Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

“Quero criar o partido da abstenção!”

  • 333

Manuel João Vieira

nuno botelho

Manuel João Vieira acaba de inaugurar o Maxime Sur Mer num armazém do Cais do Sodré, em Lisboa. O artista fala deste novo palco, da sua candidatura à Presidência e de vícios

Bernardo Mendonça

Bernardo Mendonça

Texto

Jornalista

Nuno Botelho

Nuno Botelho

Fotos

Fotojornalista

Se Manuel João não pode ir ao Maxime, um novo Maxime vem ter a Manuel João. Fazia falta um cabaré moderno em Lisboa?
Fazia falta um espaço com dimensões médias em Lisboa, para que as bandas possam vir e ter algum retorno. Não há nenhum bar assim como este na capital. Não existe. Os espaços que existem são muito grandes ou muito pequenos. Por outro lado, sinto que cada vez mais a noite é feita à base de DJ. E, para mim, a componente cénica, de espetáculo, de música ao vivo, em que vemos as pessoas a fazerem uma performance, é muito importante. E poderão encontrar isso neste lugar, que tem uma lotação de 500 pessoas e que acusticamente funciona bem. O palco tem duas asas que são o bar, assim os artistas podem ocupar o espaço de balcão. E a disposição do sítio é ótima, à beira-Tejo. Estamos a pensar criar uma esplanada para se poder beber um copo ao fim da tarde.

O que se passou com o velho Maxime, na Praça da Alegria, em Lisboa?
Vai ser um hotel. Entre outras coisas, o que se passou foi que o contrato de cinco anos acabou. Tenho muita pena. E não se sabe o que foi feito de todo o equipamento e mobiliário que havia lá dentro. O Bruno Almeida está a realizar um filme sobre os velhos cabarés e a sua substituição por hotéis e espaços assim. Tal como o velho Maxime, há outros espaços a que se devia dar mais atenção a nível cultural antes que desapareçam. A verdade é que a autarquia tem elefantes maiores com que se preocupar, mas nós temos uma cidade maravilhosa, neste momento há muito turismo, e é errado matar a galinha dos ovos de ouro.

O que podemos esperar deste novo Maxime Sur Mer? Manter-se-á com a programação do Maxime original, que navegava entre o strip burlesco e os melhores projetos de pop, rock e jazz?
Sim. Mas, atenção, o espaço fisicamente não tem nada a ver com o anterior... embora eu vá colocar umas cortinas vermelhas atrás do bar. Por outro lado, há uma enorme décalage entre o fim do outro Maxime, que ocorreu há quatro anos, e as novas realidades e movimentos da noite lisboeta. Muita coisa mudou. O que eu gostava era que, de vez em quando, acontecessem no meu espaço momentos inesperados no meio de momentos esperados, como estar a tocar uma banda de death punk e de repente aparecer uma Julie Andrews pelo meio a cantar uma canção acompanhada por um violoncelista. Esta é uma ideia. Anjos a voar é outra. É nesse tipo de dinâmicas mais perto do absurdo e do impossível que gosto de me inspirar. Mais uma vez, o que me interessa são as pequenas e as grandes performances. No antigo Maxime reintroduzimos o José Cid na música portuguesa. E fomos mais longe, chamámos o António Calvário ou o Vítor Espadinha. Interessam-me também as pequenas relíquias musicais que andam desaparecidas em bares de casinos e hotéis. Estou à procura dessas bandas de ambiente de outros tempos. Quero fazer uma ligação do tempo antigo com este.

Os Enapá 2000 e os Irmãos Catita foram uma lufada de ar fresco na música portuguesa dos anos 90 por via do humor. Mas esses projetos deixaram de representar uma novidade. Estar tanto tempo a cantar o mesmo tipo de temas não o cansa?
Não. Nunca me cansa. O que acho é que tem de ser doseado. Não posso estar a tocar aqui todos os dias com uma banda de macacos, tipo banda da casa ou de hotel. Embora isso possa ser feito de forma concentrada com uma menina de patins a servir. E acabo de lançar um novo disco dos Irmãos Catita que correu muito bem.

Tem vontade de se lançar num novo projeto musical?
Sim. Estou a pensar fazer um projeto a solo onde não entrarão palavras vulgares e obscenas nas canções. É algo que nunca fiz. Interessa-me fazer o exercício de não dizer ‘caralhadas’ nas minhas músicas. Quero ver o que acontece. As simples canções de amor servem. Mas agora tenho umas exposiçõezinhas para fazer, tenho este bar para acabar. Queria editar um disco do Candidato Vieira feito em casa, com quatro canções, para dar às pessoas. O que pretendo fazer agora é trabalhar as músicas como uma pintura, com calma. As letras serão minhas e do Fernando Brito.

Foi com toda a pompa, a bordo de uma caravela, que anunciou a sua candidatura à Presidência da República com a mesma rábula de sempre: “Só desisto se for eleito.” O que pretende, afinal, com este boneco, o Candidato Vieira? Ter mais um palco?
Acho que a caricatura fala sempre de verdades por via do humor e da ironia. E de facto tive muito mais palco quando surgi a primeira vez como Candidato Vieira e quando não havia estes 22 candidatos. Interesso-me pela política e pelas situações do país e, de vez em quando, gosto de fazer uma pequena incursão por estes meandros. Obviamente que a bola está um bocado do lado dos portugueses, porque eles têm acesso ao site onde estão todos os documentos necessários para tratarem de apoiar as minhas propostas. Eu não tenho dinheiro para pagar uma estrutura que me arranje as tais 7500 assinaturas nem tenho um partido. Se bem que da primeira vez quase arranjámos essa quantidade. Até tínhamos mais do que 7500, o problema é que não estavam reconhecidas pelas juntas de freguesia. Porque fizemos as recolhas em concertos ao vivo para estudantes. Éramos três pessoas a tratar disso. Se tal não acontecer, há uma solução, que me parece a mais viável, que é criar um partido. Porque aí posso reunir assinaturas calmamente durante uns anos.

Como se chamaria esse partido?
Quero criar o PA, Partido da Abstenção. A ideia é trazer os abstencionistas para a democracia e dar-lhes uma cor e um significado.

Estava agora a beber um refrigerante, após uma noite bem regada. Como faz essa gestão?
Pá, a melhor maneira de beber é não beber. Às vezes, é difícil, a pessoa vai embalada... Há regras como beber água entre as bebidas alcoólicas ou não beber mais do que duas vezes por semana. Tem de ser. A história do farrapo humano não me interessa muito. Com todo o respeito por muitas pessoas que caíram nos vícios. É complicado. E o álcool é uma coisa muito afetiva. Há que manter um certo equilíbrio.

Texto publicado na edição do Expresso de 5 dezembro 2015