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“Acabei de abrir uma garrafa de champanhe para celebrar a vitória da guerra da TAP”

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Acaba de comemorar o recuo da privatização da TAP e o seu novo filme, “Amor Impossível”, chegou esta semana às salas de cinema. Conversa sobre amores impossíveis e batalhas ganhas, com o António Pedro Vasconcelos realizador das causas polémicas que criou a associação Peço a Palavra para promover uma cidadania ativa

CINEMA. António Pedro Vasconcelos, de 76 anos, realizou o primeiro filme em 1973

CINEMA. António Pedro Vasconcelos, de 76 anos, realizou o primeiro filme em 1973

ANA BAIÃO

Esta é a sua décima primeira longa-metragem e um regresso ao tema do amor. Este amor como é?
Partiu de uma coisa livremente inspirada num episódio real que, por coincidência, aconteceu ali perto de Viseu na mesma região onde acabámos por filmar, e que foi A história de paixão,muito intensa e violenta entre dois jovens. Acabou tragicamente, com ela assassinada com um taco de beisebol. Este foi o acontecimento que inspirou guionista com quem trabalho sempre, o Tiago Santos. Tudo o resto é fruto da nossa imaginação.

E como paira no filme a sombra desse episódio?
Há um casal de inspetores da judiciária, um homem e uma mulher, ele casado, ela solteira, que se descobre terem também têm uma relação. Há neles um eco da história dos jovens e foi este paralelo que me interessou a partir da ideia original.

Revelou haver neste guião uma certa inspiração de Romeu e Julieta dos tempos modernos. O paradigma do amor romântico impossível, que continua a inspirar os autores contemporâneo?
Na realidade há e não há. Há uma cena entre a Cristina - a miúda protagonizada pela Victoria Guerra - que está a tirar um curso de literatura romântica e o professor dela - sou eu que faço o papel de professor - onde defende uma tese curiosa.

Qual é?
Uma coisa muito simples. Todas as grandes histórias românticas, Romeu e Julieta, Kathy e Heathcliff, do Monte do Vendavais, ou até mesmo o Werther, de Goethe, são histórias não consumadas e que devem a sua intensidade ao facto de serem contrariadas. É na sua impossibilidade que advém a intensidade da paixão. Ela diz: "Gostava de ver um romance, onde todos esses pares se pudessem amar livremente, sem obstáculos nem nada que contrariasse esse amor. E com a mesma intensidade que têm as histórias que acabam tragicamente." Esta é tese de Cristina e a chave do filme. Foi a partir daqui que o Tiago e eu construímos a história.

E é possível criar histórias igualmente intensas sem a carga e os obstáculos da adversidade?
Essa é a pergunta que o professor, que tem mais 50 anos do que ela, lhe faz.

Qual é a resposta?
Cristina, diz-lhe que sim, que acredita nisso. O amor impossível vem daí. De ela querer provar que é possível viver com aquela intensidade e aquela perenidade, sem as contrariedades e as adversidades a que estavam sujeitos os amores da literatura romântica.

Consegue?
Não. A coisa acaba mal. Precisamente o conflito do filme é um conflito entre o amor idealizado e absoluto, a que ela se entrega, e o choque com a realidade.

A maioria dos amores dos seus filme acaba mal, não é assim?
Nem sempre. O último - “Os Gatos não têm vertigens” - de certa maneira acaba bem. Apesar de a Rosa morrer quando ia ter com o marido. Há ali uma ideia um pouco poética, de um encontro para além da vida terrena... Posso parecer ter um fundo pessimista, mas sou também um ativista impenitente.. Aliás, é por isso que os meus amigos acham que sou um bocado esquizofrénico.

AMORES IMPOSSÍVEIS José Mata e Victoria Guerra em cena

AMORES IMPOSSÍVEIS José Mata e Victoria Guerra em cena

O ativismo é o seu lado mais otimista?
É o lado do eterno guerrilheiro. Sou muito ativo, mas também não tenho muitas ilusões sobre a natureza humana. Ao contrário do que dizia Rousseau, por natureza o Homem não é bom. O nosso papel é corrigir as nossas paixões mais ruins. Ainda agora, acabei de abrir uma garrafa de champanhe para celebrara a vitória da guerra da TAP.

Porque se meteu nesta batalha?
Exatamente pela mesma razão que me meti na batalha contra a privatização da RTP. Considero que Portugal tem uma única arma que nos permite fazer a diferença entre ser um país periférico e pobre, ou um país com uma centralidade que é a sua língua. Graças à língua portuguesa temos uma presença nos cinco continentes: São mais de 250 milhões seres falantes. Mais ainda do que a diplomacia, as duas armas que temos ao serviço, são a TAP e a RTP. Ainda por cima a TAP é uma empresa de prestígio com bons resultados, que nunca poderia ser entregue a mãos estrangeiras. Empenhei-me nisso, contra todas as malfeitorias.

Daí a associação Peço a Palavra, da qual é presidente?
Precisamente. Ainda há 15 dias apresentei no Ministério Público uma queixa crime contra quem comprou e quem vendeu a TAP. O que se tem de fazer é a anulação do processo e tornar o negócio nulo. Quem tem o controlo efetivo da empresa não é um europeu, não é o Humberto Pedrosa. É o David Neeleman, está mais do que provado. O governo acabou por se responsabilizar pela dívida porque eles não conseguiam arranjar crédito na banca sem o aval do Estado. Portanto isso foi uma alteração aos termos do concurso, decidida pela calada da noite por um governo de gestão. A partir do momento em que o Estado se responsabilizou por 766 milhões de euros - tudo o que é acima de 356 milhões exigi uma fiscalização do Tribunal de Contas - tinha de haver uma aprovação da Assembleia da República. Sobretudo pelo Tribunal de Contas. Portanto há aqui um duplo crime de quem vendeu e de quem comprou. Se o governo quiser agarra-se a isto e não há indemnizações. O negócio, pura e simplesmente é revertido.

Qual é a próxima batalha?
Não sei...Provavelmente este acordo transatlântico e o acordo ortográfico. Acho que é perigosíssimo... Mas tudo isso é para ser discutido em assembleia geral da associação. A estreia deste filme coincidiu com o fim - ou pelo menos o primeiro round - deste combate. Portanto agora vou descansar e pensar no próximo filme e na próxima batalha.