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Texto de Natal para si (que na verdade são dez discos que celebram uma tradição)

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Tradição definitivamente criada pelo crescimento do mercado do disco entre os anos 40 e 50, o hábito de lançar canções de Natal cruza gerações e géneros musicais. De Bing Crosby a Frank Sinatra, de Elvis Presley aos Wham!, de James Brown a John Lennon, este é um período que ainda hoje anima músicos e quem os escuta. Através de dez desses discos, recordamos aqui esta história

Com antiga tradição entre espaços de culto e as primeiras salas de concertos, com marcos de referência que passam pelas várias cantatas de Natal de Johann Sebastian Bach ou por obras como “L’Enfance du Christ”, de Berlioz, ou a “Oratória de Natal”, de Saint Saëns, o hábito de celebrar pela música a quadra natalícia ganhou expressão na cultura popular com uma série de canções compostas entre meados do século XIX e a década de 40 do século XX e que o tempo foi depois transformando em standards, tantas foram as versões e interpretações que delas fizeram parte da banda sonora desta etapa do ano.

Entre “Jingle Bells”, composto em 1857, por James Lord Pierpont, em Inglaterra, e “Little Drummer Boy” (na origem chamava-se “Carol of the Drum”), que a norte-americana Katherine Kennicott Davis apresentou em 1941, surgiu um corpo de canções que chegaram a palcos, a primeiros fonogramas e emissões de rádio.

Coube contudo à grande expansão do mercado do disco e, sobretudo, ao aparecimento do formato do LP, no final dos anos 40, a exploração (com vendas consideráveis) destes cânticos e de novas composições como grandes forças de consumo com que a música popular, a cada ano, assinalava a chegada do Natal. E surgiram discos e mais discos, ao ponto de o álbum de canções de Natal que Elvis Presley lançou em 1957 se ter afirmado mesmo como o LP com maior volume de vendas nos EUA em toda a década de 50.

De John Lennon aos Wham!

Ao mesmo tempo que a cultura rock’n’roll afirmava os seus novos heróis, o disco de Natal representava então um espaço de partilha de algo em comum entre estes novos valores do mercado do disco e as vozes que representavam espaços ligados a mais antigas tradições. Apesar de alguns lançamentos de sucesso na alvorada dos anos 70 (entre títulos novos de John Lennon ou dos Slade), o disco de Natal foi perdendo protagonismo, reencontrado pontualmente em 1984, quando a chegada da quadra escutou não apenas “Last Christmas” dos Wham! e “Do They Know It’s Christmas”, do coletivo Band Aid (o primeiro episódio de uma série de eventos que culminaria no Live Aid, meses depois), mas via ainda a iconografia natalícia representada no teledisco que acompanhava “The Power of Love”, dos Frankie Goes to Hollywood.

Durante a segunda metade dos anos 80 e a década de 90 o álbum de Natal conheceu expressão sobretudo junto de grandes figuras do universo mainstream ou ligadas a terrenos para um gosto “adult contemporary” (como lhe chamam nos EUA). Com a aproximação do milénio este universo foi (re)descoberto e reclamado por bandas do universo indie – de Sufjan Stevens e Bright Eyes aos Low e Rufus Wainwright – que, ano após ano, têm acrescentado a este corpo de discos e canções algumas das suas mais interessantes contribuições.

Chegados a mais um Natal, lembremos aqui dez discos que ajudam a contar esta história:

1942. Bing Crosby, “White Christmas”

Composto por Irving Berlin, este que é um dos mais célebres standards de Natal, foi interpretado pela primeira vez por Bing Crosby na rádio em dezembro de 1941 e chegou a disco pouco depois, criando um fenómeno que, segundo o Guiness Book of Records, já ultrapassou os 100 milhões de singles vendidos. O sucesso foi em grande parte projetado pela presença da canção, na voz de Bing Crosby, no filme “Holiday Inn” (1942), de Mark Sandrich. Houve depois versões por nomes como os de Frank Sinatra, Ella Fitzgerald ou Otis Redding. Pode relembrar a música.

1956. Spike Jones, “Spike Jones Presents a Xmas Spectacular”

Líder de uma das mais peculiares orquestras do seu tempo – entre os anos 40 e 50 apresentava-se como Spike Jones and His City Slickers – e conhecido por usar todo um conjunto de sonoridades invulgares (como buzinas, assobios ou outros elementos, sempre pontuados por um grande sentido de humor), Spike Jones lançou um álbum de Natal no qual cruzava leituras dos mais clássicos standards em voga com uma série de canções menos canónicas como, por exemplo, “All I Want For Xmas is my Two Front Teeth” ou a “Merry Christmas Polka”. Veja-o.

