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Cães, gatos e outros bichos da nossa história

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Nos tempos de D. Manuel I, uma embaixada papal integrou, para espanto geral, um elefante e um rinoceronte. O rei D. Afonso VI teve um leão. E bem antes do Jardim Zoológico e dos gabinetes de curiosidades, os lisboetas e os estrangeiros que nos visitavam deixavam-se deslumbrar pelos animais exóticos que a casa real mantinha em Belém. Estas e outras histórias, que passam ainda pelas touradas, pelos rebanhos, pelas utilizações como força de carga, de ajuda na caça e até de companhia, fazem parte de “Animais e Companhia na História de Portugal”, um volume de 656, páginas sob coordenação de Isabel Drumond Braga e Paulo Drumond Braga, que o Círculo de Leitores agora publica.

O livro teve como fontes “um conjunto muito diversificado, que passa por processos da Inquisição, gastos da casa real, inventários de bens, inquirições, catecismos, testamentos”, explica a autora ao Expresso. As imagens, além dos documentos escritos, foram também importantes para a construção desta história. “Sobretudo a pintura, mas também alguns objetos de artes decorativas, as loiças, as tapeçarias. Muitas dessas peças têm representações de animais”.

A história da expansão portuguesa, a partir do século XV, fez com que o país fosse uma fonte importante de introdução, no mundo ocidental, de novas descrições e imagens de animais de outras geografias. “Era aquilo a que Garcia de Resende chamava as novas novidades”, explica Isabel Drumond Braga. E nessa altura muitas informações “chegaram efetivamente à Europa através de portugueses e castelhanos”. Passou a haver “acesso a um conjunto de espécies já conhecidas na antiguidade e que, depois, caíram em esquecimento”, acrescenta. Há então “um particular encanto pela diferença, pelos felinos, pelas zebras, que alguns comparavam com os burros, mas mais gentis, por causa das riscas”... Nos reinados de D. José e D. Maria I surge depois em Belém, o Pátio dos Bichos, “que tinha felinos, zebras, muitos pássaros exóticos” e dessa altura há informação “dos gastos da casa real com os tratadores e alimentos dos bichos”. Curiosamente, a toponímia da zona ainda ecoa memórias desse antepassado do Jardim Zoológico.

Falando das relações com os cães e gatos, a coordenadora do livro conta que “começaram por ser muito interesseiras por parte dos humanos”, com os cães para ajudar na caça e servir de guarda aos rebanhos e os gatos para apanhar os ratos. E “tanto havia ratos no palácio real como nas prisões”, lembra. As relações mais afetivas começam mais tarde, “talvez só no século XVIII”, em primeiro lugar com os cães e só depois com os gatos.

As touradas passam também pela história que o livro conta, lembrando, por um lado, que houve reis que foram toureiros — como D. Sebastião, D. Pedro II e D. Miguel —, mas também que o debate ético que levanta não é realidade dos nossos tempos e vem até do século XIX. Havia já nessa altura uma organização que lutava pela defesa dos animais “inspirada noutras que havia na Europa”, como conta Paulo Drumond Braga. O livro inclui ainda uma parte dedicada às representações de animais em várias frentes da criação artística portuguesa, passando pela literatura e as artes visuais.