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O crime é real, mas a justiça também falha

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Netflix

A história de Steven Avery é contada numa série documental longa que segue a tendência de trazer mais realidade para a televisão. Laura Ricciardi e Moira Demos dedicaram-se ao projeto durante dez anos, depois de lerem um artigo no “The New York Times”

Abre-se quase como um livro e está dividido em capítulos como se o pudéssemos folhear. O seu cheiro não é físico, mas o pó de um processo arquivado e complexo toma conta da experiência. O vídeo, em VHS, mostra-nos as datas e as horas em que tudo foi registado. É história e atualidade, com investigação séria e de difícil acesso. Trata-se, afinal, de televisão. É uma série da vida real.

“Making a Murderer”, sobre Steven Avery, é um projeto documental de longo formato, pensado e criado durante mais de uma década. O tempo é uma linha contínua, mas é impossível contar algo destas proporções sem avanços e recuos. Tudo o que se passou na vida de Steven é escrutinado, de 1985 à atualidade.

Entre pesquisa, filmagens e construção do documentário, passou uma década inteira. Tudo começou em 2005, quando Laura Ricciardi e Moira Demos conheceram a história de Steven Avery num artigo do “The New York Times”. A brutalidade do erro cometido pela justiça americana era demasiado grande para que não agissem. Um homem havia passado os últimos 18 anos da sua vida na prisão e era agora libertado. Acabava de se provar, através de testes de ADN, que não havia qualquer ligação entre ele e o caso em que tinha sido considerado culpado. A história desta violação tomou os media e radicalizou a opinião da população. É lógico que uma história destas, com crimes que mudaram para sempre a vida de pessoas reais, não se faz em pouco tempo.

Uma inimizade crescente

Sejamos francos. Steven Avery não estava entre os habitantes mais amados do condado de Mintowoc, no estado do Winsconsin. O negócio da família não agradava às autoridades, e a relação dos Avery com a comunidade não era a mais saudável. Havia ainda mexericos sobre os hábitos menos ortodoxos de Steven. A família era (e é) tratada como lixo pelos demais, e a sucata, que lhes põe a comida no prato, desagrada. Era preciso fazer alguma coisa, e a prisão de Steven veio mesmo a calhar. Tudo terá sido fabricado, e o queixoso decidiu voltar à justiça para reaver o que era seu por direito. Aqui, o abuso de poder e a busca incessante por um culpado fizeram mesmo das suas, e a vítima tinha de ser ressarcida.

Não chegou a conseguir o que pretendia. A sua inocência na primeira acusação (a de violação, que transitou em julgado) foi provada, mas o novo caso em que está envolvido tem pormenores ainda mais estranhos. Um brutal assassínio volta a pô-lo no centro de um turbilhão de emoções familiares contraditórias, com as autoridades locais a agirem (mais uma vez) de forma pouco clara.

Voltou aos calabouços pouco depois de ser libertado, com uma sentença de prisão perpétua por cumprir. Mais uma vez não há provas efetivas da sua presença no local do crime, e um dos objetos recolhidos nem sequer lhe pertence. Outro foi limpo e o seu ADN posteriormente ‘colado’.
“Making a Murderer” é mesmo como o título adianta: quem presumivelmente mata pode não ter morto ninguém, e há quem crie assassinos à medida das circunstâncias. A principal testemunha ouvida foi um sobrinho adolescente que sofre de distúrbios mentais. Foi interrogado sem presença médica ou dos pais, e é disso mesmo que o jovem fala no documentário. As imagens estão em todo o lado, e a ficção é sempre posta de parte. É preciso dizer mais?

A televisão da vida real

A realidade está a tomar domínios e espaços que pertenciam somente à ficção. Se grande parte das reportagens e documentários eram construídos com pouco espaço de emissão, poucos meios e sem o mesmo brilho que as histórias fictícias, isso agora está perto do fim. Os espectadores querem, cada vez mais, conhecer a fundo os espaços inexplorados da vida real, e as produtoras estão atentas.

Este não é um produto de televisão criado para os que assistem a todos os episódios de uma vez. O binge-watching não se aplica aqui. É preciso tempo para ver, ouvir e pesquisar, e a nova série da Netflix obriga a uma digestão demorada de toda a informação sobre os dois casos que envolvem Steven Avery. É preciso estofo para seguir a série até ao fim, mas impossível é atingir o décimo capítulo sem escolher um lado.

Ter-se-á este homem transformado durante os anos que passou na prisão? Poderá a sua mente ter mudado depois de tantas injustiças? Valerá a pena lutar contra o poder? As perguntas são muitas e vão surgindo à medida que as horas de “Making a Murderer” passam à nossa frente.

Depois de “A luta pelas suas vidas”, nome do último episódio, a vida continua — dentro do possível —, mas o vício da realidade toma conta de nós. “The Jinx: A Vida e as Mortes de Robert Durst” e “Serial” são duas sugestões para os que não resistem a uma nova história de crime.

(Texto originalmente publicado na edição do Expresso 2252, de 24 de dezembro)