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EXPERIMENTA Dos clássicos aos contemporâneos, o design revela-se em Matosinhos

lucília monteiro

Experimenta faz do design uma festa visual e constrói em Matosinhos uma viagem singular sobre o modo como nas últimas décadas foi vivenciada em Portugal a forma e a função dos objetos

Valdemar Cruz

Valdemar Cruz

Texto

Jornalista

Lucília Monteiro

Lucília Monteiro

Fotos

Fotojornalista

Esmagada pelo seu próprio gigantismo, a exposição “Desejo, tensão, transição - Percurso do design português”, presente na Galeria Nave, na cave da Câmara Municipal de Matosinhos, e organizada no âmbito da Experimenta Design 2015 (EXD'15), propõe um percurso com carga antológica pelas diferentes áreas do design desenvolvidas em Portugal ao longo do século XX e nestes primeiros anos do século XXI.

Fá-lo como resultado das opções dos diferentes curadores e, nesse sentido, proporciona uma curiosa viagem por muito do que de bom, às vezes apenas interessante, por vezes nem tanto, tem sido feito em áreas como a componente editorial, a produção de mobiliário e outros objetos, tudo reunido no espaço de uma galeria que, não obstante dispor de uma área generosa, se revela exígua para acolher tanta diversidade e tantas propostas.

Essa será uma das lacunas maiores de uma mostra onde se cruzam as propostas de design, atuais ou mais antigas, assinadas por nomes maiores da chamada Escola de arquitetura do Porto, com passagem por objetos nos quais forma e função se confundem num aliciante desafio sobre os limites do design.

É, por isso, estimulante a abertura da mostra, intitulada “Brincadeira com função”, onde se reúnem projetos de produção contemporânea marcados pela singularidade de, através deles, os designers terem procurado novas formas de interpretação. O resultado é um questionamento da funcionalidade e dos modos de uso, a que não é alheio um frequente recurso ao humor, seja pelas formas surpreendentes assumidas por cadeiras ou bancos, pelos inesperados contornos de candeeiros ou garrafas, ou até pelo inesperado galo de Barcelos com assinatura de Tomás Taveira e datado de 1989.

A mostra abre com a secção “Brincadeira com Função”

A mostra abre com a secção “Brincadeira com Função”

LUCÍLIA MONTEIRO

Logo de seguida, o percurso expositivo revela-nos o mundo criativo contido no arquivo da Fábrica de Cerâmica de Sacavém. Sobressai a forte componente geométrica, o laborioso encadeamento das cores naquela viagem aos desenhos originais dos quais resultaram as peças que celebrizaram a Fábrica.

Portugal viveu durante muitos anos sob o domínio da política do espírito, tão do agrado de António Ferro. Pequeno nas suas dimensões, este núcleo expositivo abre portas para um eventual e futuro aprofundamento da investigação sobre as ligações entre design e política no período do Estado Novo, em particular entre 1933 e 1950. Faz-se ali uma abordagem crítica da exposição “Catorze anos de Política do Espírito (SNI, 1948)” e procede-se à apresentação da produção gráfica ligadas às áreas de atuação do Secretariado Nacional da Informação (SNI). O foco vai para as artes gráficas, o cinema, a etnografia, o folclore ou “o teatro do povo e para o povo”.

Pode ver-se ali um número comemorativo do Ano X da Revolução nacional, feito em 1936 pelo “Diário da Manhã”, o livrinho de António Ferro intitulado “Dez anos de política do espírito”, 1933-1943, Secretariado da Propaganda Nacional, o catálogo de Portugal na “New York World's Fair”, de 1939, um “Decálogo do Estado novo”, vários livros de promoção turística, o número dois da revista “Colóquio”, da Fundação Calouste Gulbenkian, datado de 1959, cuja capa reproduz todo o habitual imaginário criado à volta da saga dos descobrimentos ou dos navegantes, ou um catálogo do “Salão dos Novíssimos”, de 1963, com um arrojado design de Sebastião Rodrigues.

“Art in Chairs” tem revolucionado o modo de conceber cadeiras

“Art in Chairs” tem revolucionado o modo de conceber cadeiras

LUCÍLIA MONTEIRO

Nos últimos anos os industriais de mobiliário de Paredes têm feito um interessante investimento da criação de uma nova imagem, o que passou, entre outras iniciativas, por uma aposta na renovação do design de cadeiras através do “Art in Chairs”, com resultados muito apreciados. Alguma dessa produção está em Matosinhos, bem como peças icónicas de Daciano Costa, mas também de Toni Grilo, Miguel Vieira ou Tomás Taveira.

O mobiliário tem, de resto, uma presença forte na exposição, desde logo pela presença de um espaço dedicado à Escola do Porto, com várias propostas saídas de projetos de Fernando Távora, Álvaro Siza, Eduardo Souto de Moura, Adalberto Dias, e outros, a que se juntam os desenhos da Fábrica Olaio ou as edições limitadas ou peças únicas.

Já não conseguimos viver sem cartazes. Já estranhamos as paredes nuas, despidas de qualquer informação gráfica. Já não entendemos a sociedade contemporânea sem o contributo do design gráfico. É portador de mensagens políticas, divulga acontecimentos culturais, chama a atenção para a novidade no mundo que nos rodeia. É pena, mas a exposição não consegue dar ao cartaz a importância e a dignidade compatível com a relevância hoje ocupada no nosso quotidiano. Remetida para uma parede de escassa visibilidade, fica uma seleção de algumas boas propostas gráficas feitas ao longo de quase duas décadas. Percebem-se diferentes linguagens, mas percebe-se, sobretudo, como seria necessário mais espaço para que cada uma dos cartazes pudesse respirar melhor.

LUCÍLIA MONTEIRO

É um problema que se repete à medida que se avança na mostra, como no espaço dedicado aos logos de marcas criados em Portugal nos últimos dez anos para 40 marcas, ou ao humor na ilustração, no cartune e na banda desenhada, numa revisitação de alguns mestres, como Bordalo Pinheiro, João Abel Manta, António ou André Carrilho.

Para lá de uma pequena amostra de boas edições em livro ou de aspetos do trabalho de designers de tipos de letras nacionais, a mostra concede ainda espaço para uma visão do que de relevante tem vindo a ser feito no contexto da música independente, com a criação de capas para CD ou vinil.