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“A guerra já cá está. Está no meio de nós”

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António Pedro Ferreira

“Pai Nosso” é o romance de estreia de Clara Ferreira Alves. Acerta em cheio no tema e no momento. Levou tempo a fazer, não é jornalismo, é outra “carpintaria”. E é sobre Portugal, o Ocidente, o Médio Oriente, Deus, a guerra e o terrorismo

Cristina Margato

Cristina Margato

Texto

Jornalista

Ricardo Costa

Ricardo Costa

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Diretor de Informação da SIC

António Pedro Ferreira

António Pedro Ferreira

Fotografias

Fotojornalista

Dia 12, quinta-feira, 15h30. Atrás de Clara Ferreira Alves uma janela em formato de tela na qual cabe o recorte de Lisboa. Não é a cidade dos postais turísticos. Mas a das fachadas serpenteadas pelas escadas de incêndio, que só os mais íntimos da cidade conhecem. Em frente, a escritora, um livro. O romance. Na capa, a estilização de outro recorte de horizonte. De outra cidade. Jerusalém, com a sua cruz, as suas abóbadas, os minaretes. Sinais das três religiões. A conversa espraia-se a partir de “Pai Nosso” (Clube do Autor, 2015), o romance onde estas duas cidades se intercetam; com a autora a fugir dela própria, como sempre faz, convocando o mundo, a história, a guerra, o terrorismo. A barbárie. Mas mesmo que só falássemos dela, o mundo de que ela fala não iria parar. A máquina tritura, enrola. O desconhecimento ou a ignorância, como o de Beatriz, a primeira personagem do romance de Clara Ferreira Alves, e aquela que também o encerra, já não nos salva de nada. Vinte e quatro horas depois desta conversa, a tragédia repete-se. Depois do Líbano pela manhã, Paris sangra. Entramos pela noite. Olhando o horror, como Beatriz, incrédulos. A guerra veio para dentro da nossa guerra.

Em que momento da sua vida é que começa este romance?
É difícil dizer quando foi. Mas este romance não começou há muito tempo. Existem três começos: o primeiro tem a ver com Jerusalém e com o facto de achar que tinha de escrever sobre aquela cidade e sobre religião, embora tenha desistido de o fazer há muitos anos. Depois, não sabia onde estava o ponto de contacto entre Jerusalém, Portugal e as minhas opções em Portugal. Fiz tentativas claro, mas não me agradaram. Depois achei que tinha um modo de chegar lá que já não era a Palestina nem a causa palestiniana, nem a interessantíssima história de Israel mas os problemas da identidade. Mas esse caminho também não me levou a lado nenhum. Ficou tudo em banho-maria. E depois aconteceu o 11 de Setembro. Foi um acontecimento determinante para mim. Não para a minha vida, porque de facto não a mudou, mas porque achei que tinha alterado a história da Humanidade. Naquele momento tive a clara sensação de que o mundo tinha mudado, que estávamos a assistir a algo tão importante como a Revolução Russa ou a Revolução Francesa, não por ser revolucionário, mas porque o que acontecera tinha mudado definitivamente aquilo que os americanos chamam o nosso modo de vida. Não tive a percepção do que iria acontecer a seguir, mas sabia que algo de extraordinário tinha acontecido.

À medida que se lê o livro fica-se com a sensação de que só podia ser sobre o Médio Oriente... Não podia ser sobre Moçambique ou sobre a Nicarágua.
Tem mais a ver com aquela ideia do poema do Ruy Belo: “No meu país não acontece nada...” Consegue escrever-se um livro que tenha a ver com Goa, Moçambique, Angola ou Brasil. O que eu não conseguia perceber era como intercetaria o Oriente em Portugal. Como faria com que qualquer coisa que fosse portuguesa tivesse a ver com aquilo.

Porquê?
A personagem central tinha de ser portuguesa. Não me podia colocar num ponto de vista estrangeiro. Entretanto tudo evoluiu. Os ataques terroristas inseriram a Europa na crise do Médio Oriente, o que hoje é muito visível. Mas começou muito antes da crise dos refugiados, quando se deram os grandes ataques terroristas na Europa. Londres, Madrid... Pensei: “a guerra veio para dentro da nossa guerra”. Já não vamos lá visitar aquela guerra. Comecei a fazer anotações. Tenho dezenas de cadernos de todos os tamanhos escritos à mão. Passei por dezenas hotéis. Fiz muita pesquisa. Li muitos livros. Fui a muitos sítios pagando do meu bolso. Fiquei arruinada com este livro. Pensei que se vendesse tudo para os jornais ficava esvaziada. Os jornais acabam por nos sugar tudo.

