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Sabes qual é o teu problema? Para não sofreres, preferes iludir-te

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As relações humanas, as desigualdades sociais, os jogos de poder e a irascibilidade: um grande filme turco, vindo das Montanhas da Anatólia. Nesta semana de Natal escrevemos sobre cinco filmes que fizeram 2015 prosperar - e depois haverá tempo, mas somente na próxima semana, para prosar sobre cinco filmes que vão agitar com o 2016 que há de vir

“Sono de Inverno”

Realizador: Nuri Bilge Ceylan
Com: Haluk Bilginer, Melisa Sözen, Demet Akbag
196 min

Em 2011 tinha havido “A Separação”, um filme iraniano que nos surpreendia pelo modo como conseguia mostrar como em situações limite mesmo o mais insuspeito é capaz de agir de uma forma que vai contra os seus princípios morais, relativamente a alguém numa situação social mais vulnerável. Em 2015 houve “Sono de Inverno” (na verdade o filme é de 2014, mas só estreou entre nós este ano), um magnífico filme turco que nos mostra como os jogos de poder se tornam óbvios e chocantes quando o esmalte estala.

O primeiro filme foi contemplado com o óscar de melhor filme estrangeiro, o segundo com a palma de ouro do Festival de Cannes. Em ambos os casos, a importância da nacionalidade é relativa, pois apesar de remeterem para contextos específicos dos países respetivos, levam-nos a mergulhar em questões de fundo e universais das relações sociais e humanas.

“Sono de Inverno” dura três horas (mas como acontece em todos os grandes filmes, mal se dá pelo tempo a passar), ao longo das quais assistimos ao acentuar das tensões dentro e em redor de uma estalagem das montanhas da Anatólia, que fica isolada com a chegada do inverno. O estabelecimento é gerido por Aydin, um antigo ator, dominado pelo seu ego e pelas fantasias que camuflam o sonho frustrado de grandiosidade. Em torno dele há a sua mulher, muito mais nova, que oscila entre a vontade de se emancipar e a de permanecer numa situação de comodismo privilegiado, a sua irmã, que, tal como ele, goza de uma situação social privilegiada, e os inquilinos das propriedades de família que possuem na localidade próxima, alguns dos quais dominados por uma atitude de servilidade, outros por um violento ressentimento, que parece estar prestes a fazê-los entrar em confronto e rutura.