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O novo ativismo

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PRÓ-AMAMENTAÇÃO. Nunca, como antes, houve tantas mães a amamentar nos Estados Unidos. De 1971 a 2011, a taxa de aleitação subiu dos 24% para os 79% FOTO ANA BAIÃO

Ana Baião

O tema alimenta acesas discussões e, sobretudo, faz florescer uma nova indústria. Afinal, a amamentação é ou não uma escolha pessoal?

As redes sociais estão cheias de fotografias e de textos sobre o tema. Mães juntam-se em espaços públicos para darem de mamar aos seus filhos e registar o momento para a posteridade através de fotografias que, depois, espalham no Facebook ou no Instagram. Há consultores que ganham a vida a ensinar como se faz e quais os seus benefícios, fora toda a indústria de produtos que cresceu à volta do assunto. A amamentação: um tema fraturante e indutor de acesas discussões e, sobretudo, de grande dor e alguma humilhação à mistura para as progenitoras que não conseguem produzir (por uma razão ou outra) leite — uma leitura às críticas dos leitores deste livro, no site da Amazon, dá nitidamente conta desta rutura (e há quem partilhe a sua história pessoal). O leite materno, ou o 'líquido de ouro', é aguerridamente defendido por um exército de ativistas da aleitação, as 'lactivists', que dão o título a este livro.

A importância da amamentação tem sido um tema discutido publicamente e avidamente, em artigos publicados em jornais e revistas, com uns a sublinhar os benefícios que tal ato traz à saúde e ao desenvolvimento cognitivo da criança e o papel que tem no fortalecimento dos laços entre progenitoras e filhos; e com outros a rebaterem estas justificações com o argumento de que a ciência ainda produziu pouco conhecimento sobre o impacto e as vantagens da aleitação. O facto é que, entre 1971 e 2011, nos Estados Unidos, a taxa de amamentação subiu dos 24% para os 79%, o que denota a importância que cada vez mais mães dão ao ato do aleitamento. Tornou-se um tema consensual, uma espécie de “princípio moral” para todas as mulheres e famílias. Das femininistas aos cristãos conservadores, dos políticos da esquerda ou da direita, dos ambientalistas aos capitalistas, dos cientistas aos criacionistas, que “estão em desacordo em praticamente todas as questões”, menos nesta.

Courtney Jung, a autora do livro, é professora de Ciência Política na Universidade de Toronto. Até aos 39 anos, altura em que ficou grávida do primeiro filho, nunca tinha pensado sobre o tema. À medida que a sua barriga foi crescendo, o número de mães que com ela metiam conversa foi crescendo. “De repente, fui rodeada de mulheres — amigas, colegas, conhecidas — com informação e opiniões que estão ansiosas por partilhar. Quando a minha gravidez se tornou visível, até mulheres que não conhecia estavam disponíveis para partilhar comigo muitas das suas experiências. Comecei a pensar na minha barriga em crescimento como um portal para um universo paralelo. E nesse universo paralelo, a amamentação não era apenas um meio para alimentar o bebé, como eu assumi quando engravidei. Era uma vocação, uma missão, uma expressão dos compromissos mais profundos de uma pessoal, e uma medida do seu valor moral. Não era apenas uma coisa que uma mulher devia fazer; era algo em que ela devia acreditar e até proclamar”, contou Jung no jornal 'Toronto Star', num artigo sobre o tema (publicado no início de dezembro).

Aos cinco meses de gestação, quando frequentava uma festa, foi interpelada por uma mulher que, durante várias horas, recordou todos os argumentos possíveis sobre os benefícios da amamentação. “Estava numa série missão para se certificar que eu amamentaria a minha bebé”, conta. “Aquele sermão deixou-me a pensar. Porque a amamentação carrega um peso moral tão grande e, qual a parte desse peso, que não passam de ideias feitas? Não estaremos nós, mulheres e sociedade, a colocar demasiadas expectativas na aleitação?” A verdade é que Jung pensava que, até aí, “a amamentação era uma escolha pessoal”.

