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Enquanto o ouvimos as divergências não contam, senhor Sinatra

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AFP/Getty Images

Ninguém representa melhor a canção popular americana do que o intérprete de “Strangers in the Night”, “New Tork, New York” e “My Way”. Faria 100 anos no sábado se o tivéssemos por cá. Mas na verdade temo-lo. Isto é para ele e sobre ele

Luís M. Faria

Jornalista

No romance “O Padrinho”, de Mario Puzo, há um cantor chamado Johnny Fontane que é muito popular junto das adolescentes. Infelizmente, encontra-se numa fase má da sua carreira, boicotado pelos estúdios de Hollywood (nesse tempo era frequente os cantores fazerem filmes) e a caminho do esquecimento. Um papel num determinado filme importante seria a sua salvação, mas o produtor desse filme odeia-o, por questões de mulheres. Entra em cena um chefe mafioso que, por artes mafiosas, convence o produtor a dar-lhe o papel. O filme é um êxito, o ator ganha um Oscar pelo melhor papel secundário, e a sua carreira dispara de novo.

Pode ter sido ou não isso que aconteceu a Frank Sinatra. No início dos anos 50, ao aproximar-se da sua quarta década de vida, muita gente dava-o por terminado. Foi então que lhe entregaram o papel de um humilde soldado martirizado por um sargento sádico no filme “Até à Eternidade”. O filme ganhou oito Oscares, incluindo o de ator secundário para Sinatra. Nunca se provou que a máfia tivesse tido a ver com o ‘casting’ dele, mas não foi a primeira vez que esse tipo de rumor surgiu. Uma década antes, ele conseguira-se libertar misteriosamente do contrato que atribuía um terço dos seus rendimentos ao chefe da banda onde anteriormente atuara. No “Padrinho” também consta que Fontane se libertou de um contrato semelhante quando o capo Don Corleone foi ter com o chefe da banda e lhe meteu um papel à frente, informando-o de que a sua assinatura ou os seus miolos estariam lá dentro de um minuto.

Sinatra detestou o livro, e parece que chegou a confrontar o autor um dia que o encontrou num restaurante. Mas não se fazia muito rogado em conviver com gangsters. Sobretudo a partir dos anos 50, quando começou a passar muito tempo em Las Vegas, era quase inevitável que os conhecesse, até pelo facto de atuar nos casinos controlados por eles. Especialmente embaraçosa foi uma célebre fotografia em que ele aparece na companhia de Sam Giancana e outros mafiosos. Por causa dessas relações, o presidente John F. Kennedy teve de se afastar dele, apesar de Sinatra o ter apoiado na campanha e ter organizado a sua gala inaugural. Sinatra partilhava com o recém-eleito presidente a tendência para multiplicar as ligações sexuais, por vezes com mulheres ligadas a elementos da máfia. Isso era outra característica que o tornava tóxico para Robert Kennedy, o irmão do presidente e ministro da justiça, então empenhado numa campanha contra a máfia.

Salvo pela música

Sinatra nasceu a 12 de dezembro de 1915 em Hoboken (New Jersey), cidade que vê Nova Iorque na margem oposta do rio. Filho de emigrantes italianos, ela genovesa e ele siciliano, quase não sobreviveu ao parto. A mãe era parteira, o pai era bombeiro e tinha uma taberna. Foi nesta que o pequeno Francis Albert começou a cantar, com oito ou nove anos. Ao longo da adolescência teve outros empregos, por exemplo como nadador salvador, mas o sonho sempre deve ter lá estado. Um dia, ele e a namorada Nancy encontraram o cantor de tangos Carlos Gardel depois de uma atuação e pediram-lhe conselhos. Ele ouviu o jovem e aconselhou-o a continuar. Salvou-me a vida, garantiu Sinatra mais tarde. Com o seu temperamento nervoso e o seu pendor para as lutas – já o pai fora boxeur profissional – teria provavelmente acabado no crime se não fosse a música.

Quando um trio de Hoboken pôs um anúncio a pedir um cantor para uma digressão, Sinatra candidatou-se e foi escolhido. Ao fim de três meses não aguentou e voltou para casa, mas não renunciou a cantar. Depressa estava a usar o meio mais poderoso de então, a rádio, para chegar às audiências. Ao contrário de outros artistas na altura, era especialmente popular entre as adolescentes. Num concerto que deu em 1942 num teatro de Nova Iorque, houve cenas de histeria que fazem lembrar as que acompanhariam os Beatles vinte anos mais tarde.

