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A dama do falcão

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A prosa de Helen Macdonald oscila entre elegância e crueza, sempre na fronteira entre o que é humano e o que é selvagem

luís barra

No seu premiadíssimo livro sobre o luto e a vida com uma ave de rapina, Helen Macdonald conseguiu criar um pequeno milagre literário

Quando em março de 2007 o pai morreu, de forma repentina, Helen Macdonald sentiu o seu mundo colapsar. Em estado de choque, mergulhou de cabeça no torpor do luto. Durante semanas, sentiu que era feita de “metal a arder em fogo brando”. Fotógrafo de imprensa, Alisdair Macdonald fora sempre uma espécie de farol, o melhor amigo, o companheiro que desde cedo a levou em surtidas na natureza, para observar aves de rapina (ela) e aviões (ele). Particularmente fragilizada, sem namorado, nem filhos, nem um emprego fixo, Helen decidiu comprar um açor e treiná-lo sozinha, afastando-se cada vez mais dos amigos e do contacto com o mundo. O açor, uma espécie de falcão especialmente bravio, agreste, dificílimo de domar, foi mais do que um desafio que se impôs. Aos poucos, transformou-se num espelho, numa materialização do seu abismo interior, o objeto de uma luta pessoal para sair das “ruínas”.

A experiência desses duros meses de reclusão e autodescoberta, dessa longa travessia, é a matéria-prima de “A de Açor”, o livro que a catapultou para uma inesperada consagração internacional. Inesperada porque se trata de uma obra atípica, estranha, inclassificável, um híbrido de vários géneros. Cruza memória pessoal do luto e escrita sobre a natureza (descrevendo minuciosamente o processo de domar Mabel, a jovem cria de açor, num registo por vezes técnico e cheio de vocabulário específico da falcoaria), com frequentes derivas para o campo do ensaio literário, ao convocar amiúde a figura do escritor T. H. White, os seus livros e aspetos da sua tormentosa existência, marcada pelo facto de ser um homossexual reprimido na puritana sociedade inglesa do início do século XX.

Também poeta, Helen escreve numa prosa que oscila entre a elegância e a crueza, entre o vigor de uma observação fascinada do mundo natural, a fervilhar de uma energia selvagem, e a delicadeza contida de quem caminha em bicos dos pés, tentando não se afundar nos meandros psicológicos da perda. O maior triunfo do livro está no modo como coexistem, organicamente, os vários registos que convoca. Para o leitor, vencido um efeito inicial de estranheza, é difícil não sucumbir ao apelo de uma escrita belíssima, posta ao serviço de uma história de superação pessoal que nunca esconde as suas arestas e cicatrizes. Algumas dessas cicatrizes persistem, sob a forma de “ténues linhas brancas” deixadas pelas garras de Mabel na pele muito branca de Helen.

“Estarão sempre aqui”, diz a escritora, enquanto agita as mãos no ar. “É uma forma de linguagem, escrita em ti. A manifestação visível do sofrimento que senti naquele ano.” À conversa num bar de hotel, em Lisboa, Helen apressa-se a desdramatizar: “Eu agora sou uma pessoa feliz. Vesti-me de preto, mas estou OK.” Mais do que OK, apetece dizer. Publicado em 2014, “A de Açor” (“H is for Hawk”) foi finalista de quatro prémios literários e venceu dois deles: o Samuel Johnson Prize for Non Fiction e o Costa Book of the Year Award, dos mais prestigiados no mundo literário de língua inglesa. Além disso, recebeu críticas ditirâmbicas na imprensa de referência, tanto no Reino Unido como nos EUA.

Helen ainda se está a habituar à súbita consagração. “Para mim, foi um choque. Uma surpresa completa. E tenho andado num tal corrupio, entre viagens, entrevistas, debates e comunicações públicas, que ainda mal tive tempo para me beliscar, a ver se isto é mesmo verdade, se está mesmo a acontecer.” O sucesso bateu-lhe à porta e ela não se queixa, bem pelo contrário, mas por vezes sente falta da solidão e do anonimato: “Nos últimos tempos, deixei de ter disponibilidade para ver os meus amigos, ou observar aves na natureza.” Não espanta por isso que tenha ficado eufórica com a oportunidade de visitar a reserva natural do estuário do Tejo, na véspera da entrevista. “Havia flamingos, cegonhas, maçaricos-de-bico-direito, tantas aves diferentes. Foi perfeito.”