Este livro pode ter começado em 1991, quando chega a Jerusalém para fazer reportagem para o Expresso?
Até antes. Lembro-me de estar a almoçar com o Vicente Jorge Silva, no dia 2 de agosto. É o dia em que Saddam invade o Kuwait. O dia do meu aniversário. Estávamos a almoçar. O Vicente já estava no “Público”. Foi um almoço normal, de amigos. Conversámos sobre a invasão e lembro-me de lhe ter dito: “Tenho uma sensação estranha. Não é por fazer anos, mas acho que isto vai ser importante para a minha vida”. Foi uma frase estúpida. Não sou dada a superstições. Mas pensei: “Este mundo é interessante. Gostava de me interessar por ele”. Tinha vindo do Peru, para onde tinha ido atrás do Vargas Llosa... Tinha ficado fechada três dias dentro de uma igreja com medo de que me viessem cortar as mãos. E eu nem gostava muito daquilo, não era como o Médio Oriente em que arrisco a pele e até gosto. Era muito jovem e não tinha muito sentido do perigo.

Na primeira reportagem de Jerusalém nota-se que tem receio... Os scuds...
Era terrível, de facto. Porque na altura o meu contacto no Expresso era o [José António] Lima e o [José António] Saraiva. Disseram-me que não podiam fazer um seguro, porque Israel ia ser atacado por gases. Ir era um perfeito disparate e não houve nenhum fotógrafo que quisesse partir. Consegui ir no último avião...

O último avião para Israel que aparece no livro...
É um avião que parte de Genebra fretado por um grupo de velhos judeus sobreviventes do Holocausto. Não faço a menor ideia de como é que entrei naquele avião, e não sei como me deixaram entrar sendo israelitas e tendo todas aquelas normas de segurança. Aquela gente estava alquebrada. Achava que ia morrer, que ia ser gaseada. Esse é um daqueles momentos históricos que me fizeram pensar que um dia tinha de escrever sobre ele. Não o fiz no jornal. Achei-o demasiado grave e sério. É difícil integrar aquele avião na narrativa jornalística. O ambiente era trágico. De facto, aquela gente tinha estado nos campos de concentração. Ninguém disse uma palavra. Entrei em Israel, pela primeira vez, com aquela gente, naquele avião. Foi uma sensação de solidão absoluta. Não havia ninguém para salvar aquela gente. Depois fico com a sensação de que o país nos protege. Aliás, pus isso no livro. Aquela gente que tinha sido trucidada pela história, mas ainda assim estava disposta a combater. Eles não se iam deixar matar. Ouvia-se: “Se os scuds tiverem gases nós bombardeamos o Iraque. Podemos morrer. Mas vamos bombardear o Iraque”. Felizmente os scuds não tinham gás, senão tinha sido a terceira guerra mundial.

Segue até hoje essa guerra...
Tudo aquilo que aconteceu ali naquela altura, que é a destruição do Iraque, o princípio da destruição está hoje aqui. É o Daesh. É isto tudo. Não acabou. Ainda agora nas memórias de Bush pai, ele critica duramente, o que é de uma grande coragem, [Donald] Rumsfeld, e o próprio filho. De facto, começou ali uma grande guerra. Agora já não tenho problema de saber como é que a guerra vem cá ter. A guerra já cá está. Está no meio de nós.

Porque quer tanto apanhar esse avião? Estar no Médio Oriente?
Não faço ideia. Tive sempre a intuição de que tinha de ir para certos sítios.

Fazer parte da história?
Talvez seja isso.

É isso que a leva ao jornalismo?
Sem dúvida. A história. A grande narrativa. Para mim, as grandes narrativas são as histórias das pessoas. Não são os exércitos de Napoleão. É o soldado de Napoleão.

