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PARA QUE CONSTE. O elenco de “Downton Abbey”

d.r.

Reinaldo Serrano

Estamos a poucos dias de, no Reino Unido, estrear o derradeiro episódio de uma das mais bem sucedidas séries inglesas de televisão. Falo, naturalmente, de “Downton Abbey”, cujo final será exibido no tradicional episódio de Natal, que vai para o ar precisamente no (cada vez mais) próximo dia 25 de dezembro. Nesse dia chegará ao fim a saga dos Grantham e dos Crawley, da criadagem e demais personagens e eventos que encantaram público e crítica entre 2011 e 2015. A despedida promete ser o que foram as seis temporadas: grandiosa, plena de bom gosto, de interpretações irrepreensíveis, de diálogos absolutamente impolutos e uma exemplar reconstituição de época.

Teve o modesto escriba, no recente outubro e por razões profissionais, oportunidade de contactar de perto com todo o elenco principal de “Downton Abbey”; o mesmo que foi fazendo despedidas um pouco por todo o mundo, o mesmo que foi alvo de admiração e homenagem um pouco por todo o mundo. Na altura, as conversas mantidas com tão notáveis figuras refletiram uma comum dualidade de sentimentos: ao justo sentido do dever cumprido juntava-se a natural nostalgia de quem acabara de concluir um projeto no qual se envolvera ao longo de meia dúzia de anos.

Enquanto o próprio criador da série, Julian Fellowes, admite nos dias que correm, a possibilidade de uma transferência do pequeno para o grande ecrã, o que aqui gostava de sublinhar é um “derivado” de “Downton Abbey” , ciosa e perfeitamente enquadrado na época que atravessamos. Chama-se “Christmas At Downton Abbey”, foi lançado em 2014 e não, não é um episódio especial, nem sequer um episódio: é um notável CD com música e contos alusivos ao Natal, e conta com especialíssimos convidados, alguns deles do próprio elenco da série.

Distribuídos em dois discos, são 45 os temas que nos são ofertados nesta coletânea onde pontificam nomes como os de Dame Kiri Te Kanawa ou The Choir of Kings College (de Cambridge), além de interpretações exclusivas de Elizabeth McGovern (Lady Cora), Julian Ovenden (Charles Blake) e Jim Carter (Mr. Carson). Quanto a este último, é absolutamente imperdível a sua narração do conto “Twas the Night Before Christmas”, pela sua eloquência, pelo seu tom de voz e pela inevitável e não menos deliciosa associação mental que fazemos da sua personagem em “Downton Abbey”.

Já Elizabeth McGovern está habituada a cantar, ou não tivesse ele própria uma banda “back home”, que é como quem diz nos Estados Unidos: Lady Cora Grantham é, nem mais nem menos, que vocalista e guitarrista dos Sadie and the Hotheads, um grupo essencialmente dedicado à música folk e com dois álbuns no currículo. Mais... erudita neste “Christmas At Downton Abbey”, Elizabeth McGovern está muito bem acompanhada, assim como os demais participantes, pela The Budapest City Orchestra e The Budapest Choral Voices. Os temas representados neste duplo álbum são os esperados para a época, mas a excelência das interpretações elevam-nos a uma categoria que nos merece atenção devida, quando não redobrada. Último dado mas não de somenos importância: “Christmas At Downton Abbey” não teve honras de edição entre nós mas, à distância de um clique, é possível adquiri-lo através da internet por um valor quase residual de cerca de... 6 euros.
Pelo mesmo preço e pela mesma via aqui se sugere vivamente um outro título: “Christmas Songs & Carols of World War One”. Desta feita falamos de um triplo álbum que, como o próprio nome indica, reúne cerca de 6 dezenas de temas icónicos da época e que, à época, eram o que de melhor havia para lembrar, dentro e fora de casa, que o Natal existe apesar da guerra. São mais de 60 canções nostálgicas de uma época muito especial da história da Humanidade, remetendo para a chuva, o sangue e a lama que ergueram e derrubaram trincheiras, para os uniformes pesados como a alma dos que os envergavam, para as pequenas fotografias, memórias perenes dos que as transportavam, a elas se agarrando e às cartas amarrotadas de papel tantas vez dobrado, à semelhança dos corpos que mal se erguiam no ardor do conflito que flagelou a Europa e o mundo entre 1914 e 1918.

Temas como “Tell That To the Maines”, de Al Jolson, I Wonder Who´s Kissing Her Now”, de Henry Burr ou “Till We Meet Again” juntam-se a outros de evidência mais natalícia, interpretados pelo London Regency Choir, pelo Regency Youth Choir ainda pelo Stuttgart Boys Choir, entre outros. No seu conjunto, “Christmas Songs & Carols of Worl War One”funciona como um tríptico de um tempo que passou ,mas que por nós passa em noites de nostalgia e onde o aconchego deve ser verbo presente. Espero sinceramente que este “passado” que aqui me permito sugerir surta o efeito de ser lembrado no futuro.