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Karl Ove Knausgård: “Uso-me como matéria-prima”

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David Sandison

Nos Estados Unidos é uma estrela pop. Na Escandinávia devoraram-no. Karl Ove Knausgård, um dos finalistas do Booker Prize International que esta noite será conhecido, tornou-se o herói da sua própria vida, roubando a Hitler o título “Mein Kampf”, a Proust a empreitada. Em seis volumes e milhares de páginas de confissões, esvaziou-se na memória. No final, sobre a sua vida e a da sua família, foi pouco o que este norueguês deixou por dizer e poucas são as hipóteses de escaparmos à sua escrita. Recorde ou releia a entrevista que deu há um ano à Revista E do Expresso

Cristina Margato

Cristina Margato

em Ystad, Suécia

Jornalista

Por alguma razão imaginei uma estação grande, fechada, mas ao colocar o pé na cais de Ystad deparo-me com um deprimente apeadeiro. A visão espraia-se de tal modo sobre a praça que o primeiro ser ao qual dirijo o olhar é um homem alto que atravessa uma passadeira. “Seria sorte a mais ser ele”, inquieto-me. Inspeciono o resto da praça. Não é o único homem, mas não tenho dúvidas. Presumo que foi o facto de ele ser muito alto, de o cabelo ser branco e de ter um certo modo de andar que instintivamente me levou a olhar para ele. Estou meia hora atrasada.

Para início de conversa posso dizer-lhe que do lugar de donde venho é difícil imaginar que os comboios suecos não são pontuais. Ele entra no cais, pernas altas, passos largos, as costas encurvadas, como sempre são as das pessoas muito altas. Sei que procura uma desconhecida. Sorrio-lhe. Funciona, porque de imediato me devolve o olhar. Levanto o queixo, olho para cima, o rosto é acolhedor, e a voz calma anuncia-me que já decidiu tomar conta da situação: “Vamos no meu carro até um café junto ao mar que não é longe do lugar onde vivo. Sempre fica a conhecer a região!” Tenho de confessar que tudo neste acolhimento é mais do que eu esperava de um homem que imaginava esquivo e até misantropo. E é, nesse preciso momento, que me assusto. Recordo-me de tudo o que ele já escreveu sobre outros jornalistas e percebo que a partir daí não estou a salvo do seu escrutínio.

A pergunta que se segue, “Tem filhos?”, revelará a curiosidade de Knausgård e uma certa habilidade para a conversa de circunstância que nem o próprio reconhece. Ate ao café ainda me falará dos campos agrícolas de Ystad, onde os suecos gostam de passar o verão, das praias com águas de temperaturas superiores a 20 graus, da filha mais nova e do equilíbrio que esta veio estabelecer entre os irmãos. Percebo que, por mais páginas que leia, e já li pelo menos duas mil, não saberei quem é este homem que ora me enfada com longas descrições sobre a vidinha, o quotidiano das fraldas e das esfregonas, sem fuga nem elipses, ora me eleva no doce prazer do desafio intelectual...

Com ele tenho dado voltas num carrossel, oscilado entre reflexões sobre a arte, a procura desesperada de uma identidade, o sentido da vida, a inaceitabilidade da morte, o amor e as constatações mesquinhas e inconfessáveis que, em nossa defesa, seria melhor nem as articular. Karl Ove Knausgård é o homem que não guarda segredos. O escritor que renuncia à possibilidade de ter uma vida dupla para se colocar a contas com a infância, o pai alcoólico, a mulher bipolar, as quatro crianças pequenas. A família de onde vem. A família que está a construir. É aquele também que está pronto a desafiar a norma social que nos sugere discrição e que não dá qualquer crédito à vergonha. Com ele, “a vida como ela é” desfila à nossa frente em seis volumes, quatro já traduzidos para inglês e, em breve, dois para português (Relógio D’Água).

