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No rasto de “Moby Dick”

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A baleia que afundou o “Essex”, segundo a tecnologia de “No Coração do Mar”

Courtesy of Warner Bros. Oictures

Ron Howard assina um épico marítimo, “No Coração do Mar”, sobre o naufrágio que deu origem ao livro imortal de Herman Melville

O novo filme do autor de “Apollo 13” e de “Uma Mente Brilhante” é uma espécie de reverso da medalha de “Moby Dick”, pois baseia-se no naufrágio do navio baleeiro “Essex”, em 1820, que inspiraria Herman Melville para o livro citado, publicado cerca de três décadas depois daquela tragédia.

Escrito por Charles Leavitt (o autor do esquecido “Espírito do Sol”, de Cimino) a partir de uma premiada novela biográfica de Nathaniel Philbrick focada no assunto, “In The Heart of the Sea — The Tragedy of the Whaleship Essex”, “No Coração do Mar” começa precisamente com Herman Melville (papel de Ben Whishaw) e o seu encontro, crê-se que verdadeiro, em Nantucket, Massachusetts, com um dos raros sobreviventes do “Essex”, Thomas Nickerson (Brendan Gleeson), que trabalhara como moço de convés na derradeira expedição do navio. Isto passa-se em 1850, um ano antes da publicação de “Moby Dick”.

Melville tem nesta altura pouco mais de 30 anos e roga a Nickerson que lhe conte a história do célebre baleeiro que para sempre ficaria com a reputação de ter sido afundado por um monstro marinho, um gigantesco cachalote albino que tantos associaram a uma criatura demoníaca.

O filme lança então o seu primeiro flashback apresentando-nos aos dois homens que serão as personagens centrais do filme: o imediato do navio, Owen Chase (Chris Hemsworth), muito novo mas já experiente, e o capitão George Pollard (Benjamin Walker), filho e neto de oficiais, que por isso recebe o comando do “Essex”, porém marinheiro novato e sem garra.

Não estamos a falar aqui nem de heroísmo nem da loucura de um capitão Ahab, que vem dos poderes da ficção e da pluma de Melville, mas de gente que, de facto, existiu. Owen Chase, que desde logo escreveria sobre o incidente, morreu em 1869, um ano antes de George Pollard.

Verídica foi também a luta pela sobrevivência daqueles homens, que partiam para o mar para caçar cachalotes e extrair-lhes espermacete — substância que valia ouro nessa época — sem saberem quando regressariam a casa. Ficavam meses a fio a navegar, às vezes anos.

Cada expedição era uma odisseia e a do “Essex” foi particularmente extrema, como este “No Coração do Mar” relata. Trata-se do trunfo da Warner Bros. para este final de ano de 2015, foi rodado em 3D, em estúdios britânicos e sobretudo nas Canárias (nas cenas de exteriores), traz-nos um dantesco cachalote gerado por computador e o seu interesse será porventura mais histórico e literário do que cinematográfico.

Ron Howard, tarefeiro de Hollywood sem maldade na alma, disse-nos contudo que se trata do seu filme mais exigente até à data, “e não apenas pelos dias que tivemos de passar dentro de água: a complexidade dramática era tão grande como a logística, e as cenas de exteriores trouxeram-nos um sem-fim de problemas que eu só consegui resolver graças à experiência que ganhei no passado.”

Já com quase quatro décadas no cinema, esta foi a primeira vez que Howard fez um filme passado no mar, “mas este é um desafio que qualquer cineasta em Hollywood acaba por se colocar às tantas.” Howard já fizera algumas cenas dentro de água, sobretudo nos anos 80, em “Splash — A Sereia” e “Cocoon — A Aventura dos Corais Perdidos”. Mas nas entrevistas à imprensa europeia confessou que não gosta de mar alto. Porquê?

Ron Howard (em cima) durante a rodagem nas Canárias

Ron Howard (em cima) durante a rodagem nas Canárias

Jonathan Prime

Chris Hemsworth, que faz de Owen Chase, a personagem principal

Chris Hemsworth, que faz de Owen Chase, a personagem principal

Jonathan Prime

“No início dos anos 60 houve uma série célebre nos EUA chamada ‘Route 66’. São as aventuras de dois condutores que percorrem aquela estrada americana, resolvendo os problemas das pessoas que encontram. Ora, eu comecei a fazer cinema muito novo, fui um child actor e entrei num daqueles episódios em que a missão era apanhar tubarões. Tinha uns sete anos e atiraram-me para o Pacífico. Já sabia nadar mas fiquei aterrorizado e a gritar pelo meu pai — o que não calhou mal porque, felizmente, a minha personagem tinha pai.” O mais engraçado, conta Howard, é que uma hora depois da rodagem alguém caçou um tubarão branco exatamente no local das filmagens. Desde então, a água tem sido uma fobia. “Há trinta anos, logo a seguir a ‘Cocoon’, estive envolvido num projeto sobre o ‘Rainbow Warrior’, da Greenpeace, mas o filme abortou. Quinze anos mais tarde, escrevi uma adaptação de ‘O Lobo do Mar’, o livro de Jack London, mas o elenco e o orçamento nunca acertaram e tenho andado com este projeto suspenso desde então. E depois surgiu esta oportunidade. Que me agradou porque o trabalho de ‘No Coração do Mar’ permitiu-me testar personagens muito clássicos com as armas do cinema de hoje, nomeadamente o 3D, que eu nunca tinha usado.” Howard, que pouco ou nada sabia de barcos até agora, destacou depois a aventura no tempo que “No Coração do Mar” exigiu. A rodagem, que foi longa, obrigou o elenco a permanecer unido — “e este é um filme de homens e de tempestades.” Por outro lado, a Warner decidiu adiar a estreia de março para dezembro, o que permitiu ao realizador ir afinando questões de pós-produção. Uma das mais importantes? A visualização do monstro em si, “um monstro que, mais do que isso, é uma sugestão do medo dos homens, algo que só se pode ir mostrando a pouco e pouco. Era preciso que a baleia nos desse uma ideia de autenticidade e ao mesmo tempo que transportasse o poder mítico que Melville deu a Moby Dick. Nos seus diários, os marinheiros do “Essex” perguntavam-se: esta baleia é o Diabo a fazer o seu trabalho ou uma dádiva divina? Eles acreditavam na baleia enquanto entidade sobrenatural que vinha puni-los e punir a brutalidade das suas vidas. No fundo, ‘No Coração do Mar’ é uma história de redenção.”