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Cultura

Sensual decadência

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Michael Caine
 e Harvey Keitel (primeiro plano)
 em “A Juventude”

Sorrentino leva-nos agora até ao outro lado de um outono civilizacional — o nosso

Têm os filmes de contar uma história? Em princípio, sim — creio mesmo que é isso que distingue o cinema de uma instalação plástica audiovisual. Mas tem essa história de ser o cerne do filme? Pelo menos desde “O Último Ano em Marienbad”, “La Dolce Vita” ou “Pedro, o Louco” — ou seja, números redondos, pelo menos desde há 50 anos — que sabemos que não. Um filme, um excelente filme, mesmo um filme apaixonante, pode ter um fio de história, mas viver, sobretudo, do habitat em que nos mergulha, das visões que nos proporciona, das ideias que nos acende. Melhor, mesmo os filmes que aparentemente, se ancoram na excelência de uma história — de “Citizen Kane” a “Vertigo” — na realidade, se pensarmos bem, agarram-nos porque nos põem dentro de um aquário vivencial hipnótico que nos enreda, que nos amedronta, que nos seduz, que não controlamos, mas que queremos frequentar pelo espaço de um filme. O cinema de Paolo Sorrentino, quando é bom (nem sempre é…), tem o condão de criar habitats intrigantemente fascinantes — e “A Juventude” é o mais recente exemplo disso.

Tudo decorre na Suíça, num clássico e luxuoso hotel termal onde um velho maestro britânico, retirado das lides da música, passa férias há imensos anos e onde encontra um amigo americano, realizador de cinema, com uma trupe de jovens argumentistas que preparam um próximo filme — que ele encara como o seu testamento. Nessa estância há toda uma fauna internacional que se cruza, numa espécie de mostruário cansado de um mundo em sensual decadência, de um monge budista que, dizem, consegue levitar, a um caduco ex-futebolista sul-americano, disformemente gordo, que toda a gente sabe quem é, de um ator-vedeta a preparar-se para o seu próximo filme, a uma massagista que entende mais do corpo que das palavras. E até aparece Miss Universo, por instantes gloriosamente nua, a contrastar o seu corpo com a decrepitude em volta. Mas o essencial não são os fios de história que se entretecem, é o caldo.

Este filme fala da criação artística e da velhice, da memória e do desejo, da dor, da doença e da leviandade — sempre de uma forma exuberante, enigmaticamente esplêndida, autoirónica. Tem magníficos atores (há que apresentar a Jane Fonda as nossas veementes homenagens) e, sobretudo, a desfaçatez de os usar sem complexos.

A JUVENTUDE

De Paolo Sorrentino, com Michael Caine, Harvey Keitel, Rachel Weisz, (Itália/França/Suíça/Reino Unido), drama biográfico, M/12