É a primeira vez que entrevisto alguém cuja vida pessoal e até doméstica não tem segredos. Ela está nos seus livros. Do que li, fiquei com a ideia de que sempre quis diminuir a barreira entre si e os outros. E agora, depois de milhares de páginas de confissões, quero saber se a barreira entre si e os outros diminuiu?
É uma boa pergunta. Vendo bem, a barreira é a mesma. A atitude das pessoas em relação a mim é que mudou. A minha em relação a elas não se alterou. Não tive problemas em ser honesto, em partilhar segredos, em libertar o que tinha dentro de mim. Mas fi-lo através da escrita, no território literário. Não foi difícil nem resultou num grande custo. Conviver com os outros já é algo muito diferente. Não posso sentar-me e conversar. Sou terrivelmente tímido. Posso fazê-lo no contexto de uma entrevista, como agora, porque me fazem perguntas. De resto, está tudo igual, como sempre foi.

Não piorou?
Não.

O que mudou na atitude dos outros?
Sei que as pessoas sabem quem sou. Não tenho de provar nada. Nunca gostei de conhecer pessoas na arena social, em que os outros pretendem algo de nós e nós algo deles. Para um escritor, isso é importante, na medida em que é necessário ter ligações. Nunca gostei desse mundo e agora não preciso de fazer parte dele. Tenho imensos convites, o que é fantástico, mas posso recusá-los. Estou na posição de o poder fazer sem comprometer a minha escrita, o meu trabalho. Não tenho de me vender. Todas as portas se abriram sem que nada tenha feito para tal acontecer. Apenas me concentrei em escrever.

E em escrever a partir da sua cabeça, colocando-nos dentro dela. A sensação é estranha...
Sim, também é estranho para mim. Quando comecei este livro, perguntei-me: “Porque estou a fazer isto? Porque é que alguém quererá ler isto? Por que razão há de ser publicado? Quem é que, na verdade, poderá estar interessado na minha vida, nestas coisas que tenho dentro da cabeça?” E até um certo ponto essas são perguntas que qualquer escritor coloca a ele próprio. O momento crucial acontece quando se entrega o manuscrito ao editor. Chocou-me ter este êxito, até porque o livro [são seis volumes, mas ele usará sempre o singular] se fecha sobre mim e sobre tudo o que gira à minha volta... Continua a ser um mistério o sucesso que tem tido. A questão é: o que se quer quando se lê?, entrar na cabeça de alguém?, que entrem na nossa cabeça? Mesmo quando se lê algo muito objetivo, um livro como “Madame Bovary”, continuamos a ter alguém que entra na nossa cabeça ao ponto de nos vermos dentro dessa história, e esse é apenas o mistério da literatura. Não sei como o fazemos ou onde está o valor de o fazer, e essa é também uma questão interessante agora que a literatura está sob pressão. Nos Estados Unidos, por exemplo, são as imagens e a cultura visual dos filmes, dos anúncios na televisão, da internet que se impõem em detrimento da literatura. As pessoas quase já não leem, ao ponto de não ser necessário vender muitos exemplares para estar no top. Lê-se em Nova Iorque e pouco mais. Qual é a importância da literatura? Penso muito nesta questão, porque também os meus filhos estão a crescer nesta cultura tão diferente daquela de onde venho. Li muito. A literatura é muito importante para mim, na vida pessoal. Não sei se será para eles, mas espero que o seja.

E da razão do sucesso não tem mesmo qualquer ideia?
O que sei resulta da impressão que as pessoas me devolvem quando me falam do livro. O que me dizem está sempre relacionado com identificação ou, num certo nível, com a história. Ou tiveram pais alcoólicos, ou cresceram nos anos 80 e sentem o espírito desta década no livro, ou reconhecem na minha infância elementos comuns às deles... Outras vezes, acho que se sentem próximos de mim, daquilo que não deveriam pensar e ainda assim pensam, de um certo tipo de associações que aparecem na escrita de diários mas não num romance. O que os faz continuar a ler passa muito pelo reconhecimento e pela sensação de ser próximo de alguém.