1957. Frank Sinatra, “A Jolly Christmas From Frank Sinatra”

Não era a primeira vez que Frank Sinatra gravava canções Natal (algumas tinham já sido reunidas numa compilação de 1948). Mas este disco não só surgia num tempo de maior popularidade do que a que vivera na reta final dos anos 40, como chegava em plena etapa de afirmação de uma nova personalidade e representava um alinhamento novo tematicamente coeso, centrado em canções alusivas à quadra. Gravado com a Orquestra de Gordon Jenkins e com os Ralph Brewer Singers, tornou-se num dos álbuns de referência deste repertório mais clássico.

1957. Elvis Presley, “Elvis’ Christmas Album”

Ao quarto álbum e já com um estatuto firmado como a mais célebre voz da geração que fazia do rock’n’roll uma expressão com grande visibilidade popular de uma emergente cultura jovem, Elvis Presley gravou um conjunto de standards de Natal, entre os quais alguns clássicos já imortalizados pelos grandes crooners. Entre as canções surgia uma versão para “Blue Christmas” (um original de 1948) que se afirmou como um dos episódios mais populares por um álbum que alcançou recordes de vendas, sobretudo nos Estados Unidos. Reveja-o.

1963. Vários artistas, “A Christmas Gift For You From Phil Spector”

Talvez o mais celebrado e importante álbum de Natal nascido em terreno pop/rock (e suas periferias) este disco tem por protagonista o produtor Phil Spector, que submeteu uma série de cânticos populares da quadra a abordagens definidas pela sua marca de identidade maior: o “wall of sound”. As canções são entregues a várias vozes e grupos, entre os quais encontramos nomes como as Ronettes, The Crystals ou Darlene Love (a solo). Brian Wilson (Beach Boys) disse já que este era o seu disco preferido de sempre.

1964. Beach Boys “The Beach Boys’ Christmas Album”

Se os Beatles fizeram anualmente pequenos discos de Natal, sobretudo para servir os elementos do seu clube de fãs, os Beach Boys optaram por lançar em 1964 um álbum inteiro seguindo a tradição que tanto Sinatra como Elvis abraçaram. Lançado entre um disco ao vivo (também de 1964) e “Today!” (de 1965), o álbum de Natal dos Beach Boys apresentava versões de sete standards, mas juntava cinco originais de Brian Wilson (que abriam o alinhamento, ocupando quase todo o Lado A do disco), entre eles “Little Saint Nick”. Pode ver ou rever o grupo e a música.

1968. James Brown “A Soulful Christmas”

Não era a primeira vez que o “padrinho” da música soul editava um disco de canções de Natal. Já o tinha feito em 1966 com “James Brown Sings Christmas Songs”. Em 1968 este era um segundo disco alusivo a este mesmo tema, contudo traduzindo ecos de um tempo em que a luta pelos direitos civis fazia a notícia. O alinhamento, que inclui canções como “Santa Claus Go Straight to The Ghetto” e “Say It Loud – I’m Black and I’m Proud” é em parte revisitado em algumas antologias recentes que recuperam temas dos discos de Natal de James Brown.

1971. John Lennon, “Happy Xmas – War is Over”

Originalmente lançado em 1971, mas com várias reedições .(algumas depois da morte de John Lennon), este single surgiu na sequência de todo um conjunto de ações – entre as quais os célebres “bed in” – através das quais o casal John Lennon / Yoko Ono fazia a sua campanha pacifista, neste caso em concreto aludindo à Guerra do Vietname (que só terminaria em 1975). Sucessor de “Imagine” na discografia de Lennon, esta canção correspondeu a uma ideia de veicular uma mensagem política através de “algo com mel”. Veja o vídeo.

1984. Wham! “Last Christmas”

A canção de Natal a era do teledisco foi esta. Surgiu em finais de 1984, numa altura em que o segundo álbum dos Wham! (de título “Make it Big”) se afirmava como um dos discos de maior sucesso do ano à escala planetária e fazia de George Michael um dos ícones pop do seu tempo. Sugerindo motivos instrumentais alusivos ao Natal, acompanhada por uma trama romântica no teledisco que apresentou a canção, é um dos clássicos de Natal de maior popularidade de sempre fora do grupo de standards mais clássicos da quadra. Vídeo com a música https://www.youtube.com/watch?v=E8gmARGvPlI

2006. Sufjan Stevens “Songs For Christmas”

Sufjan Stevens, um dos mais aclamados cantautores do nosso tempo, tinha por hábito gravar, todos os anos, um EP com canções de Natal que ele mesmo compunha e gravada, oferecendo aos amigos. Em 2006, depois do sucesso do álbum “Illinois” que dele fez um dos heróis indie do novo milénio, editou esta caixa na qual juntava cinco desses discos. Em 2012 lançou em “Silver & Gold” uma segunda coleção de canções, fazendo da sua obra uma das mais atentas a todo este imaginário ente as que estão ativas no presente. Pode relembrar a canção.