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Edith Piaf, que acumulou amores e tragédia e foi a maior cantora francesa do seu tempo, nasceu há cem anos

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AFP/Getty Images

Ainda recentemente as suas canções se ouviram em homenagens a Paris após os atentados terroristas do Daesh

Luís M. Faria

Jornalista

Edith Piaf tornou-se a tal ponto um símbolo de Paris que a seguir aos atentados do mês passado a sua música foi usada para homenagear a cidade. Durante um concerto em Estocolmo, Madonna cantou “La Vie En Rose”, e em Los Angeles, numa entrega de prémios musicais, Céline Dion emocionou a audiência com o “Hymne a L’Amour”. Duas das canções mais conhecidas de Piaf, e ambas, ao que consta, relacionadas com casos de amor mal sucedidos. Outras temas famosos, tais como “Je Ne Regrette Rien” e “Ne Me Quittes Pas”, não falam de outra coisa. Nessa francesa com 1,42 m, a vida sempre foi o mais importante.

Provavelmente, por a sua ter sido tão difícil. Filha de um acrobata de circo e uma cantora de rua, Edith Giovanna Gassion nasceu a 19 de dezembro de 1915 em Paris, 20º Arrondissement, num meio que era pobre mas não miserável, ao contrário do que mais tarde faria crer. A lenda sobre o parto nas escadas do seu prédio parece ser isso mesmo: uma lenda. Na verdade, há registo do seu nascimento num hospital próximo. Incapaz de tomar conta dela, a mãe entregou-a à sua própria mãe. Mas esta também não tinha condições, negligenciando-a (em higiene, alimentação, etc) a um nível que hoje reclamaria a intervenção dos serviços sociais. Dessa avó Edith passou rapidamente para a outra, a paterna, que era madame num bordel. E pela primeira vez soube o que era abundância.

Mais tarde explicou que vinha daí a sua incapacidade de resistir aos homens. “Pensava que, quando um rapaz chamava uma rapariga, ela não podia recusar”. Mas na altura ela não pensava nisso. Com roupas bonitas e comida à vontade, podia finalmente ter sido feliz, não fosse a doença que lhe atingiu os olhos ainda na tenra infância. Chegou-se a pensar que ficaria cega, mas curou-se, atribuindo a cura a Santa Teresa de Lisieux, de quem terá ficado devota até ao fim. Entretanto começou a cantar. Aos sete anos, quando o pai finalmente a foi buscar, passou a actuar com ele na rua. Aos quinze, trocou-o por uma amiga com quem formou um duo. Não muito depois encontrou um adolescente com quem se juntou, e aos dezassete anos teve uma filha, Marcelle, que morreria dois anos depois com meningite. Segundo rumores, Piaf teria obtido o dinheiro para o funeral dormindo com um homem.

Representante dos humildes

O seu golpe de sorte foi ser descoberta na zona de Pigalle em 1935 por Louis Leplée, dono de um clube muito frequentado junto aos Campos Elísios. Leplée deu coragem para cantar e um nome pelo qual o mundo ficaria a conhecê-la: Piaf, que significa pardal. Na altura a alcunha completa era “”La Môme Piaf”, o pequeno pardal, mas mais tarde substituiu a primeira parte pelo seu nome próprio. Além do nome, Leplée ensinou-a a apresentar-se em palco – incluindo o vestido preto que lhe ficaria sempre associado – promoveu-a com uma campanha e levou-a a gravar dois discos. Leplée seria assassinado pela máfia local em 1936, e um novo rumor atribuiu a Piaf responsabilidades no assunto.

Já no princípio da celebridade, a má fama ameaçava-lhe a carreira. Salvou-a a ligação a Raymond Asso, um autor de canções com quem se envolveu pessoal e profissionalmente. Asso escreveu temas que aludiam às experiências de rua de Piaf, contribuindo para alimentar a imagem dela como representante do ‘pequeno homem’ e da ‘pequena mulher’, dos humildes, dos miseráveis. A emoção sofrida da voz, essa, era obviamente real. Foi ela que fez de Piaf uma enorme estrela, a par ou acima de quaisquer outras no seu país. Num padrão que manteve até morrer, a cantora alimentou uma rede de amizades com uma grande variedade de gente talentosa, desde poetas ilustres como Jean Cocteau até aos numerosos colegas que lançou ou protegeu, entre eles Ives Montand e Charles Aznavour.

Com Montand houve um famoso caso de amor, que antecedeu aquele que terá sido o maior de todos, com o pugilista Marcel Cerdan, um homem casado e com três filhos que morreu num acidente de avião quando estaria prestes a deixá-los pela cantora. Em 1951, foi um acidente de automóvel que deixou sequelas sérias à cantora, cujas dores passaram a exigir doses consideráveis de álcool e morfina. Haveria mais dois acidentes do mesmo tipo, também eles graves, e sucessivas tentativas falhadas de largar os vícios.

Por tudo o que se faz, há que pagar

Começava a trajectória final. Pia ultrapassara um início de vida terrível, o trauma de perder uma filha, os amores falhados, e até a sombra de relações algo ambíguas com o colaboracionismo durante a ocupação nazi. Teve o seu primeiro casamento em 1952, e o segundo em 1962 com Theo Sarapo, um cantor e ator 20 anos mais novo. Uma abundância de imagens atestam a sua felicidade. Mas durou pouco, pois ela morreu logo em 1963, aos 47 anos, de cirrose hepática.

As suas derradeiras palavras? Por tudo o que fazemos na vida, temos de pagar. Não há dúvida que ela pagou ao longo da vida inteira. Entre operações e transfusões de sangue, chegara a pesar apenas 30 quilos. O óbito ocorreu na sua villa em Grasse (Riviera francesa), mas o corpo foi levado para Paris, ficando sepultado no Père Lachaise junto ao do seu pai e de Marcelle. Poucos anos depois, Sarapo faleceria ele próprio num acidente de automóvel, juntando-se a ela no jazigo.

A herança de Piaf, como a de qualquer cantor, sobrevive sobretudo nas suas canções. Mas a durabilidade do mito também se reflecte em obras alheias. Em 2007, um filme biográfico de Oliver Dahan, “La Vie en Rose”, valeu a Marion Cotillard o óscar de melhor actriz pela sua interpretação de Piaf. Foi a última de muitas homenagens. A par de filmes, tem havido livros, séries, obras plásticas… E há as versões de canções de Piaf por uma infinidade de artistas. Mas talvez a homenagem perfeita tenha sido a do seu amigo Cocteau, que morreu subitamente no mesmo dia que ela, escassas horas depois de receber a trágica notícia. Paris não seria a mesma cidade sem Piaf.