Eu descobri-o quando quis entender a Lei de Jante. Encontrei um artigo em que fala da sua difícil relação com esta norma social inerente à cultura nórdica. Só depois um amigo me deu o livro de Aksel Sandemose [“Un fugitif recoupe ses traces”, 1933] onde ele fixa a lei. Pode explicar-me o que é a Lei de Jante?
A Lei de Jante é basicamente uma norma social repressiva. Julgo que é comum a todas as vilas ou cidades pequenas, mesmo noutras partes do mundo, embora seja, de facto, um princípio fundamental da sociedade escandinava. Segundo esta norma, não se pode ser diferente, não se é único, mas apenas “um de nós”. Mas a Lei de Jante também tem um lado positivo. Está na base do modelo do Estado social escandinavo, face ao qual todos os indivíduos são iguais e devem ser tratados de igual forma, a começar pela família real. Neste sistema, o normal é que se esconda o que se é, para não se ser rejeitado. Mostrar é motivo de crítica e de vergonha. Mas a nova geração está a desafiar a norma. A dada altura, comecei a pensar em escrever sobre mim, sobre o que não é aceitável em mim, sobre as coisas que normalmente não se mostram mas se escondem. E escrevi. E o que descobri como escritor é que a transgressão não acontece no momento em que se escreve mas quando se publica. A minha história tornou-se a história de todos, passou a ser coletiva. Não é especial, mas comum, e essa tem sido, para mim, uma experiência muito forte.

Irónico: o eu torna-se nós, como na Lei de Jante, e você acaba por não ser diferente dos outros...
O eu torna-se nós no livro. Mas ao escritor acontece o contrário, porque se torna visível, destaca-se acima dos outros. Na Noruega, por exemplo, a minha cara apareceu em todo o lado, e as pessoas comentavam: “Quem ele pensa que é? É um parvo! Não é ninguém!” Não sei como é fora dos países nórdicos, mas julgo que também não será muito diferente. Parece que há uma certa quantidade disponível de generosidade que por vezes se esgota.

Descobriu isso quando a sua cara apareceu na capa de um livro anterior a esta série, não foi?
Sim, e não foi por minha culpa. A minha cara apareceu na capa de uma edição estrangeira, julgo que na alemã. Na Noruega, nunca se coloca a cara do escritor na capa do livro. Há uma espécie de norma que faz com que se usem objetos. E aí também tenho controlo da edição, porque é o meu irmão que faz as capas.

No artigo sobre Jante diz sempre que quer ser alguém, que quer ser diferente, e no livro fala em querer ser um homem decente. Já se acha um homem decente?
Não sei. Há sempre dois mecanismos a funcionar no livro, um em que me mostro e outro em que me escondo. Por vezes posso parecer o homem decente, mas logo a seguir sou o homem horrível. Tenho estados mentais narcísicos, porque é tudo acerca de mim, do amor ou do ódio que tenho a mim mesmo.

E também sobre o amor ou o ódio aos outros. A sua família detestou...
Essa é uma maneira delicada de colocar a questão. A família do meu pai odiou e ameaçou ir para tribunal se eu publicasse o livro. De resto, houve todo o tipo de reações, mas muitos outros acabaram por aceitar.

A sua mãe?
Ela fez um esforço para aceitar o que fiz e encontrou algum valor na obra. Conhece escritores e sabe o que eles fazem. A parte da família do meu pai não lê, e o problema deles está no que eu disse sobre o meu pai e a minha avó. Mas creio que tinha esse direito. Não me sinto assim tão mal por tê-lo feito. Detesto o facto de a única forma de o fazer acabe por os ferir... Mas fiz uma escolha.

Revelar que o seu pai era um alcoólico foi a pior coisa que eles encontraram no livro?
Negaram tudo. Disseram que o meu pai não era alcoólico e que morreu em paz na casa dele. Não havia aquele lixo todo nem aquela avó incontinente que também bebia. Segundo eles, eu só queria vender livros sensacionalistas.

E o seu irmão? Apoiou-o sempre?
Sim, continuamos a ser irmãos, tocamos na mesma banda. Ele enerva-se com o que se diz. Julgo que se identifica comigo e é por isso que fica afetado sempre que digo alguma coisa estúpida nos jornais ou que alguém escreve negativamente sobre mim.

