, face a imagens que de quando em quando nos chegam dos quatro cantos do planeta, onde debates televisivos se transformam em palcos de ferocidade que encantam o mais exigente dos "voyeurs". Claro que muito do que aconteceu em 1968 não se deseja em 2015, mas será no mínimo curioso perceber como há quase meio século, numa televisão norte-americana e por causa de audiências, quem foi chamado para as devolver à ABC não foram retratos de desgraças sociais nem a vida privada "dos famosos", mas dois dois maiores intelectuais que a América deu a conhecer ao mundo e que, mesmo depois dos debates televisivos, continuaram na "Esquire" a dirimir argumentos sobre ideias e ideais que julgavam prevalecer para sempre. Teriam razão?...

Reinaldo Serrano escreve no EXPRESSO DIÁRIO às segundas-feiras