Discriminação?
Quando a sua filha nasceu, Courney Jung não teve qualquer problema em amamentar e fê-lo até a criança completar dois anos. Não teve de debater-se com problemas morais. Mas percebeu que outras mulheres viviam com esse peso. Numa visita ao pediatra, encontrou na sala de espera outra recém-mãe, “com um olhar cansado e pálido”: quando o seu bebé começou a chorar, esta mãe tirou timidamente um biberão e deu-lhe de beber. E começou a falar com Jung, na esperança de conseguir justificar este ato: a criança tinha nascido prematura e ela, mãe, não tinha conseguido produzir leite. “Aquilo a que os profissionais de saúde chamam, delicadamente, de 'lactation failure' [em tradução livre, fracasso na amamentação]”, explica Jung. A determinado ponto, esta mãe começou a chorar e a soluçar, contando que mesmo agora, que a criança mostrava sinais de desidratação, o pediatra insistia para que tentasse amamentar. “Foi a primeira fez que compreendi quanto pode sofrer e desesperar as mulheres que não amamentam”.

Mais tarde, Jung leu um artigo da jornalista Hanna Rosin, na revista 'The Atlantic', em que esta dava conta de como o relacionamento com outras mães que levavam os seus filhos ao mesmo parque mudou radicalmente quando anunciou que estava a pensar deixar de amamentar o seu terceiro filho assim que ele fizesse um mês. “A determinado ponto, comecei a fazer parte do grupo das mães que alimentavam os seus filhos com Chicken McNuggets”, contava. Depois de uma revisão objetiva e competa à literatura científica sobre o tema, Rosin percebeu que, enquanto, alguns estudos “mostravam benefícios menores para a saúde”, outros não encontravam qualquer evidência ou as suas conclusões contradiziam-se. “O artigo chocou muita gente e muitas pessoas partiram para o ataque e tentaram diminuir a autora. Eu achei-o muito interessante”.

A hipótese de escrever um livro sobre o tema começou a tornar-se real para esta cientista política. Mas tornou-se num imperativo quando percebeu que o WIC, um programa federal norte-americano que providencia apoio às mães em dificuldades económicas, faz a distinção entre as mães que amamentam e as que não o fazem: as primeiras recebem ajudas monetárias mais altas do que as segundas.

A verdade é que o lema 'breast is best' percorre não apenas as redes sociais, mas todo o sistema médico, explica Jung. Apesar de a ciência ser inconclusiva quanto às vantagens da aleitação, este ato tornou-se uma bandeira da sociedade e das instituições. Mais importante, tem servido para pressionar moralmente as mulheres que não o conseguem fazer ou as que, simplesmente, escolhem não fazê-lo. E, naturalmente, para alimentar uma indústria cada vez maior à volta da amamentação, “muito rentável”: de consultores especializados em aleitação, a fabricantes de bombas amamentação e outros acessórios, passando a vendedores online de leite materno, até à emergência fenómenos mediáticos como Abi Blake, que se apresenta como “a Nigella Lawson da culinária do leite materno”, utilizando-o como ingrediente em pratos que vende para fora (como a 'Lactation Lasagna') — tudo existe e tudo é permitido no fabuloso mundo da amamentação.

Com “análise e com humor”, como escreve a crítica do 'The New York Times', Courtney Jung descreve o fenómeno dos 'lactivists', explorando o impacto que este movimento tem na sociedade e mostrando a indústria que floresce por trás das acesas discussões.

“Lactivism — How Feminists and Fundamentalists, Hippies and Yuppies, and Physicians and Politicians Made Breastfeeding Big Business and Bad Policy”, de Courtney Jung, Basic Books, 258 páginas, €16,55 (preço na Amazon)

“Lactivism — How Feminists and Fundamentalists, Hippies and Yuppies, and Physicians and Politicians Made Breastfeeding Big Business and Bad Policy”, de Courtney Jung, Basic Books, 258 páginas, €16,55 (preço na Amazon)