Podia ter feito terapia para superar a morte do seu pai em vez de escrever?
Pensar isso é um enorme erro, é passar ao lado do que quis fazer. Não estou interessado na minha psicologia nem em curar-me. Sou escritor e quis contar uma história. Tinha um pai que até um dado momento é perfeitamente normal mas que nos últimos 16 anos de vida se entrega ao álcool. A queda é um assunto clássico, tanto está em Sófocles como em Ibsen. Se por um lado me intrigava o facto de a queda acontecer na minha própria família, e ainda ser considerada uma coisa banal, trivial, despojada de drama, por outro o meu foco está na identidade. O que é uma identidade? Há várias camadas: a geração, a nação, a cultura, a família. Enquanto pai, comecei a descobrir o meu pai em mim, na relação com as minhas filhas, nas coisas que eu lhes fazia e que ele me tinha feito, e isso teve um enorme impacto, ao ponto de querer escrever este livro. Uso-me como matéria-prima, mas o que quis fazer foi uma obra de arte, mesmo que dizer isto me pareça presunçoso, pretensioso. Quando se quer algo assim tem de se ir até aos limites, ao que queima. É algo muito doloroso.

No fim sente-se melhor?
Sim, mas acho que é por outra razão. Quando comecei a escrever este livro tinha 39 anos, estava na crise da meia-idade. Agora tenho 46 anos e mais experiência como pai.

Lendo os volumes que li, ora o considero um misantropo ora um bom amigo dos seus amigos. Sei tanto sobre si e no final não sei nada. Está sempre a mudar...
É verdade. É a voz da existência, de quem se é, e é isso que liga tudo. Não sou muito bom nas situações sociais, mas quando estou nelas tento ser agradável e fazer tudo o que é esperado de mim, tento agradar aos outros. Depois venho-me embora e já não quero saber de nenhuma daquelas pessoas.

Também escreve sobre isso. Mas diz outra coisa curiosa: “Sempre quis entender os outros e no fim descobri que era um segredo para mim mesmo.”
Falta sempre algo. Não é falta de empatia. É outra coisa. Consigo desligar-me de tudo, distanciar-me. Posso ter uma grande discussão e depois fechar a porta e começar a escrever sem que isso afete o meu trabalho. Quando não vejo não existe. Acredito que um escritor tem de ser assim, precisa dessa distância, quase autista, dessa forma de estar à parte dos outros. Tem de ser capaz de não pensar no que eles vão pensar, de ser livre. O último livro que li é de uma jornalista norueguesa [Åsne Seierstad] sobre Brevik, e é brilhante. É o melhor livro que li sobre o assunto, mas é muito frio, distante, escrito a sangue-frio. Ela segue Brevik, entrevista os pais das vítimas, visita os seus quartos, descreve ao detalhe a forma como foram encontrados os corpos. Atravessa a dor sem falar dela. O efeito é enorme. É um livro horrível de ler, que me fez chorar pela primeira vez desde que tudo aconteceu. Parece um cliché, mas a verdade é que na altura não consegui chorar. Foi ela que me fez ver as vítimas desta tragédia. Eu nunca poderia ter escrito aquele livro, seria impossível.

O livro chama-se “Look at me” [olha para mim]?
Chama-se “One of Us” [um de nós]. Mas eu uso essa expressão num artigo que escrevi. Repito “Look at me, look at me, look at me”, porque tenho a certeza que Breivik só queria que olhassem para ele. Ele não tinha qualquer motivação política.

