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Paula Rego, a caçadora de histórias que regressa a casa

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nuno botelho

Exposição de obras de Paula Rego pode ser vista em Cascais até ao mês de abril

João Miguel Salvador

João Miguel Salvador

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Jornalista

Nuno Botelho

Nuno Botelho

Fotografias

Fotojornalista

A National Gallery recebeu-a em 1990 para uma primeira residência artística e foi nos pisos inferiores do museu que Paula Rego começou a desenhar uma nova fase. Aceitou o convite a medo, mas aos poucos deixou-o para trás. “Tive muito medo e fiquei com uma certa apreensão! Mas para encontrar o nosso próprio caminho é necessário encontrar a nossa porta, como Alice.” Sempre Alice. A história, uma de muitas, foi contada por Paula Rego em “Paula Rego: Histórias da National Gallery”, editado pela Gulbenkian. O resultado destes meses de trabalho, concluído há 25 anos, pode agora ser visto na Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais, até 24 de abril.

nuno botelho

O percurso de “Caçadora Furtiva”, nome da mais recente exposição, faz-se pelas influências de obras de arte mais antigas na obra da artista. É verdade que quase nunca as transporta para a tela de forma linear, mas também não esconde os seus referentes. Exemplo disso é a maior parte das obras apresentadas remeterem (direta ou indiretamente) para o trabalho feito com a National Gallery.

Se “A Artista no Seu Atelier”, de 1993 — que teve como referente direto “A Visão de José”, de Philippe Champaigne —, nos apresenta a artista no centro do trabalho plástico, reclamando para si um mundo demasiado masculino, outras há em que o passar do tempo é objeto de estudo. É o caso de “O Tempo — Passado e Presente”, também elaborado durante a estadia na National Gallery. Aqui Paula Rego pegou na construção arquitetónica de “São Jerónimo na Sua Biblioteca”, de Antonello de Messina, e transportou-a para a tela, incluindo nas paredes obras da coleção do museu britânico. A cópia ganha assim um contexto.

Num puzzle de obras vasto, várias são as que estão em falta, a começar pelo “Jardim de Crivelli”. Era impossível trazer até Cascais o grande mural que encerrou a sua participação na residência artística no National Gallery. O trabalho de grandes dimensões, com nove metros por dois, encontra-se em Londres e é lá que continuará a ser apreciado. Em Cascais estão agora os trabalhos exploratórios, onde é possível perceber a influência portuguesa na criação, com as cores da azulejaria e a arquitetura alentejana a tomarem conta das proporções.

nuno botelho

O equilíbrio é necessário e não se pode querer demasiado ou pecar por defeito. Voltamos às palavras da artista: “Ao tomarmos demasiadamente de uma mistura ficamos grandes demais, depois tomamos demasiado de outra e ficamos pequenos demais. Temos de encontrar a nossa própria entrada para as coisas”. São muitas as pontes que se podem estabelecer num discurso como o de Paula Rego, mas mais importante do que o discurso escrito será o oral. Aquele que tantas vezes a levou, através da tradição, a criar novos trabalhos. A exposição “Caçadora Furtiva” foi apresentada pela curadora, Catarina Alfaro, e a inauguração aconteceu na passada quarta-feira. São 103 obras para conhecer o trabalho e parte da história da artista que, aos 80 anos, continua a criar.