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A verdade da ilusão

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É Umberto Eco no seu elemento, a discorrer sobre a realidade do falso, a viajar pela narrativa real e imaginada das lendas mais distantes. Só ele podia ter escrito esta “História das Terras e dos Lugares Lendários”, onde se disseca não só o objeto do livro mas a própria sabedoria — inesgotável — do autor

Só um leitor, um atento e profundíssimo leitor, um dissecador dos livros dos outros, poderia ter escrito este livro. Um livro que fala dos lugares dos livros, não dos imaginários, não dos reconhecidamente falsos, mas daqueles que, sendo falsos, originaram ilusões reais. Na sua “História das Terras e dos Lugares Lendários” (Gradiva), escrita em 2013 e agora traduzida em português, Umberto Eco apressa-se a destruir a confusão que se possa instalar entre o seu livro e outros semelhantes, como o “Dicionário dos Lugares Imaginários”, de Alberto Manguel e Gianni Guadalupi. Eco não quer falar de lugares inventados. Não quer — embora aprecie — mapas fictícios que o leitor aceita pelas regras do contrato ficcional, sabendo-os fruto de um devaneio e devotando-lhes até uma certa credulidade.

O que Umberto Eco quer de novo é insistir naquilo que mais o impressiona: a mentira. A mentira tornada realidade. O que é criado para influenciar com a sua teia o que existe, chegando a mover multidões em busca de uma pista ou de uma sugestão que provem sem espaço para dúvidas a sua presença na história. As lendas, diz, “costumam ter um fundo de verdade histórica”. São uma amálgama entre mentiras e verdades, um terceiro estádio de realidade, uma apimentada configuração. Abrir o volume é encontrar um profícuo conjunto de imagens belíssimas, escolhidas a dedo pelo autor — representações das tais terras lendárias que um dia se acreditou serem reais —, e 15 capítulos que traçam um denso itinerário pelas quimeras do homem, seguidos dos trechos originais daqueles que as descreveram, estudaram ou refutaram.

E, entrando, deparamos com um manancial de dados e relações típico de um detetive erudito como Eco. Somos logo atirados para trás, para as teorias sobre o formato da Terra que os antigos engendraram, o disco achatado de Tales, o cilindro de Anaximandro, a esfera intuída por Parménides, Pitágoras, Platão e Aristóteles, e para Ptolemeu, que dividiu em 360 graus o meridiano. A Antiguidade e a Idade Média sabiam da sua esfericidade, defende Eco, ainda que os nossos contemporâneos ainda julguem o contrário, Acontecia que, nesse tempo, um “mapa adequado” era aquele que fornecia informações sobre a viagem — qual mapa de uma rede ferroviária — e jamais um desenho exato, impossível de conseguir.

No exercício de desmontar velhas intrigas e de satisfazer a sua própria necessidade de ordem, o escritor faz escala em terrenos bíblicos e espraia-se sobre a localização das dez tribos perdidas de Israel. Conta-nos, por exemplo, que se pensou estarem na Abissínia, na América, em Caxemira, entre os tártaros da Ásia Central, no Cáucaso, no Afeganistão e até nas ilhas britânicas — a hipótese mirabolante de Richard Brothers. A tradição situa-as além do rio Sambation — citado no romance “Baudolino” —, cujas águas fervilhavam lançando rochas enormes e só ao sábado acalmavam, mas que judeu iria alguma vez violar o dia sagrado de descanso para as atravessar? E a rainha de Sabá? Qual era o seu reino? E o dos Reis Magos? Onde nasceram? São Mateus nomeia-os no seu Evangelho, apesar de este ter sido escrito no século I e portanto por alguém que não Mateus. E os Reis Magos, que talvez não fossem reis, descansam em túmulos ubíquos, em Constantinopla, em Sabá, em Milão...

Eco diverte-se. Parte à procura do Paraíso Terrestre, que cada religião situou num local distinto, da Atlântida, que excitou a imaginação de Platão em diante, das migrações do Graal, do interior da Terra, da Terra Austral, das civilizações ideais, do reino do Preste João. Aqui, narra-se a história de uma carta — outra vez o espectro de “Baudolino” — que começou a circular em 1165, supostamente redigida pelo Preste João a Manuel Comneno, imperador do Oriente. Nela, dava-se conta de um reino cristão existente para lá das regiões ocupadas pelos muçulmanos.

Frederico Barba-Roxa e o Papa Alexandre III tiveram-na nas mãos e ficaram por ela impressionados. E, nos dois séculos seguintes, a missiva foi traduzida e citada e alvo de várias versões — e a sua importância na expansão do Ocidente cristão foi capital. Claro que ninguém explicaria a razão por que, a meio do século XIV, o reino do Preste João se deslocou do Oriente para África, mais exatamente para a Etiópia, como o relatou o português Francisco Álvares.

No fim do livro, Umberto Eco não resiste em enveredar pelo caminho de que no início se tinha distanciado, a saber, o dos lugares romanescos, inexistentes, que são pura matéria literária. As cidades invisíveis de Calvino, a Terra Média de Tolkien ou o Aleph que Jorge Luís Borges encontrou na parte inferior de um degrau. Gotham City, Hogwarts, o Parque Jurássico, Liliput, Xanadu. “Sabemos muitíssimo bem que existe um mundo real, no qual aconteceu a Segunda Guerra Mundial e o Homem chegou à Lua, e que existem os mundos possíveis da nossa imaginação, no qual existiram e existem a Branca de Neve e Harry Potter, o inspetor Maigret e Madame Bovary. Se aceitamos o contrato ficcional, decidindo levar a sério um mundo possível narrativo, temos de aceitar que a Branca de Neve foi despertada da sua letargia pelo Príncipe Encantado, que Maigret mora em Paris, no Boulevard Richard Lenoir, que Harry Potter estudou Magia em Hogwarts, que Madame Bovary engoliu veneno”, diz-nos o autor. Temos de aceitar, portanto, nós, leitores, como parte do contrato ficcional, que o autor Umberto Eco quebre as suas próprias premissas. E que o faça para mostrar a realidade do nosso imaginário, mais real do que tudo o que vemos e nos rodeia.

(Texto originalmente publicado na edição do Expresso 2252, de 24 de dezembro)