Há em si o efeito Jerusalém? A síndroma de Jerusalém?
Há sobre toda a gente, se não se for e voltar depressa. Se se ficar lá. A síndroma de Jerusalém está no Eça de Queirós, na “Relíquia”. Jerusalém é uma cidade fortíssima. Não se sai de lá intacto. As pessoas carregam memórias com centenas de anos, de massacres, perseguições de ambos os lados. Falo também do genocídio arménio, do turco... Tudo aquilo ali são três palmos de terra, o Alentejo. E todos amam desesperadamente aquilo. Eles amam intensamente um vaso com uma oliveira, e só saem quando são obrigados a sair. Disso nós não sabemos nada. Os ingleses tiveram uma melancolia e um trauma pós-imperial e ainda falam disso. Está na escrita inglesa. O modo como nós em Portugal perdemos o império e lidamos com isso é muito curioso e é um pouco incompreensível para mim. Como é que não há grandes romances sobre a guerra de África? Não somos tão diferentes do mundo dos desapossados, das pessoas que perderam terra, território, casa, país, pátria, identidade. Nós temos essas pessoas.

No seu livro nota-se um grande desajustamento da primeira à última página...
O Pessoa é o maior desajustado, eu participo disso. Eu sinto-me sempre desajustada.

Porquê?
Não sei. Não fazendo muita psicanálise, porque não acredito muito na psicanálise, nem sempre me sinto bem aqui.

Mas também não se sente bem lá.
Sim, e também sei que lá não é aqui. Lá não é o meu lugar. Às vezes acho que tenho uma certa intolerância para com as falhas, mas depois também tenho excesso de tolerância. O que mais me enerva em Portugal é a falta de memória. É pensarmos sempre que o mundo começou ontem, e que as coisas não têm uma linhagem, uma causa e uma consequência e que os nexos de causalidade não são importantes. A perda da nossa memória histórica, que não tem nada a ver com nostalgias salazaristas. Isso incomoda-me verdadeiramente. Mas depois também é bom porque incorporamos as pessoas. Não se pode perder um império e achar que uma pessoa que vem de África para Portugal é igual a uma pessoa que nunca saiu daqui. Não pode ser. Não ligamos à nossa história e isso tem a ver com o jornalismo. O jornalismo tem de rasurar a história. O jornalismo é neste momento a maior e mais importante expressão narrativa em Portugal. Ultrapassou largamente a literatura.

António Pedro Ferreira

Em Portugal ou em todo o lado?
Não sei. A narrativa filosófica em França continua a ser importante porque eles estão sempre a pensar sobre a identidade francesa. Isso aliás vê-se no Houellebecq. A narrativa histórica é importante em Inglaterra. Em Espanha isso também está presente. Em Portugal a narrativa histórica não é muito importante. Era importante para o Cardoso Pires, para a Agustina. Hoje, já não é. A narrativa jornalística domina tudo, e não há dúvidas de que a narrativa jornalística é muito importante, porque é o primeiro relato sobre os acontecimentos. Não é só a escrita, é também a palavra, a televisão.

Tem acesso a essas narrativas. Escreve crónicas, reportagem, participa num programa de televisão semanalmente. Porque quis escrever o livro?
Fico sempre muito frustrada. Em televisão nunca é possível enquadrar nada. Cada vez que começo a enquadrar... mandam-me calar ou alguém me interrompe, quando começo a ir para trás mais do que cinco minutos. Isso só se pode fazer em livro... num ensaio.

Este também podia ser um livro de ensaio e não é...
Para o ensaio temos de ter factos e a grande liberdade do romance é que podemos inventar. Eu estava um pouco cansada da verdade.

Mas é um romance cheio de verdades...
Mas muitas são verdades que inventei na altura para aplicar aquela situação. Na verdade aquelas personagens não existem. O que faz toda a diferença.

Há uma personagem e as restantes só existem na relação com essa personagem...
Gosto de pensar que o livro tem uma grelha de personagens que se cruzam.

Mas que nunca se aprofundam tanto como uma única personagem.
Porque eu escolhi a narrativa na primeira pessoa. A terceira pessoa seria para mim mais simples. A carpintaria é mesmo o que dá trabalho. As pessoas acham que não. As pessoas acham que são as ideias. Tinha milhões de notas e milhões de ideias. Mas a carpintaria é diabólica. A técnica. O verbo. A gramática. O sujeito. O predicado. Os transitivos e os intransitivos. É mesmo a gramática. E a língua portuguesa é terrível. A carpintaria foi o que me deu trabalho. Como usei a primeira pessoa, e não podia ter a primeira pessoa a ser a única observadora daqueles factos. Mas o centro daquela teia é a fotógrafa.

