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Há anos irreparáveis

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Manoel de Oliveira em ”Visita Ou Memórias 
e Confissões”.

Foto D.R.

Despedimo-nos de dois vultos do cinema contemporâneo, Manoel de Oliveira e Chantal Akerman. Os melhores filmes do ano foram europeus. Em Portugal, as pessoas voltaram às salas

A relação de Manoel de Oliveira com o tempo, esse derradeiro e implacável juiz, sempre foi complexa, tal como o é, de resto, para qualquer grande artista (faça-se a pergunta a um Godard, por exemplo...), independentemente da sua área de trabalho. No entanto, nunca essa complexidade foi tão perturbadora como no sublime “Visita ou Memórias e Confissões”, o filme póstumo — e creio que caso único na história do cinema — que Oliveira ‘deu’ ao tempo. Recorde-se que só os caprichos deste último, com o desaparecimento do cineasta, permitiram que essa obra tão confessional e fantasmagórica pudesse ser vista, em grande comoção.

E depois daquele 2 de abril em que se soube que Oliveira partira, uma vez mostrada esta “Visita...”, primeiro no Porto e em Lisboa, e depois pelo mundo fora, de Cannes a Nova Iorque, continuamos a fazer pergunta: este é um filme de 1981/1982 (data em que foi rodado) ou de 2015? Desconheço se “Visita...” (que foi recentemente elencado na programação de um canal de TV por cabo) chegará algum dia ao circuito comercial. Soube há pouco que a Cinemateca prepara dele um DCP, transpondo-o assim da película para o formato digital. O que é certo é que se trata de um filme essencial e que o seu tempo é o de hoje.

“O Pátio da Cantigas”, a fast food audiovisual portuguesa.

“O Pátio da Cantigas”, a fast food audiovisual portuguesa.

Foto D.R.

Um balanço de fim de ano não é (ou pelo menos não pode ser só) um recordar de obituários nem tenho o hábito de ir por aí. E no entanto, neste 2015 em que Maureen O’Hara, atriz de John Ford, e Setsuko Hara, atriz de Yasujiro Ozu, nos abandonaram (que curioso: duas “Haras” do clássico, tão importantes, ambas nascidas em 1920, a partirem no mesmo ano!) eis que o cinema contemporâneo, a 5 de outubro, sofreu outra machadada, com o suicídio de Chantal Akerman. Tinha estado dois meses antes com a realizadora belga, em Locarno, num dia de muito calor em que a encontrei extenuada, a queixar-se das perguntas de alguns jornalistas anglo-saxónicos.

Ela estava na Suíça a apresentar “No Home Movie”, em que a cineasta interpela a sua mãe, e que não é um ‘filme caseiro’, antes um filme sobre uma casa ‘que não existe mais’. Chantal não tinha a certeza se os jornalistas tinham distinguido esta diferença. Combinámos encontrar-nos em Portugal, durante o DocLisboa, para continuar a conversa. Mas Chantal não nos visitou.

“Minha Mãe”, de Nanni Moretti.

“Minha Mãe”, de Nanni Moretti.

Fto D.R.

Falemos de coisas mais otimistas e mundanas: em 2015, e ainda com a crise bem vincada nos bolsos, os portugueses saíram da casca e foram mais vezes ao cinema. A pirataria na net começou, por fim, a ser atacada com algum peso e medida, embora também aqui existam (e existirão sempre) os ‘amadores’ e os ‘encartados’. Enfim: tudo o que leve as pessoas às salas é a priori coisa que virá por bem, que os filmes, lamento, não foram feitos para serem vistos em ecrãs de computador... As contas ainda estão por fechar mas, nos primeiros seis meses do ano, as salas portuguesas registaram um aumento de mais de um milhão de espectadores face ao ano passado, que foi de penúria nunca vista.

“Phoenix”, de Christian Petzold.

“Phoenix”, de Christian Petzold.

Foto D.R.

Esse aumento, de resto, deve subir consideravelmente nesta quadra. Agora, resta saber para verem o quê? Se filmes como “As Cinquenta Sombras de Grey” (alguém explica porque terão traduzido shades por sombras?), se o filme luso que o texto ao lado destaca, se o novo “Star Wars”, essa máquina cuja ‘força’ ajoelhou outra vez toda a imprensa mundial e que se prepara, dizem por aí, para bater tudo o que é recordes de bilheteira. Será barrete ou obra-prima? À data em que se escreve este texto, “Mínimos”, a animação de Kyle Balda e Pierre Coffin, lidera confortavelmente a tabela dos filmes mais vistos (com 934 mil espectadores, nada mau). Fará melhor, e com uma perna às costas, o filme de J.J. Abrams? Cá estaremos para ver mas... não são favas contadas. Do lado dos festivais de cinema, tivemos um DocLisboa com uma programação de classe mundial e um Lisbon & Estoril Film Festival que voltou a trazer focos essenciais (Jonathan Demme, Schroeder, Syberberg, etc.).

“As Mil e Uma Noites”, de Miguel Gomes.

“As Mil e Uma Noites”, de Miguel Gomes.

Foto D.R.

2015 também teve menos ‘bicharada’ (leia-se super-heróis e afins) do que o ano anterior, um alívio... O Urso de Ouro de Berlim (“Taxi”, de Jafar Panahi) estreou a seu tempo (e ainda bem), mas a Palma de Cannes, o Leopardo de Locarno (viva Hong Sang Soo!) e o Leão de Veneza ainda não chegaram às nossas salas — onde o monopólio do cinema americano cresce todos os anos mais um bocadinho. Nas tabelas dos críticos do Expresso (página seguinte), o cinema europeu superou claramente o americano, com dois filmes comuns às três listas, “Phoenix”, de Christian Petzold e “Minha Mãe”, de Nanni Moretti. Consideremo-los pois, ex aequo, os melhores do ano.