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O pior dos crimes é servir vinho mau ou escrever romances que não falam do país?

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Solar do Vinho do Dão, em Viseu

D.R.

Na coração da Beira, um encontro literário em contexto vinícola explorou questões como estas

Luís M. Faria

Jornalista

Perdigão perdeu a pena, mas agora recuperou-a - e com ele outros desditados que por acaso tenham o nome de uma quinta no Dão. A pena esteve durante o fim de semana em Viseu, multiplicada por vinte. Foram os participantes num encontro literário que este ano, pela primeira vez, acompanhou um dos principais eventos com que a cidade promove o vinho da região. O “Vinhos de Inverno”, concebido segundo um modelo francês, já tinha a degustação, as provas de vinho, a sala com lareira. Tinha espectáculos, workshops e até uma taberna. Nesta segunda edição, acrescentou a literatura, chamando “Tinto No Branco” a essa parte do evento.

O ambiente no Solar do Vinho do Dão era um pouco mais avivado - barulhento, mesmo - do que o normal nos festivais literários. Não será fácil discutir regionalismo & universalidade enquanto na sala ao lado a multidão conversa e uma orquestra toca jazz. Muito menos quando a porta fica aberta. Mas é da natureza deste género de evento deixar as pessoas circularem, e os participantes fizeram em geral o que se esperava deles. À parte um ou outro que se esqueceram dos temas em debate e falaram quase só do que queriam falar (problemas de escritores, justos lamentos), conseguiu-se dizer e ouvir algo sobre um certo número de questões magnas.

Cada debate tinha por mote uma frase de Aquilino Ribeiro, escritor que Viseu anda a tentar ajudar a "desempacotar", conforme explicou um responsável camarário. As frases não eram todas igualmente fáceis de glosar pelos vários participantes. Se algumas pareciam diretas ("O pior dos crimes é servir vinho mau..."; "O português nunca aprendeu outra coisa que não fosse rezar"), outras soavam bastante vagas ("Os meus assuntos vou buscá-los à história natural, racionalizando-os"), criando uma óbvia dificuldade que requeria bagagem literária, mas também jogo de cintura. A curta duração das conversas, obrigando à concisão, acabou por ser uma aliada, e os cálices de vinho que se viam nas mesas não devem ter prejudicado.

A literatura que fala, ou não, do país

Logo o primeiro debate, com Francisco José Viegas, José Manuel Fajardo e Manuel Carvalho, suscitou uma discussão interessante que fez refletir sobre as fronteiras entre vários tipos de escrita e sobre os motivos por que lemos. Esses temas seriam retomadas no dia seguinte por Fernando Dacosta e Patrícia Reis, com o primeiro a lembrar que os bons romances são mais escrita do que história (Saramago dixit) e a segunda a deplorar a relativa marginalização das mulheres escritoras, incluindo nos encontros literários. Uma constatação que nem a sua própria presença, e a de Diana Barroqueiro no dia seguinte – numa sessão com Pedro Almeida Vieira, outro romancista que se tem ocupado de personagens históricos – de modo algum bastou para desmentir.

Num encontro sob a tutela simbólica de Aquilino, tinha de se falar do cosmopolitanismo obsessivo e do que ele pode roubar à literatura. Coube esse debate a Alberto Santos, Manuel da Silva Ramos e João Luís Oliva. O que dantes era o francesismo – uma imitação mais ou menos desnaturada de modelos estrangeiros – parece ser agora a moda de imitar os “anglo-saxónicos”. Adotar o mercado como estímulo dominante pode levar a esquecer ou desprezar o próprio país do autor. Diversos autores exprimiram versões desta ideia ao longo do festival, embora um ou outro pudessem ser culpados desse mesmo pecado. A conversa final, entre Bruno Vieira Amaral e Karla Suarez, foi sobre um tema nominalmente diferente – a religião, formas seculares incluídas – mas no fundo nunca se andou longe dos mesmos eixos.

Pintar com vinho e café

Os debates estiveram normalmente cheios. Além deles, a agenda tinha espaço para uma mão-cheia de sessões musicais, jogos (um “blind date literário”), uma sessão chamada Poesia no Quarto Escuro, outras de magia. Paulo Galindro, ilustrador de vários livros em colaboração com escritores (o último é o belo “Uma Noite Caiu uma Estrela”, com David Machado) mostrou às crianças a arte de pintar utilizando vinho e café. Outro ilustrador e também escritor, Afonso Cruz, apresentou uma exposição bastante elogiada de retratos de escritores.

O resto foi o vinho. Paulo Moreiras, autor de “Pão & Vinho”, revisitou a sua mitologia e história numa conferência à lareira, mas o essencial estava lá fora, nas mesas rodeadas de famílias bem vestidas e animadas onde as várias marcas apresentavam os seus produtos. Sobre estes, um repórter analfabeto na matéria apenas pode dizer que o que provou lhe pareceu extremamente fino. Mais nada. A não ser, de facto, que o Perdigão lá estava, a par com muitos outros, entre tintos, brancos, espumantes, Rosé…