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Marine Le Pen não foi aos U2 em Paris

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Benoit Tessier/reuters

O diretor-adjunto do Expresso e diretor do Blitz, Miguel Cadete, foi a Paris assistir ao concerto de uma das maiores bandas do planeta. Concerto que tinha sido adiado na sequência dos atentados terroristas

Miguel Cadete

Miguel Cadete

Em Paris

Diretor-Adjunto

Paris, 21h24. A arena de Bercy está completamente cheia. No site oficial diz-se que a sua capacidade pode ir até vinte mil espectadores. Não serão muito menos aqueles que ontem lá estavam para assistir ao regresso dos U2 à capital francesa. Na maior sala de espectáculos de Paris ouve-se então uma explosão ensurdecedora. Nada de mais, era só o momento em que a apresentação dos U2 passava da parte da Inocência, com que começa, para o capítulo da Experiência, com que termina. Um estrondo que porém não passou despercebido a todos os que ali estavam. Afinal, os U2 voltaram ali porque 23 dias antes morreram 132 “parisienses” durante os atentados de 13 de novembro. 89 foram assassinados por terroristas numa sala de concertos como aquela que apesar dos seus 151 anos de existência, irá ficar como o lugar da maior carnificina da história da música rock.

Os U2 cancelaram então os dois espectáculos que iriam acontecer nos dias imediatos aos atentados de Paris. E voltaram a agendá-los para ontem e para hoje à noite. A “soirée” estava, logo por aí, marcada pelos trágicos acontecimentos de 13 de novembro. Mas havia mais. A explosão aterrorizadora que se ouve a meio do concerto dos U2 marca o início da interpretação de uma das suas mais recentes canções, incluídas no álbum “Songs of Innocence”, publicado já lá vai um ano. Essa canção, “Raised by Wolves”, teve vídeo-clip realizado por Vhils e é a mais abertamente política do álbum. Fala de um ataque terrorista em Dublin, corria o ano de 1974. Bono tinha 14 anos e, diz, não estava no local do ataque porque naquele dia houve uma greve de autocarros e foi de bicicleta para a escola. Estavam alguns dos seus amigos e a letra, onde se pode ler um relato poético de um mar de sangue inclui a, agora ainda mais conhecida, expressão “stronger than fear”. Fala da “sorte” de não se ter estado no sítio errado à hora errada e de como podia ser qualquer outra pessoa. Aí morreu um dos amigos do vocalista dos U2. Mas podia ser ele. Como em Paris. Afinal podia ser qualquer um de nós. No ecrã gigante, certamente com 29 metros de comprimento passavam fotografias das 33 vítimas de Dublin. “Justice for the forgotten” podia ler-se. (Alguma controvérsia sucedeu quando no passado mês os U2 atuaram em Belfast e mantiveram incólume esta parte do espectáculo.) No fim ouviu-se o Salmo 23. Sim, dito pelo próprio Bono.

REUTERS/Benoit Tessier

Entre a missa e o comício

Numa entrevista publicada a 2 de dezembro no “New York Times”, Bono explica que “Raised by Wolves” tem uma consequência: “Na Irlanda já sabemos que não nos podemos tornar um mostro para aniquilar outro monstro”. E acrescentou: “o ISIS e estes cultos extremistas praticam o culto da morte. Nós somos o culto da vida. O rock’n’roll é uma força da vida e é alegria enquanto gesto desafiante”. Se isto explicava por si que os U2 fossem a primeira banda a regressar a Paris depois dos atentados, também implicava o que sucedeu na primeira canção do encore, “City of Blinding Lights”. Foi o tempo em que Bono gritou “Vive la France”, e fez a apologia da nação francesa: “Liberté, Egalité, Fraternité”. Mas foi também o episódio que gerou maior comoção quando no mega ecrã surgiram os nomes de todos os que morreram nos atentados de 13 de novembro por cima das três cores da bandeira. Como é costume nesta digressão, os U2 juntam às suas próprias canções, letras e excertos de músicas de outros. A escolha de “Ne Me Quittes Pas”, popularizada por Jacques Brel, teve aqui um significado óbvio mas mesmo assim devastador.

A música dos U2 tem, ao contrário da carreira dos Rolling Stones, por exemplo, um significado político que escapa a quem é atribuído o estatuto de porta-estandarte do rock’n’roll. Não só devido às letras e às tomadas de posição mas muito em particular devido às ações do seu vocalista. E em política o que parece nem sempre é. Nesse caso, os U2 deram uma resposta muito clara a essa questão durante o concerto de domingo à noite: sim e não. O dia de ontem era de eleições em França. E quando os U2 subiram ao palco, já passava quase mais de uma hora da hora marcada, eram conhecidos os resultados. Pela primeira vez, a Frente Nacional de Marine Le Pen era o partido mais votado.

