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Kate Winslet pronta para as curvas

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A atriz de “Titanic” regressa com um filme de época australiano arraçado de western spaghetti e que elogia o feminino

A reputação persegue-a: Kate Winslet, que ainda há pouco vimos (e estava quase irreconhecível) em “Steve Jobs”, é conhecida por deixar o couro e o cabelo nos papéis que decide agarrar. As suas interpretações, de resto, são com frequência superiores aos filmes que servem e — acrescente-se desde já — esse é também o caso de “A Modista”, que está em exibição nas salas desde quinta-feira. Aos 40 anos, a madura atriz britânica que nos habituámos a seguir desde “Sensibilidade e Bom Senso” e “Titanic” foi para a Austrália dos anos 50 com uma máquina de costura portátil na mão (tinha que ser uma Singer!). A personagem, Myrtle ‘Tilly’ Dunnage, é uma emancipada costureira com queda para femme fatale que deixa Paris e regressa à sua terriola natal, vinte e tal anos depois. Quer curar feridas, saldar dívidas com um passado de humilhações e carências na infância e reconciliar-se com a mãe, que por lá ficou ao abandono. ‘Tilly’ tem um coração generoso que depois se abrirá ao romance (com a personagem de Liam Hemsworth) mas não desarma o seu assanhado desejo de vingança. Foi esta a história que Rosalie Ham deixou escrita em livro e que a cineasta australiana Jocelyn Moorhouse decidiu passar para cinema, numa comédia dramática em flirt com outros géneros — um deles é o western spaghetti —, e um papel à exata medida de Kate. Encontrámos a simpática atriz em outubro passado, durante a estreia mundial da obra, no Festival de Toronto.

O que tem a dizer de um filme que começa com um “I’m back, you bastards!”?
É uma frase bestial para começar um filme, não é? O argumento de “A Modista” deu muitas voltas, passou por várias versões e a original não começava assim. A Jocelyn Moorhouse tinha decidido desenvolver um pouco a origem da ‘Tilly’ antes do seu regresso e do que a traz de novo a casa. Mas eu insisti, insisti e levei a minha avante. A personagem está por inteiro naquela frase.

Gosta de sotaques?
Adoro.

É que desta vez teve que carregar no inglês da Austrália. Foi difícil?
Alguns sotaques são mais complicados que outros e este não foi dos mais fáceis. Mas eu já tinha interpretado uma australiana há muitos anos.

Está a referir-se a “Holy Smoke”, de Jane Campion?
Exato. Tento que o público reconheça o sotaque sem que isso se note, sem que seja demasiado sublinhado. É preciso encontrar o tom certo para certos detalhes, como esse. Trabalhar na subtileza. Mas às vezes não é fácil.

Filmou em que parte da Austrália?
Em Melbourne. A equipa e o elenco eram quase todos australianos, eu chegava ao fim de cada dia de rodagem a perguntar-me ‘será que disse bem aquela frase; será que se riram de mim?’ Foi um pesadelo que tive de esquecer rapidamente senão acabava por não conseguir abrir a boca. Tenho uma história engraçada sobre isso. Há uma cena no filme em que contraceno com a Kerry Fox, que é neozelandesa. Tínhamos bastante texto e o sotaque na Nova Zelândia, esse sim, é muito carregado. Acabei por ir atrás dela e...comecei a falar como ela. A um tal ponto que depois me obrigaram a regravar o som das minhas falas em estúdio.

O que é que a atraiu nesta personagem, e logo numa fase em que diz que escolhe cada papel cada vez com maior cuidado?
Muita coisa, a época em que o filme se passa, o facto de ser um filme australiano, a natureza da ‘Tilly’, que é uma guerreira. Ela é modista e eu julgo que, naquele contexto, a roupa que ela usa é como uma armadura. Tudo o que ela veste reflete o seu estado de espírito e a mulher que ela é. E essa mulher é um desafio às convenções sociais.