Nos seus livros também tenho a sensação de que está a pedir que olhem para si e que o amem tal como é, ou seja, na honestidade total.
É uma área difícil de entrar... Há um comediante sueco que costuma acabar os espetáculos a dizer: “Amam-me? Amem-me! Amem-me! Amem-me! É tudo o que quero e é por isso que faço tudo isto.” Há algo assim em todos os que sobem ao palco, que escrevem... No meu caso tem a ver com a minha infância, com a identidade. Algo que não correu bem, porque nem sempre tudo corre bem. Quando vejo um filme, oiço música, vejo teatro ou leio um livro, tenho a sensação de que quem o faz é porque no seu íntimo algo está quebrado. De outra maneira, porque teria o trabalho de o fazer? Porque se chatearia? Porque seria tão visível? Mas depois há de haver outro fator. Não me parece que a minha infância tenho sido assim tão má ou que o meu pai tenha sido diferente de outros. Esse não foi o problema, o problema esteve em mim. Eu é que não soube lidar com tudo o que vivi.

No livro, Geir, seu amigo e editor, diz que não é a família que determina o que somos mas a forma como cada um de nós lida com ela.
E eu penso que há muita verdade no que ele diz. De certo modo, estas questões estão todas no livro.

Não é apenas o seu pai que cai “em desgraça”. Com o tempo, todos vão caindo, como a sua sogra [Ingrid Boström foi atriz e trabalhou com Ingmar Bergman].
É verdade. Ela está agora em minha casa. Vou buscar mais café. Quer?

De onde é que vem esse interesse pela queda e pelos anjos. O seu livro anterior já era sobre anjos...
Não me interessava por anjos. Há anos que andava intensamente à procura de um assunto para um romance e não encontrava nada. Tinha começado uma história acerca do meu pai mas não estava a funcionar. Durante dois anos tive um cartaz na parede que tinha uns pássaros. Noutra parede estava uma fotografia de um anjo. Foi essa combinação de pássaros e anjos e a recordação de o meu pai me ter mostrado uma ave marinha que me fez associar as coisas. A partir daí comecei a ler sobre anjos e a escrever. Fi-lo durante um ano, e o romance começou. Os anjos vieram colmatar uma questão existencial. Não são intocáveis pela vida. Não são apenas criaturas divinas. Lúcifer caiu, e todos caem sempre que entram em contacto com a vida. Na verdade, não estou interessado em anjos nem em mim mesmo. Não foi por isso que escrevi este livro. É um assunto que aparece a partir dessa escrita, que não planeei. Quis escrever sobre o meu pai. Demorei dez anos a conseguir fazê-lo. Ele morreu em 1998, e eu comecei este livro em 2008. Agora já não quero escrever mais sobre ele.

No início desta série falou em suicídio literário. Agora que acabou, continua a escrever?
Sim, continuo a escrever todos os dias. Não estou a escrever um romance, mas pequenos textos. Um texto por dia. Quero publicar quatro livros por ano. Um na primavera, um no outono, um no inverno e outro no verão.

Na altura, disse que ia matar o autor que há em si. Não o matou?
Matei e comecei de novo. Este é um livro de um homem que prefere viver através da literatura e que recusa a vida real. E eu queria que isso acabasse e desejava mergulhar na vida. A última página do livro deveria ser a certeza de que estava de partida, que abandonaria a literatura para entrar na vida. Mas isso levou-me uma série de meses. Agora estou a escrever outra vez.

Há em si algo de Olav H. Hauge, um dos seus autores preferidos e o poeta que escreveu um extenso diário sem sair de casa?
Sim, com a diferença de que eu tenho quatro filhos. Eles são a minha salvação, a minha ligação à vida. Não lhes diga, mas são. Tudo se centra à volta deles.

Deseja ardentemente ser livre, sem ligações, responsabilidades, obrigações, para poder escrever, e opta por construir uma família grande...
Mas é bom ter obrigações. Os filhos colocam-nos em segundo plano e tudo fica muito mais equilibrado. Foi um choque ter filhos. Mas agora é diferente, tudo está melhor. A minha relação está melhor. A literatura mudou tudo.

Para a Linda, a sua mulher, o seu segundo livro deve ter sido um choque.
Sim, foi. Mas ela leu-o antes de eu o publicar. Se me tivesse pedido para não o publicar, não o teria feito, mas nem considerou essa hipótese e não quis mudar nada. Tivemos uma crise logo a seguir. O livro fê-la sobretudo repensar a nossa relação. Percebemos que andávamos em círculos sem sermos honestos, porque na verdade no contexto de um relacionamento nunca se pode ser totalmente honesto. A honestidade só funciona até um certo ponto. Depois torna-se destrutiva.