Aqui vale a pena recordar que o dia em que os U2 passaram a ser um projecto à escala global foi o dia do Live Aid. Foi quando Bono chamou para o palco uma rapariga negra cujo nome não lembro mas que ofereceu um lugar aos U2 na história da música rock. Ontem coube a vez a Brigitte. De amarelo vestida, ela dançou com todos os quatro U2 o que nenhum deles sabia dançar (ou podia) dançar tendo “Misterious Ways” como banda sonora. Já estávamos na segunda parte do concerto: Bono quase se transformava no mefistofélico McPhisto no enleio dançante de Brigitte, a quem ofereceu um telemóvel para filmar e projectar no ecrã tudo o que bem lhe apetecesse. Tinha-se perdido a inocência. Mas ganhou-se humor: “Mirror, mirrorball / oh Bono, you’re so blonde and tall” foi um dos apartes que o vocalista meteu, referindo-se à sua nova cor de cabelo e à sua lendária estatura meã.

Jovens e emocionados

Como em todos os outros 74 concertos desta digressão, o alinhamento começou com “The Miracle (of Joey Ramone)”. Mas os U2 mostraram que queriam proporcionar uma noite especial, sobretudo pela tensão no ar. O baixista Adam Clayton tinha dito, um dia antes, num vídeo colocado no Facebook, que a noite poderia ser mágica. Mas era o guitarrista The Edge quem se mostrava mais eufórico. Em especial quando os U2 tocaram duas canções do início da sua carreira, “Out of Control”, o primeiro single, e “I Will Follow”, do primeiro álbum, “Boy”. Nessa altura, a plateia já estava inundada de t-shirts, edição especial Paris 2015, com o rapaz da capa do ´primeiro e terceiro álbum dos U2 a empunhar uma bandeira francesa. Sobre a t-shirt escreveram “Nous n’avons pas peur” a letras vermelhas. Foi o pedaço de concerto com maior entrega e, diria, alegria, até chegarmos a “Raised by Wolves”. Imediatamente antes, a versão de “Sunday Bloody Sunday”, um dos maiores hinos dos U2, deixava o bombo do costume para o substituir por uma tarola em ritmo de marcha fúnebre. Bono estava no ponto para iniciar um autêntico comício. “No more war, no more” gritou.

Como num dos concertos de Londres, os U2 tiveram em Paris uma convidada especial. Patti Smith voltou para cantar “Gloria” e, claro, acabar tudo com “People Have the Power”. O mesmo povo que havia votado maioritariamente em Le Pen acabava a noite de punho erguido. Era o remate de uma actuação com inúmeras referências políticas, não só na escolha das canções como nos interlúdios de Bono.

REUTERS/Benoit Tessier

Luther King, Nelson Mandela e Stephen Hawking

Em “Pride”, dedicado a Martin Luther King”, respondia ao coro com “cantem pelos fazedores de paz na Síria; cantem pelo fazedores de paz no vosso bairro!” Para continuar, “eu sei bem o que quero, um sítio a que chamo lar, um sítio seguro onde se acredita na liberdade, igualdade, fraternidade. Como aqui agora mesmo”. O público todo aplaudia.
Também ficaram dúvidas quando, em “Zooropa”, o vocalista dos U2 perguntou “querem uma Europa aberta ou uma Europa fechada à misericórdia e à compaixão?” Palavras de ordem não faltaram. Nem vídeos, como um dedicado a provar que a terra é redonda, com a voz off de Stephen Hawking, o físico. Acabe com a hashtag #refugeeswelcome.

Anteontem, passaram dois anos desde que morreu Nelson Mandela. E Bono recuperou para o alinhamento “Ordinary Love”, dedicado a este fazedor de paz, de uma “moralidade global” nascido na África do Sul. Ou quando em modo claramente evangélico profetizou “nós não vos podemos salvar, mas a nossa oração desta noite vai vos ser útil”. Aqui vale a pena voltar à entrevista com Fareed Zakariah, transmitida na CNN, na véspera do regresso a Paris. Aquela em que Bono revela a letra de uma nova canção inspirada nos atentados de Paris. Quando um dos politólogos mais influentes do mundo lhe pergunta algo relacionado com o início da carreira dos U2, Bono responde “nós só queríamos ser úteis”. “Nós só queríamos que a vida real das pessoas estivesse nas nossas canções”. Útil é o significado que Bono encontrou para caridade. Afinal a virtude teologal mais querida do cristianismo, “o vínculo da perfeição”.

No domingo, o concerto dos U2 não foi perfeito. Mas esteve perto, não fosse o nervosismo de todos: espectadores e banda incluída. Se foi eficaz como ação de protesto contra os atentados do Daesh, é difícil ajuizar. Paris, ou o público que lá esteve gostou muito e saíu saciado. Os U2 lamberam as feridas à capital da França. E Le Pen não estava lá.