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As caras de Delevingne

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Andrea Raffin / Alamy

A it girl do momento é uma supermodelo britânica de 23 anos que foi apontada como a sucessora de Kate Moss. Quer seguir o caminho de Charlize Theron no cinema, sonha com uma carreira musical e é um fenómeno nas redes sociais, com mais seguidores no Instagram do que Lady Gaga, Angelina Jolie e Irina Shayk juntas. Mas será que alguém a conhece verdadeiramente?

Numa cena do filme “Cidades de Papel”, que se estreou em Portugal no verão, Quentin, um adolescente tímido, confessa a Margo, sua vizinha e uma das raparigas mais populares do liceu, que a ama há anos. “Tu amas-me? Tu nem me conheces”, responde Margo. Na audição para o papel, o diretor, Jake Schreier, pediu a Cara Delevingne que lesse esta fala e improvisasse o resto da cena com o protagonista. Ela fê-lo com tal intensidade que ambos acabaram a chorar. A manequim e agora atriz britânica de 23 anos ganhou o papel entre quase 200 candidatas, sobretudo pela grande empatia que estabeleceu com a personagem. Margo podia ser ela. “Houve autenticidade. Não parecia que ela estava a representar. Numa escala global, Cara é uma versão de Margo”, disse Schreier ao “Wall Street Journal”. Delevingne, que conseguiu assim o seu primeiro papel de destaque em Hollywood, conta que se revia naquelas palavras de Margo. Era precisamente aquilo que dizia às pessoas que se confessavam apaixonadas por ela. “[Digo-lhes algo] do género: ‘O que quer que pensas que sou é uma projeção de quem realmente sou. Eu não faço ideia quem seja! Então, como é que tu sabes?’”

Muitos reconhecê-la-ão pelas sobrancelhas fartas, outros pelas poses apalhaçadas, com os olhos trocados e a língua de fora — Karl Lagerfeld chamou-lhe “o Charlie Chaplin do mundo da moda”. Mas perceber quem é, afinal, esta jovem irreverente não é fácil, porque ela tem tantas peles que se torna difícil dizer qual delas lhe assenta melhor. Tentemos: é a supermodelo inglesa que não queria o mundo da moda mas que se tornou uma das melhores; é a atriz que sonha um dia ganhar um Óscar; é a apaixonada por música que, se a representação falhar, quer gravar um álbum; e é um fenómeno das redes sociais, uma it girl cujos passos são seguidos por quase 20 milhões de pessoas no Instagram e por perto de 4 milhões no Twitter.

Quando, em julho, cortou com a agência de modelos que a representava e anunciou que queria focar-se só na representação, a decisão foi vista como uma jogada corajosa mas arriscada para quem trocava uma carreira em ascensão por uma máquina trituradora de sonhos e ambições como é Hollywood. Mas, para ela, pareceu ser sobretudo um alívio. “Ser modelo só me fez sentir um pouco oca, não me fez crescer como ser humano. De certa forma, esqueci-me de que era jovem. Senti-me tão velha”, admite.

Este sentimento talvez esteja enraizado no facto de Delevingne nunca querer ter sido manequim. Foi uma das irmãs, Poppy, que também é modelo, quem a apresentou à agência dela. Estreou-se com 10 anos numa sessão para a “Vogue Italia” e, na adolescência, viu na moda uma oportunidade de ganhar dinheiro para pagar os estudos de representação e poder viajar com os amigos quando terminou o ensino secundário no prestigiado colégio interno Bedales, onde também estudaram os filhos de Mick Jagger.

As caretas de Delevingne começaram “como um mecanismo de defesa”

As caretas de Delevingne começaram “como um mecanismo de defesa”

Bertrand Rindoff Petroff

Apesar de ter nascido no seio de uma família privilegiada e próxima da aristocracia britânica — a avó materna foi dama de companhia da princesa Margarida, o pai, Charles Delevingne, é um conhecido promotor imobiliário, e a mãe, Pandora, uma socialite e personal shopper que terá entre as clientes Kate Middleton —, Cara conta que os pais deixaram de lhe dar dinheiro aos 16 anos. Viveu com eles até o ano passado, numa mansão avaliada em 15 milhões de euros em Belgravia, um bairro no centro de Londres conhecido pelas luxuosas propriedades, tendo por vizinhos celebridades como Roman Abramovich, Andrew Lloyd Webber, Nigela Lawson, José Mourinho (na primeira passagem pelo Chelsea) e a atriz Joan Collins, que é sua madrinha. No final do ano, comprou uma mansão de 4 milhões de euros noutro bairro exclusivo, mas diz-se que só lá dormiu uma ou duas noites, porque ainda não tem mobília, só um amontoado de roupa. “A minha casa é onde os meus pés estão”, afirma.