E a sua ex-mulher já o perdoou?
Ela leu o primeiro livro e não se opôs. O problema foi o segundo. Não o leu antes de ser publicado e não o tinha de ler, tendo em conta que não está nele.

Está porque é traída...
De facto, não é traída, porque nada acontece. O que se passa é que eu me apaixonei por outra pessoa. Ela ficou muito zangada.

Depois há os seus amigos de Estocolmo, aqueles que visitam a sua casa e dos quais fala bastante, expondo as suas relações, a forma como vivem. Como é que reagiram?
São amigos. E Geir mudou-se para aqui com a família. Um dia vieram de Estocolmo para passar férias e encontraram uma casa muito bonita, a um preço de pechincha. Apaixonaram-se e ficaram. Geir está agora a escrever o terceiro livro. O primeiro é sobre boxe. E o segundo sobre a guerra no Iraque [“Bagdad Indigo”]. Publiquei-o na minha editora.

Geir [Angell Øygarden] também é a pessoa a quem lê todos os dias o que escreve e uma peça fundamental neste processo.
Sim, de facto, é. Conheci-o numa altura fundamental da minha vida, ao mesmo tempo que conheci Linda. Tinha 33 anos...

A idade de Cristo.
[risos] Sim. Nessa altura, aconteceram grandes mudanças na minha vida. Nunca tinha tido um amigo com quem pudesse falar sobre tudo. Tinha bons amigos, mas nenhum como ele, em que o entendimento é total de cada um dos lados.

A ideia de chamar a esta série “Mein Kampf” foi de Geir, não foi?
Sim, estávamos a falar da biografia do Hitler, e ele disse: “É isso mesmo.” Depois falei com o editor e ele disse-me que era impossível usar esse título. Dez dias depois telefonou de volta e já não havia problema. Agora quando se diz “Mein Kampf”, na Noruega, já ninguém pensa em Hitler. No início, o título gerava por si só uma grande antipatia, o que me agradava muito, na medida em que queria dizer “este é o meu mundo e não quero saber o que é que vocês vão pensar ou dizer dele”.

No último volume reflete sobre a vida de Hitler...
Sim. Estou à procura da identidade ou da forma como as pessoas se tornam no que são. Hitler começa a sua autobiografia com uma mentira e continua através dessa mentira. Apresenta-se de uma forma muito distante daquela que é na verdade. Até aos 16 anos, ele nunca fez nada de mal, nada que fosse criticável... É interessante, na medida em que não é apenas um, faz parte de uma geração e de uma cultura que passa pela horrível experiência da Grande Guerra e chega ao poder sem ter nada a perder. Se ler biografias dos seus contemporâneos que nada têm a ver com ele encontra semelhanças, o mesmo tipo de pai ou de mãe... Depois ele gostava de arte, de música, queria ser artista, mas tinha pavor das mulheres, da intimidade e do sexo. Pequenos detalhes que ganham uma expressão avassaladora na cultura em geral.

A questão da identidade, mais precisamente a afirmação do indivíduo versus família, é um tema muito tratado na cultura norte-americana. Talvez isso explica o facto de os seus livros terem tanto sucesso nos EUA.
Sempre me senti desenraizado. Nunca pertenci a um lugar. Esse é de facto o ponto de partida da cultura norte-americana. Uma cultura de gente que se desloca no espaço para procurar uma vida melhor. Os meus avós maternos eram pobres, agricultores, viviam num mundo completamente diferente. A minha mãe e as suas irmãs foram as primeiras a estudar, a entrar na universidade. E eu já tive uma vida muito diferente da deles.

E ainda assim o seu apelido Knausgård não é comum na Noruega, pois não?
Sim, porque o meu nome é inventado. Não tem história. Os pais do meu pai tinham um nome muito comum e quando enviaram os filhos para a universidade fizeram questão de arranjar um nome mais pomposo. Não é um nome nobre, mas mostra ambição, vontade de pertencer a um sítio.

