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Boulez morreu (como ele próprio diria)

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SIGI TISCHLER / EPA

O radical da música de vanguarda que se tornou um dos maiores maestros do mundo, sem nunca perder a coerência artística, tinha 90 anos

Luís M. Faria

Jornalista

Em 1944, o grande compositor francês Olivier Messiaen recebeu a visita de um jovem estudante de 19 anos. O seu diário registou a visita, notando concisamente: "Gosta de música moderna". Seria um dos eufemismos do século, ao nível do veredicto que alguém em Hollywood teria emitido sobre Fred Astaire após a sua primeira audição: não sabe representar, dança um pouco.

Pierre Boulez tornar-se-ia provavelmente a maior figura da música erudita na segunda metade do século XX. Como compositor, polemista e maestro, e ainda criador ou impulsionador de algumas organizações musicais de topo - incluindo o IRCAM, um instituto de música contemporânea situado em frente ao Centro Pompidou em Paris, e o Ensemble InterContemporain, grupo que dirigiu a partir de 1976 - Boulez é um nome incontornável. Em março do ano passado, quando cumpriu 90 anos, o mundo musical fez-lhe várias homenagens. Agora, acaba de falecer em Baden-Baden, onde vivia há décadas na companhia de uma pessoa a quem descrevia como o seu valet, e que esteve com ele até ao fim.

Boulez nunca deixou de ser coerente, mas uma visão superficial podia achar que havia nele duas personalidades distintas. Havia o Boulez do início, o jovem radical que declarava inútil todo o compositor cujas obras não seguissem as regras do dodecafonismo, o sistema que utiliza a escala de doze tons, ou até do serialismo integral, onde o princípio da série repetida é estendido às outras dimensões da música (duração, dinâmica, timbre). O Boulez desse tempo fazia pronunciamentos definitivos e dizia que era preciso destruir para criar, à boa maneira dos revolucionários.

Muitos anos depois, a seguir ao 11 de Setembro, uma velha afirmação bouleziana sobre a necessidade de destruir à bomba os teatros de ópera valer-lhe-ia ter o seu quarto de hotel revistado por polícias suíços excessivamente zelosos. Pelo menos no seu caso o erro foi das autoridades e elas é que pediram desculpa, ao contrário do que aconteceu com o seu colega Karlheinz Stockhausen, que teve o azar de se pôr a divagar em público sobre a obra extraordinária que Lúcifer tinha criado nas Torres Gémeas em Manhattan. Várias apresentações da obra de Stockhausen foram logo canceladas, e a reputação dele nunca recuperou completamente.

“O Anel dos Nibelungos”, e a primeira “Lulu” completa

Pierre Boulez manteve até à velhice uma carreira como maestro à frente de algumas das melhores orquestras do mundo, desde a New York Philharmonic e a Chicago Symphony Orchestra até às filarmónicas de Berlim e Viena. Pode vê-lo a dirigir esta última aqui:

Talvez a realização mais importante dessa fase da sua carreira tenha sido a direção musical da tetralogia "O Anel dos Nibelungos", numa produção encenada por Patrice Chéreau. Não foi assim tão estranho como isso, pois a música moderna começou com Wagner, ao fim e ao cabo. Do mesmo compositor Boulez gravou também o“Parsifal” – uma interpretação tipicamente límpida, embora sem a carga espiritual de outras, nomeadamente a de Karajan – e, já no século XX, a primeira versão completa de "Lulu", de Alban Berg.

Pelo caminho, foi registando numerosas obras do 'pai' da segunda escola de Viena, Arnold Schoenberg, não obstante o artigo que em tempos escrevera sobre ele. Publicado escassos meses após o desaparecimento do compositor vienense, intitulava-se "Schoenberg Morreu" (Schoenberg est Mort); a morte a que Boulez se referia não era obviamente apenas física. Criticar músicos com quem tinha especial afinidade foi um hábito característico de Pierre Boulez, chegando a atingir o próprio Messiaen, que se tornara seu professor e foi decisivo na sua carreira.

Polémicas públicas, cordialidade privada

Nascido a 26 de março de 1925 em Montbrison, no Loire, Boulez era filho de um engenheiro que geria uma empresa metalúrgica e esperava que o filho lhe seguisse os passos. Estudou desde pequeno num colégio católico onde lhe instilaram uma feroz disciplina. Os dois talentos que exibiu desde cedo, para a música e a matemática, evoluíram em paralelo e foram desenvolvidos até à idade adulta, quando ele finalmente optou pela música. Ao longo das décadas, tornar-se-ia uma referência central da chamada música de vanguarda, sediada em Darmstadt, a par com nomes como Stockhausen, Berio, Nono, Xenakis. Além do serialismo, explorou outras vertentes musicais inovadoras: manipulação eletrónica do som, acaso controlado...

Para alguém que teve algumas polémicas notórias com os poderes instituídos (em particular nos anos 60, quando o então ministro da cultura André Malraux o desautorizou e ele trocou o país pela Alemanha; seria o presidente Georges Pompidou a trazê-lo de volta, permitindo-lhe fazer o IRCAM), acabou por ser tornar uma figura institucional de primeira linha. As marcas visíveis da sua influência incluem a Cité de la Musique, em Paris.

A cordialidade que exibia em privado, em contraste com a fama pública de intransigência, ajudavam certamente. Antigo revolucionário, Pierre Boulez era objeto de estima entre a generalidade dos seus colegas. Duas caixas de CDs saídas recentemente, uma com as suas gravações na Sony e outra com as suas “Obras Completas” na Deutsche Grammophon, permitem apreciar o legado que deixou.