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Essa “criatura completamente indomável”

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JOHNNY EGGITT/AFP/Getty Images

Nasceu há 245 anos, assinalados esta quinta-feira. Excêntrico e melancólico, durante anos lutou contra o desespero na sequência da surdez progressiva que foi afetando a sua vida - mas não a sua música. A perda da audição levou-o a desejar a morte: “Arte, apenas a arte me deteve”. Beethoven

Oh amigos, mudemos de tom!
Entoemos algo mais agradável
E cheio de alegria


Ode à Alegria (1785), de Friedrich von Schiller, adaptada para a Nona Sinfonia (1824)

Naquele 7 de maio de 1824, no teatro de Kärntnertor, em Viena, várias pessoas juntaram-se para assistir à maior orquestra de sempre organizada pelo compositor. E à sua primeira aparição em palco nos últimos 12 anos. A composição deveria estrear em Berlim, mas a adoração ao compositor em Viena reuniu assinaturas de mecenas e músicos para que a estreia ocorresse na capital austríaca. O músico deu-lhes ouvidos. O público foi ao teatro para o ouvir. Mas Beethoven não conseguiu escutar o estrondoso aplauso com que no final o público brindou a Nona Sinfonia.

Ludwig van Beethoven (1770-1827) estava lá, no teatro de Kärntnertor, nesse dia. No palco, de frente para a orquestra, a marcar os tempos de forma absorta e comprometida. Mas os músicos não olhavam para ele, estavam virados para Michael Umlauf, o maestro oficial da orquestra. No final, um estrondoso aplauso. Beethoven continua de costas para a plateia. Não se apercebe que está a ser ovacionado. Nada ouve.

Terá que ser uma das solistas, Caroline Unger, a virar Beethoven de frente para a público, de modo a que os seus olhos conseguissem ver aquilo que os ouvidos não ouviam.

Abracem-se milhões de seres!
Enviem este beijo para
o mundo inteiro!

A surdez extrema em que Beethoven se encontrava na fase final da sua vida foi o culminar de um processo doloroso, sofrido, de desespero que teria o seu início quando o menino prodígio da música tinha 26 anos. E levá-lo-ia a deixar os palcos, como músico e maestro, para se dedicar completamente à composição. Privado do seu instrumento principal, sentia-se sozinho, isolado, órfão.

“Ó homens que me consideram intratável, insociável, como estão equivocados! Não conhecem as razões profundas que me levam a parecer assim”, pode ler-se no testamento de Heilingenstadt, escrito pelo músico e compositor em 1802 e originalmente dirigido aos seus irmãos Caspar Anton Carl e Nicolaus Johann (mas que nunca lhes chegaria a ser enviado). “Quão grande era a humilhação quando alguém ao meu lado ouvia o som distante de uma flauta e eu nada conseguia ouvir; ou ouvia o canto de um pastor e eu nada ouvia. Esses incidentes levaram-me à beira do desespero e pouco faltou para que, com as minhas mãos, terminasse com a minha vida. Arte, apenas a arte me deteve.”

Paradoxalmente, estes últimos anos de surdez extrema seriam alguns dos mais produtivos, durante os quais o génio de Quarta Sonata para Piano em Mi Maior e Quinta em Dó Menor compôs a Nona Sinfonia, considerada uma das suas obras-primas. Esta quinta-feira, no dia em que se celebram 245 anos depois do seu nascimento a 17 de dezembro de 1770 (a data universalmente aceite para assinalar o dia em que veio ao mundo, mas não comprovada) recordamos o génio. Como diria outro génio, o seu amigo, escritor e filósofo alemão Goethe, Beethoven era “uma criatura completamente indomável”.