O que significa?
Knaus é uma pequena ilha do tamanho de uma rocha e gård uma quinta. O meu pai muda de nome mais tarde. Adota um ainda mais pomposo, o que é perfeitamente imbecil da parte dele. Por sua vez, a minha mãe, que tinha adotado o Knausgård, acabará por mudar de novo, o que se tornará dramático para mim e para o meu irmão. Nunca a iremos perceber. Como vê, o apelido sempre foi uma questão na minha família e é sempre uma questão de identidade.

Linda, a sua mulher, assina o último romance como Boström Knausgård, apesar de já ter publicado livros de poesia apenas como Boström...
Sim, porque decidimos que todos teríamos o mesmo nome na família. E eu não queria ter um nome sueco. Ela ficou com os dois nomes.

Sente-se arrependido de alguma coisa que escreveu?
Houve algumas coisas desnecessárias. Não as deveria ter escrito, tendo em conta que o livro teve tanto sucesso e tanta gente as pode ler. Tenho alguns arrependimentos. Dou-lhe um exemplo: Não deveria ter dito que não amei a minha primeira namorada. Era desnecessário. Mas também não tinha ideia de que isso a iria magoar tanto.

Vanja, a sua filha mais velha, já o leu?
Não.

Vai deixá-la ler?
Sim, vou.

Não tem medo que o faça na adolescência, idade onde está a entrar e que é tão importante para a formação dela?
Espero poder explicar-lhe que tudo o que lá está é parte da vida. É verdade que é uma herança pesada, mas espero que não seja assim tão pesada. Todos recebemos esse peso dos nossos pais, no caso dela esse peso é mais visível.

Não é comum ter acesso aos diários dos pais antes de estes morreram, muito menos quando se é adolescente.
Mas também se pode olhar para isto como uma prenda, na medida em que pode ver os pais como eles são antes de entrar na vida adulta. Foi escrito com boas intenções. Preocupa-me mais o que os outros vão saber acerca dela e de nós.

A cena em que corta a cara quando é rejeitado por Linda pode ser particularmente perigosa para alguém que atravessa a adolescência...
Nunca tinha pensado nisso. É algo que já integrei de tal forma na minha vida...

No livro parece uma coisa horrível...
E foi. Felizmente, já não se nota muito na minha cara. O que eu fiz é perigoso, e é preciso dizê-lo. Mas acontece.

Quer dizer que diz tudo aos seus filhos?
Não, de modo nenhum.

A sua quarta filha nasce depois de acabar esta série. Ela fica fora disto tudo. Não acha que isso poderá fazer uma grande diferença?
Não, porque a história do seu pai e da sua família será igualmente conhecida por todos.

Como é que escreve? Julgo que no início quis impressionar, mostrando que escreve muito bem, mas a partir de certa altura só se preocupou em escrever, escrever, escrever, sem filtros. Como é que se sente no final, com o resultado?
Há um intervalo grande entre o que penso do livro e aquilo que os críticos ou o público consideram. Acontece o oposto do que é normal. É mais comum o escritor considerar que escreve bem e os críticos considerarem o contrário. Neste caso, eu não considero que escreva bem. Quando faço apresentações e tenho de ler em voz alta, sinto-me mal. Encontro coisas difíceis de aceitar, coisas naïves... mas aquela é a verdade, é como eu sou, mesmo que não o queira ver. Eu escrevo, fecho o livro e tento continuar.

Encontrou um novo estilo?
Não. Continuo a tentar, a procurar.

A memória é uma construção. Deve ter inventado muita coisa.
Só os detalhes são impossíveis de lembrar e por isso são muitas vezes inventados. As citações que uso nos diálogos, não sendo exatas, são muito próximas do que foi dito.

