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A história desconhecida do Darth Vader original

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TRIO. O realizador Marcos Cabotá co-protagoniza o documentário sobre David Prowse (ao centro), enquanto Bestard prefere ficar atrás da câmara

cARLOS ALVAREZ/GETTY IMAGES

Toni Bestard e Marcos Cabotá decidiram contar a história desconhecida de David Prowse, o Darth Vader da trilogia original, em “I am Your Father”. Aos 80 anos, o ator britânico aceitou tirar a máscara da sua vida para dois realizadores espanhóis e Bestard contou ao Expresso como tudo se passou. O filme está nomeado para os Prémios Goya do próximo ano na categoria de Melhor Documentário

Como surgiu “I am Your Father”?
Tudo começou num dia em que o Marcos e eu estávamos a jantar, depois de terminarmos outro filme. Começámos a falar de “Star Wars”, mas apenas como fãs, até que o nome de David Prowse surgiu na conversa. Ambos conhecíamos a sua história e Marcos disse que tinha o contacto. Falámos da possibilidade de fazer um documentário sobre ele e procurámos se alguém já tinha feito algum trabalho sobre ele. Para nossa surpresa, descobrimos que não.

Qual era a vossa ideia inicial?
A nossa primeira ideia era fazer uma coisa pequena, uma espécie de curta-metragem. Quando fomos a Londres conhecê-lo e soubemos o que havia acontecido no passado deste senhor — especialmente quanto à sua relação com “Star Wars” — percebemos que não era possível fazê-lo num pequeno filme. Era preciso fazer um projeto maior.

O que vos fez mudar de título, de “Descubriendo a David Prowse” para “I am Your Father”?
Na verdade demos conta de que o título não era muito comercial mas, mais importante do que isso, “I am Your Father” fazia mais sentido e levantava uma série de questões no filme. A começar pela mística desta frase que marcou a história do cinema.

Qual de vocês é o maior fã de “Star Wars”?
Somos os dois fãs, mas diria que o 'hardcore' é o Marcos, enquanto eu sou mais um fã geracional. Nasci nos anos 1970 e vi os filmes no cinema quando era pequeno. Cresci mesmo com o “Star Wars” e claro que tenho um vínculo emocional muito grande. O Marcos nasceu mais tarde e viu os filmes em casa, em vídeo, com o pai, mas depois continuou a interessar-se muito pelo tema. Foi a várias convenções sobre a saga e até coleciona figuras relacionadas com os filmes.

É por isso que apenas Marcos aparece no filme?
Foi uma decisão minha, mas ele concordou. Precisávamos de um condutor, de alguém que representasse o fã. Antes de procurar outro pensámos que ele seria essa pessoa, alguém mais jovem e que falasse melhor inglês do que eu.

“I am Your Father” é apenas um retrato de David Prowse ou vai além disso e inclui os vossos laços afetivos com o filme? Trata-se apenas de uma biografia?
É uma biografia, mas é algo mais do que isso. De alguma forma, o filme tenta fazer justiça a David Prowse, mas não apenas a ele. É também uma homenagem a todos os atores que atuaram por trás de uma máscara, um grupo de atores que viveram toda a sua vida no anonimato.

E como é que este homem por trás da máscara de Darth Vader reagiu à ideia de participar num documentário sobre si próprio?
No princípio com alguma desconfiança. Chegaram-lhe dois espanhóis a casa a dizer que queriam fazer um documentário sobre a sua vida e ele não sabia muito bem em que mãos se estava a entregar. Fomos falando com ele e mostrámos-lhe outros trabalhos nossos. A partir daí percebeu que estava a lidar com pessoas que já tinham feito outros filmes e que eram profissionais, pelo que se entregou e nos ajudou a explorar a sua vida.

Que outros testemunhos recolheram para “I am Your Father”?
A participação de dois dos produtores de “Star Wars”, Gary Kurtz e Robert Watts, foi fundamental. Não conseguimos falar com George Lucas porque não quis conceder entrevistas, mas estas personagens-chave da trilogia aceitaram o desafio. Os dois ajudaram-nos a responder a perguntas que até agora estavam sem resposta.

E gostaram do resultado?
Gary Kurtz e Robert Watts ainda não o viram, até porque o filme não estreou no Reino Unido (embora seja um dos nossos objetivos mais próximos). Quanto a David Prowse, já o viu três vezes e gostou imenso. Conto sempre a mesma história, mas tenho de contar o que nos disse quando o viu pela primeira vez. Depois de nos dizer, emocionado, que era a primeira vez que toda a verdade era contada, disse-nos: “este é o melhor filme em que já participei”. Tivemos de lhe dizer que em “O Império Contra Ataca” também não estava mal.

E George Lucas, já viu o filme?
Bem, sabemos que a Lucasfilm o recebeu até porque essa era uma questão legal. Eles venderam-nos algumas fotografias dos filmes originais e nós ficámos de enviar o documentário. Fizemo-lo no início de outubro, mas não recebemos qualquer resposta.

Se David Prowse, ou Darth Vader, é o herói de “I am Your Father”, pode dizer-se que George Lucas é o vilão?
No cinema, e em filmes como “Star Wars”, é muito fácil determinar um herói e um vilão, mas na vida real isso torna-se muito mais difícil. Num trabalho documental não há branco e preto, há muito tons de cinzento para explorar. Eu não me atreveria a dizer que Lucasfilm, e nem tanto George Lucas, seja um vilão ou que Prowse seja um herói. Depende um pouco da forma como se olhar para a história e caberá aos espectadores compreender. Talvez aqui nem haja heróis e vilões, mas sim uma sucessão de mal entendidos, muitos erros cometidos por diversas pessoas.

E qual é a vossa opinião sobre o veto a David Prowse?
Possivelmente, e como diz, Robert Watts, a culpa será 50% deles e 50% de David Prowse. Não queremos criticar as decisões da rodagem — como alterar a voz ou a cara, até porque isso faz parte da liberdade artística do realizador —, mas analisámos a forma como tudo aconteceu. Parece birra de escola que uma empresa tão grande tenha que fazer coisas contra uma pessoa que não a pode prejudicar de qualquer forma.

É como uma pulga num elefante...
Sim, e torna-se absurdo que esta política se mantenha. Quisemos também refletir sobre as grandes empresas de cinema e como se perde, no caminho, o fator humano.

Será possível ver “I am Your Father” e David Prowse no próximo Star Wars Celebration, em Londres?
Mais do que o filme, gostaríamos muito que David Prowse fosse convidado para a próxima Celebration. Seria mesmo muito bom que ele pudesse participar, ainda por cima na sua cidade-natal. Se a isso se juntasse a exibição do filme, então seria perfeito.

O que espera de “Star Wars: O Despertar da Força”, que estreia esta semana?
Tenho a sensação de que talvez seja o filme que todos gostávamos de ter visto em 1999. Na altura foi uma deceção. Tenho esperança de que este será um grande regresso ao mundo de “Star Wars”.

[Texto publicado na edição do Expresso Diário de 14 de dezembro de 2015]