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(#3) Das maiores vulgaridades aos maiores sentimentos: Courtney Barnett

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Cada canção de“Sometimes I Sit And Think, And Sometimes I Just Sit” é “uma pequena fotografia de um momento no tempo” onde cabe tudo, desde as maiores vulgaridades aos maiores sentimentos. Tudo importa, tudo tem valor, não há nada à sombra, tudo é vida. Continuamos nesta semana de ano novo o que iniciámos na de Natal: escrevemos sobre 10 discos que fizeram deste ano um acontecimento melhor - é uma espécie de ranking, mas é sobretudo uma espécie de homenagem a quem nos dá canções

Helena Bento

Jornalista

Courtney Barnett disse numa entrevista recente que achava que a "bigger picture" às vezes estava nos pequenos detalhes e isso assenta que nem uma luva nas letras das suas canções, que descrevem situações banais, quotidianas, pequenos acontecimentos, praticamente insignificantes, como comprar vegetais, procurar casa nos subúrbios de Melbourne, ficar acordado até às três da manhã a olhar para o teto ou ficar acordado até às quatro da manhã a olhar para as paredes de casa e a contar as fendas; reparar numa pintura ao estilo de Jackson Pollock feita sobre o alcatrão da estrada ou ficar parado, a olhar para a relva do jardim, numa manhã de quarta-feira, a pensar que ela já deveria ter sido cortada.

Cada canção em "Sometimes I Sit And Think, And Sometimes I Just Sit", e também nos discos anteriores de Courtney Barnett (dois EP, reunidos depois num duplo EP, "A Sea of Split Peas") é "uma pequena fotografia de um momento no tempo" (como ela própria disse numa entrevista ao "Guardian") onde cabe tudo, desde as maiores vulgaridades aos maiores sentimentos. Tudo importa, tudo tem valor, não há nada à sombra, tudo é vida.

Em "Dead Fox", por exemplo, começa-se por falar em vegetais orgânicos (que uma tal de Jen insiste em comprar), pesticidas, maçãs, cangurus empalhados, a tal pintura ao estilo de Jackson Pollock e a dada altura, no meio dos pesticidas e do supermercado e das maçãs e dos cangurus empalhados e da tal Jen que insiste em comprar vegetais orgânicos surge o verso: "Sometimes I think a single sneeze could be the end of us". Uma simples frase que introduzida assim, no meio daquela salgalhada toda, tem um efeito desarmante. Não tenhamos dúvidas: Courtney Barnett é uma grande contadora de histórias. E é também uma das maiores revelações do indie-rock dos últimos anos.

  • (#10) Canções para eliminar resíduos: Mount Eerie, “Sauna”

    Phil Elverum decidiu mudar de vida depois de quatro meses na Noruega a viver sozinho numa cabana. Foi o melhor que nos aconteceu, a nós que lhe apreciamos as canções - e ele deu-nos novas este ano. Nesta semana de Natal e depois na de ano novo, escrevemos sobre 10 álbuns que fizeram de 2015 um acontecimento melhor - é uma espécie de ranking, mas é sobretudo uma espécie de homenagem a quem nos dá discos

  • (#9) Houve qualquer coisa neste disco: Beach House, “Thank Your Lucky Stars”

    Apanharam-nos desprevenidos: dois meses depois de terem lançado um disco deram-nos outro. Foram gravados ao mesmo momento mas escritos em alturas diferentes. Houve quem dissesse que o primeiro é a cabeça, a razão, a técnica, e que o segundo - que é este de que falamos - é o coração. Nesta semana de Natal e depois na de ano novo, escrevemos sobre 10 álbuns que fizeram de 2015 um acontecimento melhor - é uma espécie de ranking, mas é sobretudo uma espécie de homenagem a quem nos dá discos

  • (#8) Um disco assumidamente negro, mas não do género Radiohead: Kurt Vile, “B’lieve I'm Going Down”

    Kurt Vile é um tipo com boa pinta, de cabelos longos e solidão no corpo. É um fenómeno deste tempo e deste ano - tem daqueles álbuns que quase toda a gente celebrou em 2015. Nesta semana de Natal e depois na de ano novo, escrevemos sobre 10 discos que fizeram deste ano um acontecimento melhor - é uma espécie de ranking, mas é sobretudo uma espécie de homenagem a quem nos dá canções

  • (#7) Maravilhosamente diretas e descaradas como sempre: Pega Monstro, “Alfarroba”

    Rock cru e sujo, letras tão diretas quanto descaradas, uma energia que toma conta do corpo. “Alfarroba”, o segundo álbum das portuguesas Pega Monstro, é bom até ao tutano. Nesta semana de Natal e depois na de ano novo, escrevemos sobre 10 discos que fizeram deste ano um acontecimento melhor - é uma espécie de ranking, mas é sobretudo uma espécie de homenagem a quem nos dá canções

  • (#6) Ela está preocupada com coisas novas: Lower Dens, “Escape From Evil”

    “Escape From Evil” é o terceiro álbum dos norte-americanos Lower Dens e marca uma viragem na sonoridade da banda liderada por Jana Hunter. As guitarras deram lugar aos sintetizadores, o capitalismo e o progresso e as questões ambientais deram lugar ao amor, à amizade, à desilusão, ao desespero e à morte. Nesta semana de Natal e depois na de ano novo, escrevemos sobre 10 discos que fizeram deste ano um acontecimento melhor - é uma espécie de ranking, mas é sobretudo uma espécie de homenagem a quem nos dá canções

  • (#5) “Se tivermos sorte, vamos envelhecer e morrer”: Viet Cong

    Rock, punk, pós-punk. Eles têm um pouco de tudo isso. E têm ainda a desilusão, a impaciência e o desespero de quem perdeu recentemente alguém muito próximo e não vê senão a morte em tudo. Lançaram este ano o primeiro álbum, “Viet Cong”, depois do EP “Cassette”. “Se tivermos sorte, vamos envelhecer e morrer”, ouvimos em “Pointless Experience”. Continuamos nesta semana de ano novo o que iniciámos na de Natal: escrevemos sobre 10 discos que fizeram deste ano um acontecimento melhor - é uma espécie de ranking, mas é sobretudo uma espécie de homenagem a quem nos dá canções

  • (#4) Respiramos tão bem no meio disto tudo: Julia Holter, “Have You in My Wilderness”

    “Have You in My Wilderness” é o álbum mais pop de Julia Holter, mas está longe de ser uma aventura. Mantêm-se os arranjos clássicos - resultado da sua formação -, a profusão de detalhes e de vozes e de instrumentos, e o ambiente solene, que nunca chega verdadeiramente a impor-se. Respiramos tão bem no meio disto tudo. Continuamos nesta semana de ano novo o que iniciámos na de Natal: escrevemos sobre 10 discos que fizeram deste ano um acontecimento melhor - é uma espécie de ranking, mas é sobretudo uma espécie de homenagem a quem nos dá canções