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Um clássico que nos prepara para o Natal

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O protagonista da história visto por Blake, antes da sua conversão ao espírito natalício

A obra universalmente aclamada de Charles Dickens revisitada com a ajuda de ilustrações do mestre Quentin Blake

O Advento chega todos os anos e nunca de surpresa. Para os cristãos ocidentais, começa no domingo mais perto do dia de Santo André, que hoje se assinala. Ou seja, o Advento de 2015 começou ontem. Período que abre o ano litúrgico e que se pretende que prepare as almas para o nascimento de Jesus Cristo, marca também o momento em que o autor não-religioso destas linhas julga legítimo celebrar o Natal, o que faz copiosamente. Antes disso, desculparão, mas cheira a comércio.

Até ao próximo dia 25 abrir-se-ão janelinhas dos calendários de Advento, enfeitar-se-ão casas e ruas, ouvir-se-ão cânticos da época, provar-se-ão sonhos, bolos-rei, fatias douradas e coscorões e comprar-se-ão, inevitavelmente, presentes. Que se leiam, também, obras alusivas ao Natal é a ideia que trazemos neste início da contagem decrescente. Nelas estão, não raro, plasmados valores que, mais do que o furor publicitário e materialista, devem marcar o espírito deste tempo.

Do muito que já se escreveu sobre a quadra, “Um cântico de Natal” de Charles Dickens é das histórias mais emblemáticas. Surgida em Londres a 19 de dezembro de 1843, com o título “A Christmas Carol. In Prose. Being a Ghost Story of Christmas”, a novela conta a epifania do avarento – em termos materiais e afetivos – Ebenezer Scrooge ao ser visitado, certa consoada, por fantasmas que representam o Natal passado, presente e futuro. Terá sido inspirada por uma visita à cidade industrial de Manchester.

Obra imbuída de forte consciência social (a ideia inicial era um panfleto), nunca deixou os escaparates e foi adaptada “n” vezes à radio, palco e cinema (com Scrooge encarnado ou vozeado por Orsol Welles, Marcel Marceau, Michael Caine com os Marretas,Tio Patinhas ou Jim Carrey). Se a trazemos de volta é porque ressurge numa edição enriquecida pelas ilustrações do magistral Quentin Blake, conhecido por dar traço e cor às obras de outro grande escritor britânico para todas as idades, Roald Dahl.

 Foi nos 150 anos do clássico que Blake começou por desenhar “Um cântico de Natal”

Foi nos 150 anos do clássico que Blake começou por desenhar “Um cântico de Natal”

A obra e a vida

A dias de fazer 83 anos, Blake é um ilustrador premiado e feito cavaleiro pela rainha Isabel II. Além de ilustrar, escreve livros para crianças, tendo ganho o prestigioso prémio Hans Christian Andersen de literatura infantil em 2002. Estreou-se na revista satírica “Punch” aos 16 anos, estudou em Cambridge e ilustrou mais de 300 livros infantis (18 deles de Dahl), tendo 35 de sua lavra. Também apresentou programas na BBC, fez trabalho humanitário e lutou por valores como os que o livro de Dickens promove.

Blake, cujo estilo irreverente condiz na perfeição com os contos nada ortodoxos de Dahl, dá nova vida ao texto intemporal de Dickens. Fê-lo pela primeira vez em 1993, numa série de selos para comemorar o 150.º aniversário de “Um cântico de Natal”, colocando nas formas com que deu corpo a Scrooge, ao seu empregado Bob Cratchit e ao filho deste, o doente Tiny Tim, todo o conteúdo da personalidade que o seu criador lhes quis dar. Dá para imaginar um desenho animado.

Na génese desta obra estiveram, além do que Dickens via e que o revoltava na sua Inglaterra natal, a vida do próprio escritor, que ensaiara linhas narrativas parecidas em obras como “The Pickwick Papers”. Vão das memórias de infância à relação atribulada com o pai, à preocupação com a educação e à recuperação vitoriana de tradições de Natal. Que cada leitor encontre pontos de encontro entre esta obra – ou toda esta quadra – e a sua vida é o voto que deixamos neste arranque de temporada.