Uma ascensão vertiginosa

Nas primeiras sessões de fotografia, Cara sentiu-se “como um animal numa jaula”, sem saber como se comportar. Mas bastou um ano para Christopher Bailey, o CEO da Burberry, reparar nela e lhe oferecer o primeiro grande contrato. Convidou-a para se enfiar nua debaixo do célebre impermeável da marca e enrolar aquelas pernas longilíneas em Eddie Redmayne (esse mesmo que viria a conquistar o Óscar de melhor ator no papel do físico Stephen Hawking em “A Teoria de Tudo”). Já então flirtava com a representação.

“A moda nunca foi um sonho meu, mas quando pus na cabeça que ia fazer isto quis mesmo ter sucesso”, confessou ao “New York Times”. Desde então, em pouco mais de três anos, a ascensão foi fulgurante: protagonizou campanhas publicitárias para marcas de luxo, como a Chanel, a Fendi ou a Yves Saint Laurent, e para marcas mais acessíveis, como a H&M e a Mango; vestiu a lingerie da Victoria’s Secret ao lado de Sara Sampaio; desenhou malas para a Mulberry; assinou uma edição especial de relógios Tag Heur; foi capa da “Vogue” e de mais de 40 revistas; trabalhou com fotógrafos como Mario Testino, Bruce Weber e Tim Walker; foi considerada Modelo do Ano para os leitores do site “Models.com” em 2014 e chegou ao segundo lugar da lista da “Forbes” das manequins mais bem pagas do mundo — faturou mais de 8 milhões de euros entre agosto de 2014 e agosto de 2015, sendo apenas superada por Gisele Bundchen. Apontada como a sucessora de Kate Moss, apareceu ao lado desta na última campanha da Mango. “É uma das manequins mais populares e reconhecidas do momento”, explicou ao Expresso Guillermo Corominas, diretor de comunicação da marca, justificando a escolha. “A beleza natural, o facto de ter quebrado muitas regras na indústria e a personalidade forte fazem da Cara alguém muito especial.”

Numa cena do filme “Cidades de Papel”

Numa cena do filme “Cidades de Papel”

Michael Tackett

Apesar do sucesso, Delevingne admite que a moda é um mundo sexista e impessoal. No pé, tatuou a expressão “Made in England”, porque se sentia tratada como se fosse um manequim de uma loja. “Não olham para nós, olham através de nós. Somos só marionetas, entretenimento. Sentimos que precisamos de não ter alma para poder fazer aquela profissão”, confessou ao “Guardian”.

Salva pelo cinema

A moda consumiu-lhe a alma e deu-lhe também cabo da saúde. Desenvolveu psoríase aguda, uma doença crónica da pele caracterizada por manchas vermelhas e escamosas, que atribuiu ao stresse e à exaustão. O problema era tão sério que, em alguns desfiles, tiveram de cobrir-lhe todo o corpo com base. “As pessoas punham luvas e não queriam tocar-me, pensavam que era lepra ou algo assim.” Foi o resultado do que chamou “efeito limão”: “Pegam em ti, espremem tudo o que conseguem e depois deitam-te fora. Estava constantemente no precipício. É algo mental também, porque se te odeias, e ao teu corpo, só piora.” Um dia, esbarrou na parede. Chegou a ter pensamentos suicidas.

Nas raras entrevistas que dá, diz que, apesar de tudo, foi a moda que a levou ao cinema. Sempre quis cantar e representar, uma ambição que começou a ser alimentada aos 5 anos, quando fez o papel de Maria numa peça de Natal na escola. Na primeira aparição no cinema, no clássico “Anna Karenina”, não teve direito a qualquer fala, mas o realizador, Joe Wright, gostou dela o suficiente para a convidar para o papel de uma sereia em “Pan — Viagem à Terra do Nunca”, que se estreia em Portugal a 15 de outubro. É um dos cinco filmes em que participa este ano. Além de “Cidades de Papel”, está também em “London Fields”, com Johnny Depp, “The Face of an Angel”, ao lado de Kate Beckinsale, e “Tulip Fever”, de Justin Chadwick, o realizador de “Mandela”. Para o ano, vamos vê-la na adaptação da BD “Suicide Squad”, onde contracena com Will Smith e Jared Leto, no papel de uma vilã, para o qual se preparou imaginando formas de matar os amigos, e em 2017 será a protagonista de “Valerian” (outra adaptação de uma BD), realizado por Luc Besson.