Kate Winslet ‘faz parar o trânsito’ 
(ou, neste caso, uma equipa de futebol australiano) em “A Modista”, 
de Jocelyn Moorhouse

Kate Winslet ‘faz parar o trânsito’ 
(ou, neste caso, uma equipa de futebol australiano) em “A Modista”, 
de Jocelyn Moorhouse

Convenções que estavam bem impregnadas na década em que se passa o filme: a década de 50. A ‘Tilly’ também lhe fez pensar no cinema desse tempo?
Sinceramente, não. Acho que o filme salta de um género para outro sem se definir num só, não é um drama forte, não é uma comédia assumida, não é um filme que pudesse ter existido nos anos 50, mas sim uma combinação de coisas. Isto é: não acredito que um filme dos anos 50 pudesse ter um polícia travesti e com sapatos de ballet como a personagem do Hugo Weaving, por exemplo.

E o início faz-nos pensar não na década em que o filme decorre, mas num western revisionista...
Lá está, é uma combinação de coisas. Agora por favor não me diga que entrei num western com máquinas de costura!

E porque não? A máquina de costura parece estar no lugar da pistola logo na primeira cena.
Para mim, não é um western, ponto final. O que conta é a relação entre a filha e a mãe. É esse o verdadeiro coração do filme. “A Modista” é uma fábula. Não é um filme realista.

Teve que aprender a costurar com aquelas máquinas?
Isso fez parte do trabalho, sim. E a máquina que vemos no filme é minha! Foi nela que aprendi a coser. Levei-a comigo para a Austrália!

A história daquela small town girl que partiu à conquista do mundo e regressa a casa já mulher é uma história universal, não acha? Ela tem muito de si?
Não me posso comparar a ‘Tilly’, mas acho que também me senti ostracizada na escola quando era criança. As crianças podem ser terríveis umas para as outras.

Acha que “A Modista” é um filme sobre a vingança?
Não. Nós falámos bastante disso com a realizadora. A vingança é apenas uma parte do filme, que é frisada no início, mas o que descobrimos depois é que esta é a história de uma mulher que regressa a casa em busca de respostas. Quem foi ela, quem é a sua mãe, que tipo de relacionamento podem elas ainda ter? Também é um filme sobre o arrependimento.

Dos muitos que já fez, foi este o mais complicado ao nível de guarda-roupa?
Ah não, tive que trocar muito mais vezes de roupa em “O Amor Não Tira Férias”.

E em “Titanic”?
O problema do guarda-roupa de “Titanic” era o próprio desconforto da indumentária. O Titanic afundou-se em 15 de abril de 1912. Acontece que a moda transformou-se muito mais entre 1912 e os anos 50 do que entre os anos 50 e os dias de hoje. A ‘Tilly’ é quem é também pelo que ela veste. A sua roupa é a expressão da sua criatividade. Aliás, esta foi a primeira vez em que eu me senti coautora do guarda-roupa que usei: discuti cada detalhe com a responsável deste sector.

Não se irrita que escrevam que “A Modista” é um filme feminista por ter sido escrito, realizado e interpretado por mulheres, bem como por falar da emancipação de uma mulher?
O que eu acho é que é sempre perigoso colocar as coisas nessas gavetas. A palavra ‘feminista’ é forte, tem um peso e uma história que não se adaptam a este filme. De “A Modista” prefiro dizer que é um filme sobre uma pessoa que sabe que é diferente de toda a gente que a rodeia e que se está nas tintas. É por isso que a admiro.

É um filme que exalta o feminino?
Sim, a ‘Tilly’ sabe que um vestido é capaz de fazer virar a cabeça dos homens e tornar-se uma arma poderosa. É óbvio que ela não vai hesitar em usar essa arma naquele jogo de futebol [futebol australiano, uma derivação do râguebi]. Ela é uma mulher com formas e que gosta de deixar que o corpo fale por ela. Gosta da mulher que é, tal como eu gosto da mulher que sou.

Texto publicado na edição do Expresso de 5 dezembro de 2015