O livro levou-lhe um ano e meio de escrita a tempo inteiro, mas só foi capaz de o começar quando sentiu a necessária distância emocional em relação aos factos que narrava. Tentou algumas vezes mas logo se apercebia que era cedo demais. “Precisava de me reconstruir primeiro.” Daí o hiato de cinco anos. “Precisei desse tempo, desse intervalo. Julgo que há dois tipos de livros sobre o luto: os que são escritos dentro do luto, durante o processo (como ‘O Ano do Pensamento Mágico’, de Joan Didion, que é um livro extraordinário); e depois há os que só podem ser escritos mais tarde. No meu caso, precisava de me tornar uma pessoa diferente daquela personagem que sou eu no livro.”

Tudo começou com um diário, iniciado logo após a morte do pai. “Nessa altura, ainda não havia uma história para contar. Eu queria apenas voltar a coser o mundo que se tinha despedaçado à minha volta, dar-lhe uma ordem, um qualquer sentido.” Não imaginava que estivesse ali o embrião de um livro. Mas quando começou a criar o açor, e viveu as várias crises de uma relação tensa, percebeu que existia ali “uma história que era maior do que eu”. Ou seja, a história antiquíssima do ritual de passagem, da superação de uma etapa difícil da vida. “Uma narrativa sobre ficar perdido e depois encontrar, aos poucos, o caminho para casa.”

O mais difícil, admite Helen, foi encontrar o tom certo na escrita. “Preocupo-me muito com a linguagem, com as questões estilísticas. O tamanho das frases, por exemplo. Quando falo do açor, tento reproduzir um mundo que é uma sucessão de instantes, sem passado nem futuro, em que só conta o agora, o presente. Porque é assim que funciona o açor. Nessas passagens, usei frases curtíssimas e sujeitei a gramática a coisas terríveis. Depois há partes quase bíblicas, com frases que nunca mais acabam, e fi-lo para captar outra coisa, as sinuosidades do meu pensamento, aquela procura de destrinçar o que é ser humano e o que é ser selvagem.” Por fim, há as secções sobre T. H. White, que foram ganhando importância à medida que descobria alguns segredos e aspetos obscuros da personalidade do escritor, nomeadamente ao ler os seus diários inéditos, guardados na Universidade de Houston. “Comecei a ficar assombrada pela sua história. Ele também escreveu um livro sobre a tentativa de domar um açor, que no caso dele acabou mal. Foi uma obra que me marcou muito na infância e à qual voltei, mergulhando a fundo. De certa forma, eu e ele cometemos o mesmo erro: ver na natureza um reflexo de nós mesmos. Tal como eu projetei no açor o meu sofrimento psicológico, ele viu no açor uma representação dos seus demónios interiores.”

A rapariguinha que cuidou da sua primeira ave de rapina aos 12 anos (um francelho), chegou a viver da falcoaria, trabalhando em criação de falcões nos Emirados Árabes Unidos, mas neste momento dá aulas no Departamento de História e Filosofia da Ciência da Universidade de Cambridge. Mabel, a personagem central de “A de Açor”, morreu, vítima de uma infeção, já depois de Helen a ter oferecido a um amigo, porque não a podia manter. “Agora tenho um papagaio, mas calma, não tenciono escrever um livro intitulado ‘P de Papagaio’. Seria um erro.” Consciente de que o sucesso talvez seja irrepetível, Helen sorri, tranquila. “Não me angustia nada que o próximo livro tenha um percurso mais discreto. Até pode ser libertador.”

Texto publicado na edição do Expresso de 28 novembro 2015

A de Açor, Helen Macdonald, Lua de Papel, 2015, tradução de Ana Falcão Bastos, 340 págs., €16,50

A de Açor, Helen Macdonald, Lua de Papel, 2015, tradução de Ana Falcão Bastos, 340 págs., €16,50