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Um segundo antes do boom

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Chona Katsinger

Will Toledo (isso mesmo, quem?) lança um álbum que eleva o indie rock da década. Espante-se: é o décimo segundo

Luís Guerra

Jornalista

Há cinco anos, o adolescente hoje conhecido como Will Toledo compunha canções no banco traseiro do carro da família, algures na Virgínia, nos Estados Unidos. Hoje, aos 22 anos, assina por uma das maiores editoras independentes — a Matador — e logo com a promessa de novo álbum em 2016. Esta poderia ser a sinopse do ‘filme’ da trivial travessia no deserto do jovem aspirante a poster boy do rock independente antes do momento em que a malvada indústria, finalmente iluminada, o chama até si. Mas Will não se limitava a fazer canções para a gaveta: desde 2010 arrumou-as em 11 (sim, onze) álbuns lo-fi publicados na plataforma digital Bandcamp. Não houve, pois, uma obstinada caminhada contra ventos contrários; o número de admiradores foi incrementando paulatinamente até que um atento estagiário da editora Matador pegou no acervo e mostrou-o ao patrão.

“Parte do encanto dos álbuns digitais é que os sinto como menos oficiais e, por isso, posso mexer neles bem depois da sua data ‘técnica’ de edição. Muitas vezes fui lá atrás e alterei coisas que senti que poderiam ser melhores”, esclareceu o ‘infante’ Toledo à webzine “Stereogum”. Quando a Matador acenou com o cheque, a palavra ‘estúdio’ continuou a não fazer sentido e Will decidiu, novamente, fazer tudo por sua conta e risco. “Teens of Style” é um desses regressos ao baú transformado em novo objeto artístico: é uma compilação dos momentos que mais sobressaíram no passado, mas também um upgrade, por via da regravação. É por aqui que devemos começar antes de, curiosos, vasculharmos a obra do artista enquanto (ainda mais) jovem. “Percebi que esta seria a minha última oportunidade para fazer alguma coisa que soasse ainda ao ‘velho’ Car Seat Headrest antes de começar a empreender algo maior”, afirmou. “Teens of Denial”, o próximo álbum de originais, já tem estúdio marcado.

Se a “Rolling Stone” escreve que este é o melhor álbum de rock clássico que um menor de 50 anos terá feito este ano, por aqui preferimos encontrar-lhe os sintomas de singularidade que fizeram de “Funeral”, dos Arcade Fire, um disco que se inscreveu na carne de uma geração. Liricamente, há drama e tensão adolescente de boa colheita, pontuados por uma inquietude permanente e um nervosismo vital. Ansiedade, resignação, euforia, desalento — os opostos do costume ao serviço do seu melhor veículo, o rock (“Biting my clothes to keep from screaming/ Taking pills to keep from dreaming”, vide ‘Something Soon’). Ou a confusão da intimidade tornada prêt-à-porter.

A abrir, ‘Sunburned Shirts’ só desmantela um lo-fi acústico à Guided By Voices quando — já bem depois dos três minutos — ouvimos uma guitarra rugir, mais definida do que tudo o resto, como uma erupção de claridade. ‘Strangers’ cita uma velha luminária (“When I was a kid I fell in love with Michael Stipe/ I took lyrics out of context and thought he must be speaking to me”) numa canção que deve tanto à jangle pop como aos momentos mais cândidos dos Deerhunter (e o que dizer deste final que agrafa os Strokes aos Arcade Fire?). E o melhor, a cápsula de tudo, está em ‘Times To Die’, com um refrão onde se pressentem as harmonias dos Stone Roses antes de um curto trecho de trompete e de um pára/arranca vocal (culmina em curto regime a capella) que desconstrói o que está para trás. Car Seat Headrest está prestes a ser de todos.

(Texto originalmente publicado na edição do Expresso 2252, de 24 de dezembro)