Com a namorada, a cantora Annie Clark (St. Vincent)

Com a namorada, a cantora Annie Clark (St. Vincent)

David M. Benett

Podia ter feito mais filmes, mas recusou sempre “o clichê modelo/atriz”, declinando os típicos papéis reservados às estrelas das passerelles: o de beldade que morre a toda a hora ou o de bimba num qualquer “American Pie”. “Parecia louco recusar papéis, porque pensava que faria tudo para ser atriz, mas a minha dignidade é mais importante.”

Delevingne sabe que antes dela outras manequins tentaram ter sucesso em Hollywood e falharam: Cindy Crawford, Elle Macpherson, Gisele Bündchen, Naomi Campbell... Mas a sua inspiração é a sul-africana Charlize Theron, vencedora de um Óscar. Se a aposta não resultar, promete virar-se para a música. Toca bateria, leva a guitarra para todo o lado e está sempre a compor e a escrever poemas, sobretudo quando está triste, zangada, perdida ou confusa. “Se esta merda não resultar, tirarei seis meses do ano para fazer um álbum. Só preciso de tempo. As pessoas vão ser tão duras a julgá-lo que tem de ser espetacular.”

Talvez possa pedir ajuda à namorada, a cantora indie Annie Clark, mais conhecida por St. Vincent — Cara assumiu aos 20 anos que era bissexual —, às amigas Rihanna, Rita Ora ou Taylor Swift, com quem partilhou muitas noites de farra, ou a Pharrell Williams, que contracenou com ela numa curta-metragem dirigida por Karl Lagerfeld para a campanha “Reincarnation” da Chanel. “Vejo-a como uma pluralista. É ambiciosa em relação a muitas coisas”, afirma o músico. Ela assume que não quer limitar-se. “Quero provar que podemos ser o que quer que desejemos. Se foder isto, é tudo culpa minha”, disse ao “Wall Street Journal”.

Um Chucky de cabelo loiro

Talvez tenha aprendido com o tropeção que deu há dois anos, quando foi fotografada a deixar cair à porta de casa o que parecia ser um saco com cocaína. A H&M, que em 2005 cancelara o contrato com Kate Moss por um escândalo semelhante, não voltou a trabalhar com ela. Delevingne reconhece o erro. “Era uma criança”, explicou ao “New York Times”. “Ainda sou, de muitas formas. Toda a gente precisa de levar um estalo e de ser recordado que não é invencível. Para mim, foi isso.” Serviu-lhe de lição. Não podia estar “mais longe” das drogas. “O que quer que tenha acontecido ficou no passado.”

Desde então, diz que passou a beber menos, a tratar do físico e a praticar ioga. Acredita que quando passou a cuidar de si começou não só a conseguir melhores papéis mas a lidar com os seus fantasmas interiores. “Costumava estar num estado constante de pânico e ansiedade, tinha demasiadas vozes na minha cabeça. De repente, percebi que estava em paz por dentro, e nunca tive isso, nem mesmo na infância.” Confessa ter sido uma criança “assustadora”, uma espécie de “Chucky com o cabelo pintado de loiro”, que tinha pesadelos à noite e andava pela casa a ligar todas as luzes “e a gritar como se tivessem assassinado alguém”.

A sua família, assídua nos círculos sociais, está longe de ser perfeita. Pandora, a mãe, anda a escrever um livro de memórias sobre a longa luta contra a dependência da heroína, algo que afetou irremediavelmente Cara. “Ter pais que têm uma dependência muda a infância de qualquer criança. Cresces demasiado rápido, porque estás a tomar conta deles”, disse à “Vogue”. Foi também por isso que sonhava ser atriz. Odiava-se tanto que queria ser outra pessoa. “Fiz muita terapia em criança”, conta.

