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As inquietações do locatário

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Nestes contos, Alexandre Andrade debruça-se sobre a prosa para dela arrancar a mais delicada filigrana

Nove histórias magníficas voltam a provar que Alexandre Andrade é um dos melhores contistas portugueses

Durante muito tempo, Alexandre Andrade (n. 1971) foi uma espécie de segredo partilhado por happy few, como quem esconde uma paisagem natural — tão bela quanto frágil — dos abusos associados ao turismo de massas. Após um extraordinário romance de estreia que passou escandalosamente despercebido (“Benoni”, Editorial Notícias, 1997), AA publicou um outro, divertidamente erudito, ou eruditamente divertido, em que é levado a cabo um rocambolesco assalto a certo museu de Amesterdão (“Aqui Vem o Sol”, Quasi, 2005). Recolhas de contos houve duas: “As Não-Metamorfoses” (Errata, 2004) e “Cinco Contos Sobre Fracasso e Sucesso” (Má Criação, 2005). Agora, cumprido um hiato de dez anos, compreensível em quem faz questão de se autoexcluir dos efémeros ciclos de consagração mediática, “Quartos Alugados” faz pender o equilíbrio bibliográfico para o lado das narrativas breves.

Ainda bem, apetece dizer, porque embora AA domine, como poucos, os códigos, os ritmos e os riscos da arte romanesca, é no conto que o seu valor literário atinge a mais alta expressão. Ao lermos cada uma das histórias deste volume, tão impecavelmente calibradas, tão perfeitas, tão sem mácula, surge-nos a figura do artesão que se debruça sobre a prosa para dela arrancar a mais delicada filigrana. É um trabalho de esmero, necessariamente lento, quanto mais não seja porque o seu criador, ao arrepio da vertigem contemporânea, e imune às pressões editoriais, sujeita os seus escritos ao único teste que permite separar o trigo do joio: o teste do tempo. Basta atentar na datação dos nove contos dados à estampa nesta reta final de 2015: todos foram concluídos entre 2011 e 2012, sendo que um deles teve início em 2006. Ou seja, nenhuma urgência. Apenas a sabedoria da espera.

Como o título sugere, a maior parte das personagens destes contos está sujeita a uma contingência imobiliária: a de ocuparem provisoriamente determinadas casas e assoalhadas. As personagens de AA, com os seus típicos nomes saídos de outras épocas (Berenice, Péricles, Leda, Ezequias, Ester, Minerva, Gwenaëlle), são pessoas em trânsito, gente de passagem, à procura de dar sentido a movimentos existenciais que na maior parte dos casos não têm um começo discernível, nem um fim à vista que as encaixe numa qualquer ordem lógica. Tanto nos casos em que os protagonistas se debatem, solitários, diante de mistérios que se dissipam ao mínimo sopro, como nas histórias quase corais, em que se multiplicam as figuras humanas e suas permutações afetivas, em ambiente comunitário (casas de estudantes, repúblicas coimbrãs), a arquitetura narrativa tende sempre para um estado de suspensão, uma ambiguidade tocada pela lâmina fria da ironia. Nunca nada é aquilo que parece. Nunca nada parece aquilo que é. Tudo se revela mais simples, ou mais complexo, do que julgávamos. O cerne das coisas tende a ser inapreensível, talvez mesmo incognoscível. Como os ditames do acaso que regulam os mais ínfimos cambiantes da vida.

AA é particularmente eficaz a criar climas de suspeição vaga, enigmas ameaçadores, brandas inquietações, intrigas entre amigos, conspirações furtivas, histórias que seguem o rasto de outras histórias (por exemplo, a persistência fantasmática de anteriores inquilinos, como em ‘O Mesmo Poeta’ e ‘In Absentia’). Nalguns casos, exibe apenas uma prodigiosa capacidade inventiva: veja-se a labiríntica fusão de espaços e tempos de ‘O Sul’, pequena joia que Borges ou Bioy Casares não desdenhariam; ou a Paris imaginária, banhada por um mar “acobreado” e assombrada por escritores suicidas, que encontramos em ‘Rua da Velha Lanterna’.

Paris, onde o autor viveu muitos anos, é o mais recorrente dos cenários deste livro (que também passa por Lisboa, Braga ou Tondela). Em ‘O Ramo Dourado 2012 — Uma Nova Esperança’, uma personagem olha para a capital francesa como “uma segregação do engenho humano, com as suas leis, mistérios e debilidades”, em que “tudo dependia de tudo: o principal do acessório, a grande história da pequena história, o gesto quotidiano minúsculo da tendência sociológica”. Tal e qual como estes contos inesgotáveis, acrescentamos nós.

Texto publicado na edição do Expresso de 5 dezembro de 2015

Quartos Alugados, Alexandre Andrade Exclamação, 2015, 
204 págs., €14,90

Quartos Alugados, Alexandre Andrade Exclamação, 2015, 
204 págs., €14,90