Nessa época das grandes bandas, começou por integrar a de Harry James, e depois subiu para um nível completamente diferente com a de Tommy Dorsey. Mau-grado os problemas posteriores – o contrato atrás mencionado foi feito com Dorsey quando Sinatra deixou a banda dele para se lançar a solo; a cena da revogação também teria sido com ele – o cantor reconheceu sempre que esse músico, mestre do trompete e “gentleman sentimental do swing”, lhe ensinou mais do que qualquer outro. O perfeccionismo, o controle da respiração, a arte de controlar os tempos, foram características comuns aos dois, tal como o hábito de se apresentarem sempre imaculadamente limpos e vestidos. Sinatra gastava muito dinheiro em roupas caras, e, segundo a grande amiga Shirley McLaine, jamais andou com as unhas sujas, ao contrário de muitos dos seus colegas.

“O mais belo animal do mundo”

A música que Sinatra cantava tinha origem no jazz, mas combinando elementos do pop que então começava a tornar-se popular, e também algo da música italiana que ele conhecia e apreciava, incluindo Puccini. Essa mistura de influências ajuda a explicar a durabilidade das suas canções, muitas das quais todos nós conhecemos, às vezes mesmo sem nos darmos consciência. “Strangers in the Night”, “Something Stupid”, “New York, New York”, “My Way” (tido como autobiográfico, o que ele lamentava), “Come Fly with Me”, “It Was a Very Good Year”, “The Lady is a Tramp”, “L. A. is My Lady” e numerosos temas menos conhecidos parecem destinados a uma posteridade longa.

O período mais glorioso da carreira dele terá sido nos anos 50, quando ele gravou para a Capitol Records. São dessa década os álbuns “Songs for Young Lovers”, “Swing Easy!” e “In the Wee Small Hours”, produzidos com o lendário Nelson Riddle. Sinatra, que encarnava na perfeição o espírito do jet set, aproveitando essa primeira fase glamorosa da aviação comercial para viajar entre lugares de prazer, começou na época a dar-se com o chamado Rat Pack, o grupo de bon-vivants originalmente liderado por Humphrey Bogart e a seguir por ele próprio, do qual faziam parte os seus camaradas Dean Martin e Sammy Davis jr. Os três atuaram juntos, às vezes sem anúncio prévio, em diversos espetáculos nos anos 60.

O perfil público de Sinatra adquiriu um toque de escândalo quando ele se divorciou da primeira mulher, Nancy, e casou com a atriz Ava Gardner, apelidada de “o mais belo animal do mundo”. O casamento durou apenas de 1951 a 1957, mas os dois continuariam amigos, como aliás aconteceu com Nancy e com a esposa seguinte do cantor, a muito jovem Mia Farrow, desposada em 1964. Farrow tinha apenas 19 anos e o casamento durou pouco mais de um ano, mas Sinatra e ela manter-se-iam suficientemente próximos para o cantor disponibilizar os seus serviços quando o seu então parceiro Woody Allen iniciou uma relação com uma filha adotiva de Farrow. Sinatra ofereceu-se para mandar partir as pernas ao realizador…

Um concerto no Maracanã

Pese a ligação a um presidente que representou a esperança dos então nascentes anos 60, essa década não era realmente feita à medida para Sinatra. Ele atravessou-a como pôde, e em 1971 anunciou a sua retirada. Porém, dois escassos anos depois, estava de volta. "Ol' Blue Eyes is Back" (o velho olhos azuis regressou) dizia o título do álbum. Cantaria praticamente até morrer. Em 1980, deu um concerto lendário no estádio Maracanã (já nos anos 60 houvera um álbum com António Carlos Jobim) e no ano seguinte produziu a gala inaugural do presidente Ronald Reagan, como antes fizera com Kennedy. A sua transição política acompanhou a de muitos americanos, mas a política nunca foi o mais importante com ele. A voz, sim: um registo quente de baixo-barítono, transmitindo força e consolo, em interpretações de subtileza emocional. Enquanto a ouvimos, as divergências não contam.

Dois anos antes de Sinatra morrer, quando atravessava uma das repetidas crises de saúde que o afligiram nessa altura, este repórter ia num táxi quando uma rádio deu a notícia de que o cantor e Marcello Mastroianni estariam ambos moribundos (o ator morreu logo a seguir, Sinatra dois anos depois, em 1998). O motorista comentou: “Pelo menos esses já viveram”. Um eufemismo digno de uma canção, certamente já escrita, à qual só o fraseado de Sinatra poderá fazer justiça.