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O ano em que 700 mil foram ver Leonel Vieira

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Foto D.R.

Nos anos 40 e 50, muito teatro que se fazia por Lisboa era de peças que se iam buscar internacionalmente — em particular, a Espanha —, com as quais escribas portugueses faziam o que chamavam ‘arranjos’. Não eram bem traduções, não eram bem adaptações, era um cozinhado entre uma coisa e outra, acomodado ao elenco da companhia para que estavam contratados. Foi preciso chegar a 2015 para que tal tipo de empreendimento aparecesse no cinema — aconteceu com dois antigos filmes portugueses (“O Pátio das Cantigas” e “O Leão da Estrela”) que a Stopline Films, de Leonel Vieira, mandou ‘arranjar’ para versões que o próprio Vieira realizou. Um outro (“A Canção de Lisboa”) está no estaleiro. O resultado foi um estouro.

Do lado da crítica choveram bolas pretas sobre dois produtos audiovisuais que não mereciam outra sorte. Não se está à espera que fast food tenha estrelas Michelin, pois não? Mas, do lado do público, o sucesso não podia ser maior. “O Pátio das Cantigas” ultrapassou os 600 mil espectadores, tornando-se o filme português mais visto nas salas, desde que o mundo é mundo, e o terceiro filme do ano mais visto em Portugal (muito à frente de megassucessos como “Mundo Jurássico” ou “As Cinquenta Sombras de Grey”). Nunca uma produção portuguesa estivera no top 10 anual. “O Leão da Estrela” sofreu do efeito ‘mais do mesmo’, mas passou os 100 mil e ainda está a faturar.

Outro sucesso de 2015 foi “As Mil e Uma Noites”, de Miguel Gomes, filme em três jornadas que, a partir de Cannes, teve um bom circuito de vendas internacionais, com estreia em diversos países, forte apoio da maioria da crítica (portuguesa e internacional) e uma presença honrosa nas listas dos “melhores do ano” em publicações de prestígio. Em Portugal, cumulativamente, teve 40 mil espectadores, números redondos (nada mau, atendendo ao que o filme era).

Lamentavelmente, obras notáveis como “Se Eu Fosse Ladrão… Roubava”, de Paulo Rocha, “Yvone Kane”, de Margarida Cardoso, ou “Montanha”, de João Salaviza, fizeram números esquálidos, a confirmar a tradicional malapata do cinema português, num ano em que, nas salas, se estrearam 13 longas-metragens de ficção (se contarmos “As Mil e Uma Noites” apenas como uma) e uma dezena de documentários, no ano em que nos despedimos de dois cineastas maiores: Manoel de Oliveira e José Fonseca e Costa. Oliveira já não fazia uma longa-metragem desde 2012, Fonseca e Costa morreu em plena laboração de “Axilas”, que outras mãos completarão e que, decerto, é já um dos mais aguardados filmes portugueses de 2016.