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A verdadeira história do ursinho Pooh

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O regimento de Harry Colebourne considerava Winnie uma amiga, como mostram as ilustrações de Sohpie Blackall para o livro que hoje sugerimos

Foto D.R

Como o encontro casual entre um militar e uma cria de urso gerou uma das personagens preferidas das crianças

E se lhe disséssemos que o famoso ursinho Winnie-the-Pooh (ou Puff, nalgumas traduções) era, afinal, uma ursa? Descanse, que não se trata de uma versão reescrita em tempos de inflamados debates sobre identidade de género. Na verdade, o animal que inspirou o inglês A.A. Milne a contar as aventuras do urso de pelúcia que a Disney viria a elevar ao estatuto de celebridade mundial era uma fêmea. Um livro recente revela a sua história. Chama-se, precisamente, Finding Winnie – The story of the real bear who inspired Winnie-the-Pooh (Descobrir Winnie – a história da ursa verdadeira que inspirou Winnie-the-Pooh).

A autora do texto, a canadiana Lindsay Mattick, cresceu a considerar Pooh uma espécie de “bisavô-urso”, como conta ao jornal “The Daily Telegraph”. O seu filho, Cole, de 3 anos, acha mesmo que é aparentado com o urso. Na verdade, Cole é trineto de Harry Colebourne, veterinário que tratava de cavalos durante a I Guerra Mundial e que partiu de Winnipeg para o Quebeque, de comboio, no dia 24 de agosto de 1914. O destino final era a Frente Ocidental do conflito global.

Numa pausa na viagem, em White River, Ontário, o veterinário viu um homem com uma ursinha bebé presa por uma trela. Achou tanta graça ao animal que o comprou, imediatamente, por 20 dólares canadianos (equivalente a cerca de 244 euros atuais, tendo em conta a inflação). Foi em honra da sua terra natal que lhe chamou Winnie, tendo registado a aquisição no seu diário: “Saí de Port Arthur às 7 a.m. No comboio, comprei urso por $20”.

A ursa passou meses com os militares em Inglaterra e só foi deixada no zoo quando estes se deslocaram para combater em França

A ursa passou meses com os militares em Inglaterra e só foi deixada no zoo quando estes se deslocaram para combater em França

Foto D.R.

A simpatia do bicho facilitou a sua aceitação pelos superiores hierárquicos de Colebourne, que o deixaram, inclusive, levá-la para Inglaterra. Lindsay conta que, se Winnie tinha poucas semelhanças com o protagonista retratado nas ilustrações de E.H. Shepard para os livros de Milne, sendo também mais inteligente do que o desmiolado Pooh, eram mais parecidos na avidez e na gulodice. A Winnie real não tinha à disposição tanto mel como o seu homólogo ficcional, mas era doida por leite condensado. Agarrava latas com as duas paras dianteiras e esvaziava-as num ápice, entre outros truques que deleitavam a tropa.

Casa temporária torna-se permanente

A entrada em combate do regimento de Colebourne, na frente francesa, obrigou-o a entregar Winnie ao jardim zoológico de Londres. Planeara que a estada fosse temporária mas, após o armistício de 11 de novembro de 1918, o animal estava tão feliz no zoo, em Regent’s Park, que acabou por deixá-lo lá, para gáudio das crianças que visitavam o parque (à época, o contacto entre os miúdos e os animais do zoo era bem mais próximo do que hoje se autoriza). Colebourne visitava-a amiúde e contava a sua história a quantos queriam ouvi-la, mostrando fotografias aos filhos, netos e bisnetos – como Lindsay, que agora deu à estampa esta história enternecedora.

A Winnie da vida real gostava tanto de doces como o divertido Pooh

A Winnie da vida real gostava tanto de doces como o divertido Pooh

Foto D.R

A ursa viveu na capital britânica o resto da vida, tendo morrido em 1934. Há estátuas de Harry e Winnie nos zoos de Londres e Winnipeg. A sua caveira foi preservada no Real Colégio de Cirurgiões e esteve, recentemente, em exibição no museu Hunterian de Londres, dedicado à anatomia. “The Daily Telegraph” diz que Winnie tinha os dentes bastante estragados. Tendo em conta as respetivas dietas, é de esperar que Pooh não os tivesse em muito melhor estado.

Sem a decisão de deixar Winnie no zoo, aliás, não teria havido Pooh. A ursa já vivia em Regent’s Park há dez anos quando um rapazinho de 4 anos – filho de outro veterano da Grande Guerra – visitou o jardim e ficou encantado com aquele animal, ao ponto de rebatizar o seu próprio urso de pelúcia com o nome Winnie, acrescentando-lhe “the Pooh” para homenagear um cisne de que também gostara. O pai era A.A. Milne e o filho, Christopher Robin. Este último viria a ser mais uma personagem dos livros de Pooh, em que os animais que povoam o Bosque dos Cem Acres são nada mais nada menos do que os seus brinquedos: o porquinho Piglet, o burro Igor (ou Bisonho, em versões mais antigas), o Tigre, o Coelho, o Mocho e a mãe Canga e o filho Ru.

A obra da bisneta de Colebourne vem somar-se às estátuas, livros e filmes que perpetuam a história da ursa, para a qual contribuíram A.A. Milne e a Disney

A obra da bisneta de Colebourne vem somar-se às estátuas, livros e filmes que perpetuam a história da ursa, para a qual contribuíram A.A. Milne e a Disney

Foto D.R.

Do êxito destas fábulas pouco há a dizer. Os 70 milhões de exemplares vendidos em 86 países dizem tudo, e isto é só em papel, sem contar com a adaptação ao cinema. Para Lindsay Mattick – cuja família só soube da ligação entre a sua Winnie e o Pooh de Milne após a morte do bisavô Harry Colebourne –, tudo é mais pessoal. De onde o impulso de publicar o livro que hoje aconselhamos.

Não sendo o primeiro sobre o assunto (há pelo menos mais dois, da autoria de Sally Walker e M.A. Appleby e um documentário televisivo), é o que tem o tom mais íntimo, enriquecido por fotos de época. A leitura pode ser complementada visitando o arquivo da família Coleburne.

Foto D.R

Finding Winnie – The story of the real bear who inspired Winnie-the-Pooh
Autoras: Lindsay Mattick (texto) e Sophie Blackall (ilustrações)
Editora: Little, Brown
Páginas: 64
Preço: £10,21 (13,58€)

Texto originalmente publicado na edição de 28 de dezembro do Expresso Diário