A maior parte dos desacordos entre si e as pessoas de que fala deve estar na forma como provavelmente as recordações divergem. Até por nem sempre recordarmos as coisas da mesma maneira...
Sim, mas o pior não é isso. É quando nos referimos a elas sem as elogiarmos, falando delas de modo neutro, um bocadinho aqui, outro ali. Isso é o que, de facto, deixa as pessoas zangadas: o não serem suficientemente importantes. Só a família do meu pai é que negou o que eu escrevi. As outras confrontaram-me com perguntas: “É isto que eu significo para ti? É isto que eu sou?” Mas também há quem se sinta roubado.

Mas não é isso que sente nas entrevistas? Que é roubado?
Já senti. Agora já não. Já não as leio. Apenas lido com a situação. Encaro-as como o momento em que falo com uma pessoa e depois encerro o assunto. No princípio, tentava controlar e enviava e-mails aos jornalistas. Tentava mudar coisas que tinha dito.

Escreve poucas vezes sobre sexo. É um dos temas que evita, não é?
O sexo é de facto um tema que tento evitar a todo o custo. Não é fácil escrever sobe sexo sem dar detalhes íntimos acerca da outra pessoa. Repare, eu comecei por falar da minha infância e do meu pai, e pelo caminho houve um oceano de coisas que ficaram de fora, porque não fazem parte dessa infância. Não é por serem segredos, é simplesmente porque não me interessam.

Queria ser uma estrela rock e tornou-se uma estrela pop da literatura. Como lida com isso?
Não me sinto uma estrela. Sento-me no meu quarto, escrevo e tento criar os meus filhos. Depois vou aos Estados Unidos, como acontecerá na próxima semana, a São Francisco, e o que acontece a seguir nada tem a ver com a minha vida. É de tal modo diferente que encaro esses momentos como uma performance. Depois volto a casa e tudo regressa ao normal. Da última vez tive um choque. Não esperava aquele acolhimento. Agora vou assustado, aterrado, por ter de ficar em frente daquela gente toda para quem vou ter de falar em inglês. É uma armadilha. Vou ter de falar sobre o livro e sobre mim. Há um preço a pagar por esses momentos de estrela rock. Não há nada de saudável em andar de palco em palco a falar de nós mesmos.

Voltar para a Noruega não é uma possibilidade?
Já quisemos ir. Mas já não queremos. As crianças nunca se poderiam libertar dos meus livros. A Noruega é um país pequeno. Toda a gente se conhece.

É verdade que o seu nome chegou a ser mencionado no contexto do Nobel da Literatura?
Sim, mas não considero que isso seja possível. Não pertenço a essa primeira liga. Acho que estou noutro nível. Depois, há muitos nomes que são constantemente falados e nunca são escolhidos. Murakami, por exemplo.

É um conservador?
Não sou nada político. Sou um escritor e escrevo sobre aquilo de que sinto nostalgia. Sou muito liberal, no sentido em que acho que toda a gente deve fazer o que entende, e detesto interferir na vida dos outros. Mas depois sou ultraconservador, porque adoraria viver num mundo sem carros, sem aviões. O princípio do Estado social, com saúde e educação gratuitas para todos, é uma brilhante ideia que funciona muito bem. Não é pelo meu livro se chamar “Mein Kampf” que sou de direita.

E gosta de Knut Hamsun, que é um escritor norueguês nazi...
Sim, adoro-o. De facto, era um nazi. Hamsun ofereceu o seu Prémio Nobel a Goebbels.... e escreveu o obituário de Hitler dizendo que “enterramos um grande homem”...

E o que pensa disso?
Não quero saber, desde que sinta que a sua literatura é o oposto da ideologia nazi, que é o que eu acho. Ele não matou ninguém. Teve opiniões erradas, mas essa não é razão para não ler os livros dele. Há um grande valor em ter um autor como ele na Noruega. Do lado dos nazis não estavam apenas os maus, estava toda a gente. Pode acontecer outra vez, e de certo modo está a acontecer agora, embora numa escala diferente, com o chamado Estado Islâmico, ou como aconteceu na Sérvia, no Ruanda... Aquelas pessoas não são o mal nem são diferentes de nós. São pessoas.

Texto originalmente publicado na edição de 6 de maio 2015 da Revista E do EXPRESSO