Há outra personagem que entra e sai, a Beatriz...
É como em “The Great Gatsby”. Há uma personagem que está de fora a observar a tragédia, mas que não a entende. Para mim a personagem-âncora é o Tariq, e que é tão importante como a fotógrafa. Estou a tentar entrar na cabeça de um terrorista. Isso foi algo que demorou muito tempo. Falei com alguns. O que é que leva uma pessoa a fazer aquilo? Ainda hoje é para mim uma obsessão. O que leva uma pessoa a ir do subúrbio de Sintra para a Síria para cortar cabeças em Raqqa? Como é que isto acontece? Porque na Palestina há um desapossamento, há um sofrimento muito grande...

E nunca lhe passou pela cabeça que a psicanálise respondesse melhor a essa pergunta do que a política?
Não. Não acredito na psicanálise. A explicação está na barbárie que existe em todos nós. Na história do professor ou do psiquiatra que moram no mesmo prédio e no dia seguinte são snipers no alto da colina de lados opostos.

É a Jugoslávia...
E seria Portugal se isto alguma vez se desagregasse. A perda para uma pessoa é uma coisa muito complexa. Uma coisa é nós dizermos como jornalistas: ‘bom, este perdeu a família toda’. Mas, na verdade, até sermos nós próprios as vítimas dessa perda não temos a mínima ideia do que é que isso significa.

Quando é que entende essa perda? Através de Daniel Pearl?
A morte do Pearl [jornalista americano degolado no Paquistão] é outro momento histórico. Tinha havido algumas coisas, no Peru, onde estive, e em El Salvador, onde eu nunca estive, mas, na verdade, aquilo nunca tinha sido feito a nenhum jornalista. Para mim foi um momento de puro terror animal. Senti-me como um animal cheio de medo. Como um bicho que está à espera que o venham matar. Conheço bastantes jornalistas, até muito tarimbados, que quando viram o vídeo ficaram em estado de choque. Eu vi. Aquelas imagens nunca mais me saíram da cabeça porque me pareceu que o Daniel Pearl ficou tão surpreendido como nós. Acho que ainda hoje é o vídeo mais hardcore. Apesar de tudo estes vídeos do Daesh estão editados. Havia ali um ódio bizarro.

É portuguesa, jornalista portuguesa, e escreve um livro sobre o Médio Oriente que conhece muito bem, mas não tem receio de que isto seja distante para os portugueses?
Não, porque tem uma parte muito portuguesa, personagens portuguesas e passa-se uma grande parte em Portugal; e até acho que as pessoas reagem muito ao Médio Oriente, a Israel.

O seu romance estava prometido há tanto tempo que se tornou um mito urbano, lisboeta, nacional...
Mas não era este, atenção. Este livro foi-me literalmente arrancado das mãos. Por mim, ficava a embelezá-lo mais dez anos. Ficaram muitas coisas de fora. O romance que eu achava na altura que devia escrever não tinha nada a ver com isto.
Tinha a ver com quê?
Para dizer a verdade, nem sei bem. Era uma coisa solipsista.

Mas este também é solipsista.
Sim, mas não no mesmo sentido. Eu não sou a Maria. A Maria é uma personagem que tive dificuldade em controlar, que é uma coisa de que os escritores às vezes se queixam muito.

O olhar dela não é o seu?
O meu olhar, por exemplo, nunca foi frio. Jamais conseguiria ir a Gaza e ter aquela atitude. O mundo dos fotojornalistas é muito interessante, e há jornalistas portugueses muito bons, como aquele que perdeu as pernas no Afeganistão [João Silva]. Fui amiga de alguns jornalistas de guerra, e é um mundo de uma grande dureza, que não tem nada a ver com o jornalismo que se faz nas redações. Sentem-se injustiçados, porque os editores não os tratam bem, e porque eles iam perdendo a vida para saírem dois parágrafos. Arriscaram a vida e ninguém lhes deu valor.

Quando regressam da guerra ficam desajustados da vida normal.
Sim, não consigo lidar com o supermercado, a lavandaria, o ir ao banco. Não consigo. Não sou capaz de ir a um centro comercial como o Colombo, por exemplo.