Aos 15 anos, caiu numa depressão profunda, batia com a cabeça nas árvores para tentar desmaiar. Como tratamento, recebeu cocktails de drogas psicotrópicas e foi enviada para o colégio Bedales, onde, sem interesse pelos estudos, passava o tempo a tocar bateria e a ser vista por terapeutas. A depressão, a rejeição, o sexismo do mundo da moda, tudo isso preparou-a para o momento que vive atualmente. Ganhou pele de crocodilo. “Agora que estou a fazer isto [a representar] sou a pessoa mais feliz do mundo.”

com Kate Moss, de quem foi apontada sucessora, na mais recente campanha da Mango

com Kate Moss, de quem foi apontada sucessora, na mais recente campanha da Mango

Foto D.R.

Fenómeno nas redes sociais

Esta franqueza com que Delevingne fala das suas fragilidades é uma das razões por que os fãs gostam tanto dela: acreditam que é rara e genuína. Pode ser bonita, sofisticada e famosa, rodeada de amigas glamorosas, mas não teve um percurso fácil. Recentemente, colocou no Instagram uma imagem onde se podia ler: “Nasci para ser autêntica, não para ser perfeita.”

A popularidade dela na rede social não tem precedentes para uma manequim. Os quase 20 milhões de seguidores são quase o dobro dos de Lady Gaga. Visto de outra perspetiva, são mais do que a soma das pessoas que seguem a cantora, a atriz Angelina Jolie e a supermodelo Irina Shayk, ex-namorada de Cristiano Ronaldo. Cortejou uma audiência jovem e indefetível porque, num mundo feito de aparências, ela é uma lufada de ar fresco. Tem uma personalidade vibrante, que contrasta com o cinzentismo da moda, e a sua predisposição para a patetice parece quase uma missão para tornar o meio mais divertido.

Enquanto outras manequins colocam fotos irrepreensíveis em biquíni, ela mostra um desinfetante para as mãos chamado Maybe you touched your genitals (Talvez tenha tocado nos seus genitais); noutra imagem, deixa um pensamento motivacional: “Se te sentes impotente, lembra-te de que basta um dos teus pelos púbicos para fechar um restaurante”; noutra, ainda, mostra uma tatuagem com a palavra “Bacon” na planta do pé. Há também vídeos em que aparece a dar um trambolhão numa casa de banho na companhia das amigas Kendall Jenner (a irmã mais nova das Kardashians), Hailey Baldwin (filha de Stephen Baldwin) e Bella Hadid (namorada do cantor The Weeknd); a cantar com Pharrell Williams num desfile da Chanel; ou a fugir dos paparazzi num carrinho de golfe, com a legenda “Run, paps!!! Runnnnnn.”

“Quando comecei, toda a ideia da modelo era bem diferente, era um pouco snob. Não diria snob, mas ninguém estava a tentar divertir-se ou sequer a mostrar um sorriso”, afirma, explicando que as suas famosas caretas começaram como um mecanismo de defesa. “Livram-me de muitas situações chatas”, revela.

A era das instagirls

Cara Delevingne representa também um novo tipo de estrelato, as instagirls, termo cunhado pela “Vogue” para representar as supermodelos do século XXI. De certa forma, a popularidade dela redefine o que é hoje uma modelo de sucesso: a que tem uma legião de fãs tão grande que pode influenciar desde anunciantes a produtores de cinema. “Não teria tido tanto sucesso se não tivesse isso. Nos anos 90, não teria sido uma supermodelo”, reconhece.

Christopher Bailey, CEO da Burberry, não se mostra surpreendido por ela ter construído uma base de seguidores tão grande. “A plataforma serve-a na perfeição, porque é muito imediata. Podem ver o lado verdadeiro dela — ocasionalmente maluca, sempre divertida e absolutamente autêntica.” Mas as redes sociais vieram também mudar a forma como os fãs se relacionam com as estrelas. Em alguns casos, pode ser “assustador”, admite a atriz. “Quando estava a crescer, era fã de muitos músicos e atores, mas agora é diferente, é como se fossem obcecados. Têm de saber tudo sobre a vida da pessoa, porque, com o Instagram e o Twitter, podem literalmente ser parte da vida dela.”

Para já, não parece verdadeiramente preocupada com isso. Está na melhor fase da carreira de atriz e quer aproveitar cada momento. “As pessoas podem pôr-me na caixa que quiserem: modelo, o que seja. Mas se eu continuar, e fizer as coisas bem, o que espero conseguir, então poderão dar-me mais filmes — e ganharei um Óscar!”

Texto originalmente publicado na edição de 19 de setembro da Revista E