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Don Juan das Bibliotecas no cargo que já foi de Borges

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António Pedro Ferreira

Mítico cargo argentino que pertenceu a Jorge Luís Borges pertence agora a Alberto Manguel, aquele a quem George Steiner chamou o “Don Juan das Bibliotecas”

O escritor Alberto Manguel é o novo diretor da Biblioteca Nacional de Argentina (BNA). A novidade foi anunciada na passada sexta-feira pelo recém-empossado Governo de Mauricio Macri, acrescentando que o autor de "Uma História da Leitura" iniciará funções em julho de 2016.

"Sempre me interessaram as bibliotecas. Pode-se percorrê-las infinitamente e encontrar nelas coisas impensáveis", disse ao jornal "El País" desde Nova Iorque, cidade onde se instalou há poucos meses vindo de Mondion, França, a sua morada nos últimos anos. Se a ida para os Estados Unidos aconteceu em resposta a um convite para lecionar na Universidade de Columbia, agora o seu país natal impõe-lhe um regresso que não será total: "A minha vida vai passar a ser dupla, entre Argentina e Estados Unidos".

Ele próprio dono de uma biblioteca de 35 mil volumes, Manguel torna-se o responsável de uma de três milhões. E não numa casa qualquer: entre 1955 e 1973, a BNA foi dirigida por Jorge Luís Borges. Os caminhos entre Bambos já se tinham cruzado antes, nos anos 60. Nesse tempo, Manguel tinha apenas 16 anos e trabalhava na livraria anglo-alemã Pygmalion, que o escritor cego frequentava. Borges pediu-lhe para ser o seu leitor e Manguel passou a sê-lo, duas vezes por semana, durante quatro anos. E a experiência marcou-o. Em 2009, quando o entrevistámos na sua casa-biblioteca de Mondion, disse-nos: "Há um conto de Evelyn Waugh em que um homem, socorrido por outro em plena selva amazónica, é obrigado pelo seu salvador a ler Dickens em voz alta para o resto da vida. Eu nunca tive a sensação de estar a cumprir um dever nas minhas leituras para Borges; em vez disso, a experiência parecia-me uma espécie de feliz cativeiro".

Quando ao que quer fazer na grande biblioteca de 205 anos que outrora foi de Borges, Manguel revelou que vai "insistir numa promoção da leitura mais pessoal e responsável". Que vai "incorporar o cartoon" para "não descartar nenhuma forma de ler um texto, uma narrativa". Que quer "fortalecer os laços entre a BNA e outras de América Latina e Espanha" a fim de "trocar experiências". E que não vai esquecer a biblioteca digital - ele que não utiliza sequer o mail e desconfia da Internet - por ser "importante num país tão grande como a Argentina, onde nem todos podem aproximar-se do livro físico".

  • “Estamos a fazer as perguntas erradas e a reagir como o Chapeleiro Louco”

    É um homem que acredita no poder das histórias, que descobriu e leu Dante numa convalescença, que cita Flaubert e a “Alice nos País das Maravilhas” e que disse “eu tenho palavras” para mostrar que tinha as faculdades intactas depois de um AVC. E tem perguntas, várias e como esta, que é uma questão que ele considera certa para responder a outras tantas erradas: “Porque há neste momento tanta gente a fugir do seu país?” Alberto Manguel