Como aquele tipo no filme “Estado de Guerra”, que desmancha as bombas, e depois no corredor para comprar cereais para o filho não consegue escolher entre 400 caixas...
A abundância é uma loucura para quem nasceu num país pobre como eu, onde não havia nada. Fico ansiosa três dias antes de renovar o Bilhete de Identidade. A ideia de ir ao banco... A ideia da burocracia. O grande luxo para mim seria ter quem me tratasse dessas coisas. Mas se me disserem que amanhã tenho de me meter no avião e ir para o cu de Judas não tenho nenhuma ansiedade.

Que romance solipsista era esse que queria fazer?
Não sei. Era algo muito dark, muito terminal, tinha a ver com morte. O que a morte faz às pessoas. Era muito mais nova, e também não sabia muito bem o que isso era. Portanto, também não sabia escrever sobre isso. Tinha a ver com morte e amor. Não consegui dar àquilo um enquadramento histórico.

Mas porque haveria de ser histórico?
Porque se não for histórico não consigo, como dizem os ingleses, fazer um romance que se passe num apartamento de duas assoalhadas em Hampstead ou em Campo de Ourique com duas pessoas a falarem uma com a outra. Adoro o Pinter, ele mete as pessoas a falar durante duas horas e faz sentido.

O que lhe falta?
Falta-me tudo. Preciso que aconteçam coisas.

Que entre o mundo que está lá fora?
Mas isso é uma das razões por que gosto do jornalismo. Porque estão sempre a acontecer coisas. Ainda hoje gosto muito da notícia. Das coisas que acontecem. Há sempre uma vaga excitação, que já não tem a ver com a redação porque já não estou na redação.

E porque é que já não está na redação?
Tinha de sair de cena. Aborrecia-me. Quando estava na redação, e recebia um salário, tinha de fazer o que gostava e não gostava.

O jornalismo mudou?
Os últimos anos do século XX foram muito pacíficos. Este século XXI não tem nada a ver com isso. Hoje a reportagem é muito cara e o jornalismo de guerra é feito por freelancers. Na Síria já não há praticamente ninguém.

Ler e criticar num jornal como o Expresso na época em que o fez tinha um enorme peso...
Ah! Com isso lidava eu muito bem. Tinha muito poder, conseguia vender livros, mas nunca fui a lado nenhum, não frequentava nada... Sou um bicho do mato.

Como é que encara a crítica literária hoje? A crítica vai pegar no livro…
A crítica já não é o que era dantes, é diferente.

Já não há ninguém com o poder que a Clara tinha nessa altura...
Não era só eu. O Eduardo Prado Coelho fazia crítica, a Tereza Coelho, o António Mega Ferreira. O Miguel Esteves Cardoso fazia crítica de livros. Hoje... há duas ou três pessoas que eu respeito muito. Uma delas está no Expresso, é o Pedro Mexia. Acho que é uma grande cabeça. De certo modo vejo no Pedro uma pessoa que tinha lugar cativo naquele tempo do Expresso. Seria um de nós, só que é mais novo e perdeu aquele período. Mas quem publica, sujeita-se. Agora eu já me separei do livro, o livro já não me pertence. Agora é das pessoas, é dos leitores.

Há uns tempos fez um texto onde arrasava o “clube do Bolinha” do Francisco José Viegas.
O Viegas é um tipo importante... Não é o clube do Bolinha, é outra coisa: há ali uma admiração mútua, uma espécie de sociedade de admiração mútua. E eu não acredito em sociedades de admiração mútua.

Mas não há nessa “sociedade” bons escritores?
A última coisa que eu vou fazer, tendo acabado de publicar um livro, é pôr-me a dizer quem é bom e mau escritor. Nessa não me apanham.

Hoje o seu poder, que tinha na crítica literária, sente que o tem onde? Nas crónicas ou no “Eixo do Mal”? As pessoas falam-lhe na rua...
Isso é uma coisa que me horroriza. Só digo idiotices, fico como a Amália Rodrigues: “Obrigada, obrigada...”. Fico envergonhadíssima.

Então porque é que continua a fazer?
O jornalismo, só por si, não dá para viver.

Mas o “Eixo do Mal” é um sucesso.
Não funcionou sempre, aquilo já teve várias existências. Há dias em que não me apetece nada fazer aquilo, durante não me aborrece nada. Criámos ali uma dinâmica de respeito mútuo que é importante, porque senão zangávamo-nos. Nós tivemos momentos em que quase nos insultávamos e hoje isso já foi tudo ultrapassado. Mas esse poder não me interessa nada. O único poder que me interessa é o poder sobre aquilo que eu escrevo.

Mostra as suas crónicas a alguém antes de as publicar?
Não, nada.

Porquê?
Eu não mostro nada a ninguém... Não vejo necessidade nenhuma. Também não há ninguém lá para me ouvir.

Mas não se atormenta?
Não, nada. Com o livro sim, enquanto o escrevia. Mas agora está feito.

E quando sai um texto seu e as pessoas começam a comentar...
Eu não leio comentários. Estou como o dr. Soares, quando lhe perguntaram sobre a internet e disse “eu não leio a internet”. Estou igual, não leio. É uma questão de sanidade.

Mas ao mesmo tempo tem de se manter independente.
Mas eu sou independente, fui sempre. A internet é uma selva, é o frustrado, o ressentido, o desesperado, o fanático. Eu abomino o fanatismo.

Mas tem a noção de que alguns textos são virais?
Sim.

O texto que escreveu com o título “Anticomunista, obrigada” foi viral e foi partilhado por muita gente que disse o pior de si quando criticou o Carlos Alexandre no caso Sócrates.
Sim, mas continuo a pensar da mesma maneira. O Estado de direito é o Estado de direito e aquele processo não se faz assim.

Mas eu já lhe encontrei contradições.
Claro, quem é que não tem contradições? O caso Sócrates enche-me de contradições. Por um lado acho que os procedimentos estão todos errados, por outro acho que a personagem é muito complexa.

Usa muito frases definitivas, quase sentenças. Isso facilita a contradição, por vezes.
Isso é estilo. O estilo português é muito brando. Em Inglaterra escreve-se afirmativamente, aqui escreve-se declarativamente. As pessoas escrevem para declarar qualquer coisa que não hostilize muito os outros, mas nunca para afirmarem uma convicção ou uma vontade de consciência.

Porque é um país pequeno...
Porque é pequeno e porque pessoas têm medo de se encontrar. Há muita intriga. As pessoas dizem sempre: “Ah, aquele teu texto é magnífico, mas sabe que XPTO diz horrores de ti...”. Adoram dizer isso. E eu acho isso horrível. Uma das coisas boas do Expresso dos anos 80 é que ninguém fazia isso, não havia intriga ou grupinhos. Não havia admiração mútua, mas ninguém ratava nas costas uns dos outros. Não faziam isso.

Mas escreve com a mesma liberdade hoje.
Sempre.

De onde é que isso vem?
Da instrução primária, o meu liceu já foi muito complicado. Lembro-me que uma vez só fiz metade do ponto. Fiz a redação e deixei toda a gramática por fazer, tive 10. Era boa aluna, mas só fazia metade, achava a gramática um horror. Era muito bem comportada, mas fazia coisas assim. Uma vez levantei-me e saí de uma aula a meio porque achei que a professora estava a dizer patetices. Hoje, envelheci, estou mais suave, tento não ferir as pessoas.

Mas hoje pode dizer-se tudo, mesmo magoando?
Eu não magoo. Nunca digo nada sobre a pessoa em si. Isso é o que a internet tem, muitos ataques ad hominem. Isso é o que chateia. Então os ataques às mulheres... são uma loucura. E eu tenho a certeza absoluta de que sofri dez vezes mais ataques por ser mulher. Um homem que escreva o que eu escrevo é um tipo muito complexo e inteligente, uma mulher é uma víbora. A misoginia neste país é gritante, e talvez seja isso que mais chateia as pessoas, acham que me devia pôr no meu lugar.

Agora, numa semana, transformou-se numa espécie de ícone da direita em Portugal...
Isso é porque a direita não tem ícones. Mas é engraçado, essas pessoas nem repararam que no meu texto sou mas cruel com a direita do que com a esquerda.

Mas isso é o que a direita está habituada a ouvir, que não tem livros em casa, etc.
É uma direita que está sempre aflita com a perda do seu próprio poder, mas que não criou os mecanismos de defesa...

Isso não é completamente verdade, há uma nova direita culta que está presente nos media.
Sim, mas esses são os únicos que ficaram em campo, eu não me tornei o ícone desses. Deixaram a essa gente a missão de os defender.

Mas os que agora a aplaudem por criticar o PS vão ser os que a criticam se disser mal do caso Sócrates.
Mas isso não me preocupa nada. Eu vivo muito pouco dentro da política.

Mas preocupa-a enganar-se?
Sim, já me enganei tantas vezes. Mas isso é humano.

António Pedro Ferreira

Não é uma perfeccionista?
Sou uma perfeccionista nos livros. E nos textos mais complexos.

Às vezes não exagera?
Isso é estilo, aquilo a que chamam exagero é estilo. É hipérbole.

O que é o pior que se pode falar de si?
A injustiça é o pior de tudo. E a crueldade gratuita. Para dizer a verdade, não penso muito em mim. Nunca falo de mim.

Fala da maneira como vê o mundo.
Mas nunca de mim.

E porque nunca fala de si?
Porque não me dou essa importância. Dou importância a fazer as coisas bem feitas, mas se há uma coisa de que não padeço é de narcisismo. A minha posição nunca é uma posição sobre o “eu”, é uma leitura, mas que tem a ver com os outros. Isso é o meu lado católico.

Vai à missa?
Às vezes, vou às vezes lá fora, até a missas protestantes, vou ao Chiado, mais vezes no estrangeiro do que em Portugal.

Essa ida à missa foi constante na sua vida?
Não, tive uns períodos de crise de fé absoluta. Primeiro na adolescência, depois após a revolução. Mais tarde, já na idade da maturidade, a que chamo a idade de Cristo, em que estive numa situação quase a morrer e isso obrigou-me a pensar tudo e, claro, nas grandes questões de Deus. A consciência ocidental já tinha perdido Deus e agora foi obrigada a confrontar-se com Ele, seja o nosso, seja Alá ou Jeová, é o mesmo. E leio muito, o que faço mais é ler. Tenho pouca vida social, vocês vão a muitas coisas...

Depende.
Mas nunca me viram em lado nenhum, saio pouco. Nunca vou a lado nenhum. Além da timidez acho sempre que deixei vinte páginas por ler de qualquer coisa. E fico ansiosa por não ter tempo para ler algumas coisas ou para as ler outra vez. Agora ando obcecada com Dostoievski, quero relê-lo para ver se é igual a quando o li da última vez...

Se a relação é a mesma.
Agora, por exemplo, reli Camus. A verdadeira marca do grande livro e do grande escritor é que o efeito que ele nos causa até pode mudar, mas mantém-se um efeito. Para mim a escrita é a grande arte. Há uma frase inglesa que diz isto: “In all the arts that we excel, the most difficult is writing well”. Escrever bem é como compor. Eu gosto muito de música. Aliás, neste livro comecei por pensar num quarteto, que tem poucos instrumentos e as minhas personagens são como instrumentos. Mas depois tive de ir para uma coisa mais sinfónica, tive de dar o fortissimo final. O livro começa piano e acaba fortissimo, é a construção de uma sinfonia...

Acelera...
Sim, acelera. A escrita é como a música, é uma arte combinatória de abstrações. As palavras só têm de ser combinadas da maneira certa. Que ainda consigamos escrever e combinar palavras de uma forma nova, é um milagre. Todos os textos, de certa forma, já estão escritos. O texto jornalístico é um sprint, o texto de um romance é uma maratona, tem regras completamente distintas. Tive de aprender a fazer a maratona. Eu estou sempre a aprender e gosto muito de me deitar e ter aprendido uma coisa nova.

No seu livro de crónicas, “Estado de Guerra” (2012), há um poema do Álvaro de Campos com essa ideia.
Eu gosto muito do Álvaro de Campos, provavelmente a seguir vou dedicar-me ao Pessoa. Não me vou dedicar ao Pessoa, que já tem muita gente dedicada a ele. Mas a uma ficção com o Pessoa.

Qual é a melhor coisa que se pode dizer de um escritor?
Que perdura. A duração. Isso não se pode dizer no tempo em que ele existe. Durar é extraordinário.

Mas é fácil desaparecer
Então hoje... Também há injustiças. Por exemplo, não sei se o Cardoso Pires vai durar. O Vergílio Ferreira, quem é que hoje o lê? Mas se me tivessem perguntado há uns anos, diria que o Vergílio Ferreira perdurava. O Eça durou, o Camilo já não, coitado do Camilo, foi corrido... A duração é fundamental e o respeito dos pares é importante. De um modo geral, os grandes escritores reconhecem-se.

Texto publicado na edição do Expresso de 21 novembro 2015